O Quarto de Jack (2015)

•February 18, 2016 • Leave a Comment

Título original: Room

Origem: Canadá / Irlanda

Direção: Lenny Abrahamson

Roteiro: Emma Donoghue (também autora do livro)

Com: Brie Larson, Jacob Tremblay, Sean Bridgers, Joan Allen, William H. Macy, Tom McCamus

Imagine-se vivendo em um quarto pequeno, sem janelas, durante sete anos, sem direito a sair para nada! E para piorar, servindo de escrava sexual de um homem desconhecido que aparece de vez em quando para trazer o básico para sua sobrevivência e para exigir seus “direitos”. E se esse homem lhe desse um filho? Um bebê não desejado, fruto de um ato violento, injusto e cruel, mas que vai se tornar sua maior razão de (sobre)viver.

Essa é, de forma muito simplista, o ponto de partida do filme que comentarei hoje, O Quarto de Jack, quarto da série “rumo ao Oscar”, concorrendo em quatro categorias : Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Atriz. room 2

Um filme sensível, às vezes duro de assistir, angustiante, bonito e emocionante!

Baseado no livro homônimo da irlandesa Emma Donoghue, que também assina o roteiro, O Quarto de Jack conta a história de Joy (a grandiosa Brie Larson), uma adolescente raptada, violentada e feita prisioneira de um desconhecido, apelidado por ela de Velho Nick (Sean Bridgers). Transformada em uma espécie de escrava sexual, a jovem acaba engravidando de seu algoz e dá à luz Jack (o encantador Jacob Tremblay).

O filme começa, então, no dia do aniversário de cinco anos do pequeno, tendo como ponto de vista narrativo o olhar do menino. Uma criança aparentemente feliz que não conhece nada além daquele pequeno quarto em que vivem, por onde só se enxerga o exterior (céu), via claraboia no teto e pela televisão, ponte entre o mundo real (Quarto) e o da fantasia (exterior). Ou seria o contrário? Para Jack, tudo o que acontece no “espaço” – como ele chama o exterior – é tão fantasioso quanto nos livros de história que sua mãe lê para ele.

Para não enlouquecerem e para tornar a vida do filho um pouco próxima do que considera “normal”, Joy cria uma rotina para os dois: Café da manhã, exercícios, hora de ver televisão, de ler, de tomar banho, etc. Atividades que acabam por dar um certo ar de normalidade e graça à vida daqueles personagens, ao ponto de, por vezes, fazerem-nos até ignorar a gravidade da situação.

E aqui, tenho que abrir parênteses para falar da atuação da dupla. A sintonia entre os dois atores é total e absurda. Tudo parece tão real e verdadeiro! Atuações equilibradas, sinceras e, por que não dizer, perfeitas, que nos comovem profundamente. A última vez que vi tamanha sintonia entre mãe e filho (ou seja, entre atriz e ator) foi no filme canadense Mommy (leia o post do dia 19/4/15), de Xavier Dolan. Não levando aqui em consideração, claro, os enredos dos dois filmes que são totalmente diferentes. Mas o que quero dizer é que o trabalho da dupla, sem desmerecer a excelente direção do irlandês Lenny Abrahamson – que soube guiar seus atores sem nunca deixa o filme cair no dramalhão – é sem sombra de dúvidas, o maior trunfo de O Quarto de Jack. O pequeno Jacob é uma joia rara, já tendo até arrebatado o Critics’ Choice Award (Best Young Actor) e a jovem Brie Larson é, não sem razão, fortíssima candidata a levar o Oscar de Melhor Atriz neste ano. Sem falar em Joan Allen, que também está excelente no papel da mãe / avó.

Com relação à estética do filme, nada de grandes novidades, porém tudo muito justo, correto, equilibrado, bem filmado e bonito. Várias tomadas em contra-plongée absoluto ou em plongée absoluto são um caminho lógico e esperado para o tipo de história narrada. A trilha, que se faz notar apenas nos momentos-chave, também foi muito bem utilizada. Silêncios intercalados por músicas em crescendo ajudam a dar um clima de tensão à situação apresentada.

Dotado de bom ritmo, pode-se dizer que O Quarto de Jack é dividido em duas partes: a do Quarto em si e a do Mundo. Na primeira, nós, espectadores, também somos confinados àquelas quatro paredes. Um cenário claustrofóbico, feio e de pouca luz mas que consegue, em alguns poucos momentos, se transformar quase em um cenário de conto de fadas à la Cinderela ou Alice no País das Maravilhas, graças ao olhar inocente e doce de Jack. Sonhamos com ele, entramos na sua fantasia de sobrevivência e chegamos até a encontrar graça e beleza naquele universo paralelo tão cruel e desumano. Pena que esses momentos durem pouco…

A segunda parte, já no Mundo, depois que os dois conseguem escapar do cativeiro, é mais ensolarada, com tomadas mais amplas (planos gerais, planos americanos, etc.), coloridas, mas, por incrível que pareça, é a mais difícil, menos harmoniosa, mais angustiante e dura de resolver. Não tendo mais que “sobreviver”, Joy agora precisa reaprender a viver. Reaprender a viver em sociedade, ao lado de outras pessoas, de gente que questiona, que se envolve, que se importa, que ama ou que não ama e que interfere. Aquele mundo paralelo, criado por ela, e de certa forma “protegido” da realidade, já não existe mais. A relação harmoniosa entre mãe e filho, sem interferência exterior (fora, obviamente, a constante ameaça na figura do Velho Nick), ficou para trás. “Ma” já não é mais a única pessoa no mundo para Jack. Assim como Jack não é mais o único ser humano que conta para Joy. As preocupações agora vão muito além da sobrevivência dela e do menino. E aí o filme surpreende, ao ganhar uma camada ainda mais profunda de reflexão.

Duas partes bem diferentes, embora igualmente densas e bem realizadas, que contrastam entre si e que se somam, levando-nos a refletir sobre uma série de questões da vida em sociedade. Um filme que não é baseado em fatos reais, mas que não deixa de contar a triste história de tantas adolescentes por aí afora e de relações complicadas vividas por várias famílias em todo o mundo.

Mais que isso, O Quarto de Jack é sensível, duro, emocionante e lindo, um conto não-de-fadas em que a fantasia ajuda a realidade a ser tornar vivível, mexendo de verdade com nossos sentimentos. Preparem o lenço!

PRA PENSAR e PRA CHORAR.

Carol (2015)

•February 13, 2016 • 2 Comments

Título original: Carol

Origem: EUA / Inglaterra

Direção: Todd Haynes

Roteiro: Phyllis Nagy, Patricia Highsmith (livro)

Com: Cate Blanchett, Rooney Mara, Sarah Paulson, Kyle Chandler, John Magaro, Jake Lacy

 

Terceiro da série “rumo ao Oscar”, hoje vou falar de um filme talvez um pouco menos pretensioso do que os dois anteriores, mas, nem por isso, de menor qualidade.

Carol é um filme de fácil compreensão, sem rodeios, nem subterfúgios, em que nada está implícito, apesar de seu tema ainda tabu em tantas sociedades: a homossexualidade feminina. Imaginem, então, nos anos 50, época em que a história se desenrola.

carol poster

Em 1952, aliás, a Associação Americana de Psiquiatria acabava de incluir a homossexualidade na lista de distúrbios mentais (sociopathic personality disturbance). Neste mesmo ano, a jovem escritora Patricia Hightsmith, que havia tido enorme sucesso com seu primeiro livro Strangers on a Train, graças à adaptação feita por Hitchcock às telona – em português Pacto Sinistro (1951) –, viu-se obrigada a publicar seu segundo romance sob o pseudônimo Claire Morgan. O motivo? O conteúdo “escandaloso” de sua história: amor entre duas mulheres.

E é justamente baseado na obra The Price of Salt, considerada pornográfica para a época, que Carol foi realizado.

Em uma Nova Iorque dos anos 50, o filme conta a história de amor entre Carol (uma Cate Blanchett mais elegante do que nunca!) e Therese (Rooney Mara). Mulheres de gerações diferentes, classes sociais também diferentes, vivendo momentos igualmente distintos em suas vidas. Carol, mulher rica e belíssima, está em pleno processo de divórcio, ainda discutindo com o ex-marido a guarda de sua única filha. Therese, jovem da típica working class americana, trabalha em uma loja de departamentos chique, vendendo bonecas para clientes endinheiradas, mas sonha em tornar-se fotógrafa profissional algum dia. Tem um namorado – Richard (Jake Lacy) – que planeja casar-se com ela e ainda leva-la para uma viagem de sonhos na Europa.

Por uma obra do destino (e quem sabe do bom velhinho, já que a história se passa no período do Natal), as duas mulheres acabam se encontrando, se conhecendo e, pouco a pouco, percebendo-se atraídas uma pela outra.

Iniciado com um belo plano-sequência que nos dirige, por meio de um gracioso movimento de câmera, a um chique restaurante em Manhattan, somos então apresentados às duas protagonistas. De uma conversa interrompida nesta primeira cena, passamos então a um longo flashback, em que veremos o desenrolar da relação que une as duas mulheres. Um romance que tem como pano de fundo uma sociedade extremamente moralista e todas as implicações e complicações que representam viver uma relação homossexual naquela época, ainda mais sendo mãe, em processo de divórcio e lutando pela guarda da filha.

Indicado à Palma de Ouro em Cannes em 2015, mas não levando a estatueta, impossível não traçar aqui um paralelo com o badalado filme francês La Vie d’Adèle (2013), de Abdellatif Kechiche (se você não viu, leia o post do dia 20/10/13), que também retrata o romance entre duas mulheres de classes sociais diferentes e que, no caso, ganhou a Palma de Ouro em 2013. Enquanto o diretor do filme francês insistiu em mostrar todas as partes, optando por uma estética crua, realística e nua do romance (sobretudo nas cenas de sexo), Todd Haynes optou pela sutileza, pela sensualidade e pela elegância. Enquanto o filme de Kechiche nos choca, o de Haynes nos encanta. É belíssimo! Cheio de cenas-fetiche, com vários closes de mãos, nucas, cabelos, bocas e olhares, mas tudo de uma suavidade, delicadeza e beleza inacreditáveis, mostrando que não é preciso agredir o espectador para tocá-lo. Do lado de cá da tela, torcemos pelo amor das duas personagens, envolvemo-nos com seus sofrimentos e angústias e alegramo-nos com suas pequenas felicidades.

Filmado com uma Super 16mm (o mais comum é usar uma 35mm) o filme ganhou uma tonalidade meio envelhecida, meio amarelada, meio “antique”, sofisticada. Janelas e vidros são temas recorrentes em Carol. Olhares que veem e são vistos através de vidros opacos, embaçados, molhados, sujos. Seres humanos que se escondem, se protegem e, ao mesmo tempo se enxergam nesse jogo transparência-opacidade tão bem empregado aqui por Haynes.

A trilha sonora – composta por blues, jazz e pop americana dos anos 50 – também merece destaque. Ela acompanha à perfeição o ritmo e o tom elegante do filme, indo de Billie Holiday a The Clovers, passando por Georgia Gibbs e Les Paul and Mary Ford. Muito boa!

Para terminar, enquanto A Grande Aposta e O Regresso são filmes extremamente masculinos, este aqui é pura feminilidade. Com ritmo perfeito, duração também (não se vê a hora passar), Carol é um filme delicado, lindo, sensual, feminino, elegante, conciso, redondo! Mas talvez não original o suficiente para ganhar um Oscar. Já Cate Blanchett e Rooney Mara podem, sim, sair no dia 28 carregando uma estatueta dourada. A primeira por Melhor Atriz e a segunda por Melhor Atriz Coadjuvante. Vamos aguardar!

PRA SE ENCANTAR.

 

A Grande Aposta (2015)

•February 8, 2016 • Leave a Comment

Título Original: The Big Short

Origem: EUA

Direção: Adam McKay

Roteiro: Charles Randolph, Adam McKay e Michael Lewis (livro)

Com: Ryan Gosling, Christian Bale, Steve Carell, Brad Pitt, Finn Wittrock, John Magaro

Segundo da série “rumo ao Oscar”, hoje vou falar de um filme que vem causando alvoroço em meio ao público brasileiro: A Grande Aposta.

the big short

Entendo. O filme, encenado por um elenco de primeira grandeza, é uma adaptação do livro de mesmo nome, escrito pelo jornalista Michael Lewis, e relata a complexa trama que levou à crise imobiliária de 2008 nos Estados Unidos. Um livro dificílimo de ser traduzido para a língua dos “reles mortais” e, mais complicado ainda de ser adaptado às telonas. E só por isso, o diretor Adam McKay já pode se considerar vitorioso. O filme ficou relativamente fácil de se entender e pode até ser considerado (por alguns) bem divertido! Meu irmão economista adorou!

No entanto, pelos meus olhos que enxergam mais o aspecto cinematográfico da história, McKay pecou pelo excesso. Abusou demais dos efeitos que a Sétima Arte oferece e das gags que ajudam um filme a se tornar divertido e criou uma espécie de “Frankstein”, excessivo, caricato e metido a engraçadinho demais. Ficou cansativo! Mas antes que vocês me atirem pedras, vou tentar me defender…

Vamos lá!

  1. Movimento de câmera – Aquela câmera mexe demais! Certamente, a explicação para tal excesso pode estar no desejo de mostrar a agitação enlouquecida da vida do pessoal do mundo financeiro. Ok, concordo, apesar de ter ficado tonta. Este é, sem dúvida, um bom argumento e esta é uma boa estratégia estilística.
  2. Falta de foco – Em inúmeras cenas, as imagens perdem o foco. Aqui também se pode alegar que a falta de foco representa toda a loucura em que se vive no mercado financeiro. Workaholics que não enxergam nada além de números, oportunidades, painéis, fortunas e que, perdem muitas vezes o foco da vida. Também uma boa estratégia.
  3. Regard-caméra – A técnica de se olhar direto para a câmera e conversar com o espectador – que já foi um tabu no cinema clássico, mas que há muito deixou de ser – é usada e abusada por McKay. Mais uma vez, uma ótima estratégia para tornar o filme mais leve, mais didático e mais palatável. Mas até aqui já são três ferramentas usadas. E ainda não acabou.
  4. Inserções de cenas não-diegéticas – Inserção de cenas de efeito retórico, não pertencentes ao enredo do filme, que interrompem a narração para agregar-lhe um caráter didático. A primeira, com uma belíssima loura na banheira – no caso, a atriz australiana Margot Robbie – tomando champanhe (achei de péssimo gosto); a segunda, com o famoso chef americano Anthony Bourdain, ensinando a como reaproveitar ingredientes; e a terceira com a atriz/cantora pop Selena Gomez e o respeitado economista Richard Thaler, professor na Universidade de Chicago. Recurso também super válido para cumprir o objetivo de tornar o filme mais inteligível e divertido e, sem dúvida, até agora, o mais original deles.
  5. Inserção de imagens fixas (subjetivas ou explicativas) – Espécie de flashes compostos de imagens fixas que se intercalam com as imagens em movimento (cenas) e que introduzem pensamentos, delírios, sonhos, etc. Recurso bastante usado nos anos 90, sobretudo nos videoclips, mas também no cinema, e que, apesar de datados, também podem ter seu valor didático e divertido.
  6. Inserção de elementos animação ou textos sobre as cenas do filme – Estamos aqui diante do sexto recurso para transformar um assunto chato, em algo divertido, interessante e fácil de entender. Mais uma vez, uma ferramenta que tem seu valor. Mas será que ainda precisa????

Isso tudo dito e listado, volto ao meu ponto. Mckay usou, abusou e se lambuzou. Como se o diretor tivesse selecionado vários ingredientes exóticos para fazer uma receita original e tivesse terminado por fazer um “mexidão”. Ficou interessante? Talvez. Rico? Para mim, não. Poderia, ao invés, ter confiado mais na atuação de seu elenco que é, aliás, fantástico – Christian Bale e Steve Carell dão show! – e ter selecionado talvez uns três desses recursos estilísticos.

Provavelmente pese contra mim o fato de se tratar de um tema que desconheço ao extremo e que considero muito complicado e chato. Só que, se o objetivo era torna-lo palatável, divertido e inteligível para leigos, para mim a fórmula não funcionou. No meio do filme já estava torcendo para que estourasse logo a bolha imobiliária americana para eu poder ir embora para casa. Que me desculpe a legião de fãs do filme, que sei que é enorme!

A Grande Aposta está concorrendo em cinco categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator Coadjuvante para Christian Bale e Melhor Montagem.

Um bom filme PRA PENSAR e PRA QUEBRAR A CABEÇA.

O Sal da Terra (2014)

•February 6, 2016 • Leave a Comment

Título original: The Salt of the Earth

Origem: Brasil / França / Itália

Direção: Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado

Roteiro: Wim Wenders, Juliano Ribeiro Salgado e David Rosier

Com: Sebastião Salgado, Juliano Ribeiro Salgado, Lélia Wanick Salgado, Wim Wenders (narração)

Abrindo parêntesis na série “rumo ao Oscar 2016”, gostaria de comentar rapidamente um documentário que concorreu ao prêmio da Academia Americana de Artes e Ciências Cinematográficas no ano passado, mas que acabou perdendo a estatueta para Citizenfour (2014), de Laura Poitras, sobre o vazamento dos segredos americanos por Snowden.

O Sal da Terra conta de forma poética a trajetória do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado.

Dirigido e narrado pelo alemão Wim Wenders, codirigido e fotografado pelo primogênito do próprio Sebastião, o filme percorre aproximadamente 40 anos de trabalho deste economista que um dia se descobriu fotógrafo. Acompanhado e incentivado por sua companheira de vida, Lélia, o brasileiro percorreu o mundo – e continua a percorrer – registrando paisagens (geográficas e humanas) nem sempre divulgadas.

the salt of earth

Belíssimo, forte, profundo, tocante, com cenas de arrepiar, o filme apresenta-nos muito mais do que a vida de um profissional da fotografia, oferece-nos praticamente um estudo etnográfico registrado pelas lentes de um ser humano grandioso, e tão simples ao mesmo tempo, que enche de orgulho nossos corações brasileiros, em uma época tão carente desse sentimento.

Misturando fotografias do próprio Sebastião, com imagens de arquivo e mais as tomadas de agora feitas por Juliano Salgado, o filme nos mostra, com toda a tranquilidade característica da terra natal do fotógrafo – Aimorés, Minas Gerais – que cada um de nós pode contribuir de alguma maneira para transformar o mundo em um lugar melhor para se viver.

Se você ainda não assistiu, corra para vê-lo. Já está disponível no Netflix e é um espetáculo de documentário, além de uma bela lição de vida.

Ganhador do Un certain regard, prêmio especial do Júri em Cannes 2015, além do César de Melhor documentário também em 2015, O Sal da Terra nos leva a refletir sobre os valores de nossa sociedade de consumo, nossos próprios valores, nossos caminhos, nossas escolhas e nossas possibilidades, ao mesmo tempo que nos apresenta um grande profissional e um grande homem. A não perder!!!!

PRA PENSAR e PRA SE ENCANTAR.

 

O Regresso (2015)

•February 3, 2016 • Leave a Comment

Título original: The Revenant

Origem: EUA

Direção: Alejandro González Iñárritu

Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Mark L. Smith, Michael Punke (livro)

Com: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhanall Gleeson, Will Poulter, Paul Anderson, Forrest Goodluck

A corrida para o Oscar já começou há algum tempo, mas só agora estou tendo a oportunidade de começar a assistir aos filmes-candidatos de 2016. Abro hoje, então, os trabalhos com aquele que obteve o maior número de indicações – 12 no total – à premiação concedida pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas Americana: O Regresso.

Filmão, a ser visto impreterivelmente no cinema, poético, tenso, denso, sublime e sangrento.

Baseado no livro de Michael Punke, O Regresso conta a história (verídica, apesar de inverossímil) de sobrevivência de Hugh Glass, um caçador de peles de animal e espécie de guia nas terras geladas do norte dos Estados Unidos, fronteira com Canadá. Personagem magnificamente interpretado por Leonardo DiCaprio, que tem grande chance de levar a estatueta dourada neste ano.

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No início do século 19 (por volta de 1820), Glass, acompanhado de seu filho mestiço Hawk (Forrest Goodluck), tem como missão auxiliar um grupo de mercenários (caçadores de pele) e oficiais americanos a atravessar os “desertos” gelados do Missouri. Uma região bela e hostil, habitada por animais selvagens e índios das tribos Pawnee e Ree (Arikaree), e extremamente disputada por americanos e franceses que buscam na caça aos animais (e às suas peles) a solução para o frio, para os seus bolsos e para suas conquistas territoriais.

Dentro do grupo há John Fitzgerald, também magnificamente interpretado por Tom Hardy, um homem incrédulo que odeia índios e que não enxerga em Glass nada além de um inimigo. A razão principal para tanta animosidade é o passado “duvidoso” do rapaz: filho com uma Pawnee e assassinato de um oficial americano. Depois então que Glass é atacado por um urso fêmea e fica entre a vida e a morte, tornando-se um peso para a expedição, Fitzgerald encontra ainda mais motivos para descarta-lo do grupo. Assim, quando encarregado de cuidar do moribundo, enterra-o (não totalmente) ainda com vida em uma cova e o abandona naquela imensidão gelada.

A partir daí começa a saga de Glass, um homem com feridas profundas que renasce para se vingar de seu algoz.

E para contar essa história de amor e vingança, Iñárritu foi buscar no olhar certeiro e poético do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki seu maior trunfo. O já “oscarizado” diretor de fotografia de Gravity (2013) e Birdman (2014) tem mais uma vez grandes chances de levar neste ano, a terceira consecutiva.

Sublime talvez seja a palavra mais acertada para definir a estética de O Regresso. Uma natureza bela e aterrorizante, que fascina e amedronta, filmada com maestria. Planos-sequências, planos estáticos, planos longos, primeiros planos, closes, planos curtos, tudo se alterna, complementa e intercala. Planos filmados com uma câmera bailarina (ou guerreira) que acompanha de perto o movimento dos personagens, nos fazendo viver cada cena. Batalhas filmadas com realismo, com flechas atravessando corpos, muito sangue e muita agitação contrastam com a beleza de longos planos calmos de paisagens encantadoras que demonstram a pequenez do homem diante da natureza.

Iluminação natural, sem efeitos, que trazem ainda mais realismo para o cenário de O Regresso complementam a estética de O Regresso. Difícil dizer quais cenas merecem destaque, são tantas… talvez me arriscasse em assinalar a que Glass se torna um pontinho preto no meio do vasto branco já na segunda metade do filme, ou a linda cena do céu visto em contra-plongée absoluto, ao som da respiração do protagonista, ou ainda o primeiro plano-sequência, logo após o prólogo, em que, com uma câmera baixa sobrevoamos algo que parece ser um riacho, à altura dos pés dos personagens. Não sei… são tantos momentos sublimes!

Uma cena que marca, não só pela estética, mas, sobretudo, pelo que ela representa no filme é aquela em que Glass tira as tripas do cavalo para se abrigar em seu ventre. Momento em que vemos a necessidade de proteção materna (e/ou paterna) para, em seguida, vermos o renascer do animal homem. A simbiose homem natureza, homem animal, lindamente representada por um plano em plongée absoluto em que o vermelho ganha destaque na imensidão branca.

O aspecto “família” (maternidade, paternidade), aliás, é central no filme, um verdadeiro leitmotif que move seres de tribos, raças e espécies tão distintas. Todos, ou quase todos ali, são movidos por questões familiares: o índio que sai em busca da filha raptada, Glass que quer vingar a morte de sua família, o índio que aparece mais tarde na historia e que erra pelo mundo depois de ter perdido sua esposa ou ainda a ursa que ataca para proteger seus filhotes… Um tema universal que transcende culturas, línguas, regiões geográficas, credos religiosos, etc.

Com este filme épico-poético, Iñarritú continua a esbanjar talento, tornando-se um forte candidato na corrida ao Oscar. Se tivesse que assinalar um senão do filme, seria o ritmo. A duração não ajuda, claro! O filme é longo e em alguns momentos acaba pesando um pouco, fica muito lento, talvez dispersando a atenção de alguns espectadores. Talvez um equilíbrio melhor entre cenas de ação e cenas de contemplação tivessem ajudado neste quesito. Mas nada que tire o brilho deste filme que veio para entrar na história.

Um filme PRA SE ANGUSTIAR e PRA CONTEMPLAR.

 

The Lobster (2015)

•December 6, 2015 • Leave a Comment

Título original: The Lobster

Origem: Inglaterra, Irlanda, França, Grécia, Holanda, Estados Unidos

Direção: Yorgos Lanthimos

Roteiro: Yorgos Lanthimos, Efthimis Filippou

Com: Colin Farrell, Rachel Weisz, Léa Seydoux, John C. Reilly, Olivia Colman

Faz tempo que não assisto a um filme tão original, tão surreal e tão rico em conteúdo! Uma excelente sátira de nossa sociedade ocidental, totalmente surrealista, regada a uma forte dose de humor negro, sarcasmo, tristeza e uma certa melancolia.

The Lobster, quarto filme do grego Yorgos Lanthimos (primeiro rodado em inglês) e ganhador do Prêmio do Júri em Cannes neste ano, é forte, denso, escuro, irônico e absolutamente fantástico! the lobster poster

A história se passa em uma sociedade distópica perdida em algum lugar da Europa em algum período da História. Neste lugar não identificado no mapa nem no calendário, ser casado é obrigatório. Os solteiros são enviados a um hotel-prisão-de-luxo e têm até 45 dias para conseguir arrumar um parceiro. Caso não sejam bem sucedidos nesta missão, são transformados em animais (de sua preferência) e soltos em uma floresta das redondezas.

O filme vai então contar a história de David (um excelente Colin Farrell), que será dispensado por sua esposa já na primeira cena (depois do prólogo). No canto da tela, vemos David de costas, enquanto ouvimos a voz de uma mulher terminando um longo relacionamento. Em seguida, vemos David sendo levado por mordomos-enfermeiros, junto com seu cachorro (que depois vamos descobrir que se trata do seu irmão), para uma van branca (Ambulância? Camburão?). Até aí, não sabemos muito do que se trata o filme. Percebemos que há algo de bizarro, sobretudo pela trilha que acompanha essas primeiras cenas (meio cômica, meio de suspense), mas, apesar do prólogo meio non-sense que vimos logo antes, ainda não enxergamos o quão surreal será esse mundo.

Eis que então, uma voz de mulher surge e começa a narrar a história. Sua voz, junto com as instruções dadas pela gerente do Hotel, a quem seremos apresentados um pouco mais adiante no filme, mais as falas dos personagens, vão nos fazendo entender aos poucos como funciona essa sociedade surrealista que tanto tem em comum com a nossa.

Uma sociedade maniqueísta (qualquer semelhança é mera coincidência), hipócrita, ditada por padrões extremamente rígidos, em que poucos têm nome. Vestem-se de forma idêntica e são, em geral, identificados por suas características físicas (“defeitos”), por seus hábitos ou, mais precisamente, pelos “rótulos” que lhes são colados ao longo de suas vidas. Ex: O homem manco (the limping man), a mulher do biscoito (the biscuit woman), a mulher que sangra o nariz (the bleeding nose woman), a míope (the short sighted woman), etc. E não é assim também em nosso mundo? Todos colocados em “caixinhas”? A gordinha, o manco, a branquela, o nanico, a estressada, o zen, etc. Difícil é a gente conseguir se livrar dos rótulos que “ganhamos”… como se isso definisse quem somos!

Na segunda parte do filme, deixamos o hotel e adentramos a floresta, onde vamos descobrir os solteiros-rebeldes, uma espécie de resistência ao stablishment, lideradas pela atriz francesa Léa Seydoux, que, assim como os outros personagens, não tem nome. Uma facção que faz oposição às imposições do sistema, mas que nem por isso deixa de ser radical, burra e cega. Na verdade, creio ser este o ponto crucial do filme. É justamente essa nossa mania de só enxergar preto ou branco, de querer colocar tudo dentro de padrões, etiquetas, compartimentos, etc., que nos emburrece, que nos torna míopes ou até mesmo cegos. Não à toa os protagonistas são míopes e várias cenas estão fora de foco!

Os rebeldes-solteiros são tão ditadores e radicais quanto os casados-conformados. Os membros desta facção não podem ter relações sexuais, não podem se apaixonar, têm que cavar literalmente sua própria cova e só podem dançar ao som de música eletrônica, por que assim só podem dançar sozinhos. Desculpem-me os fãs do eletrônico, mas adorei a piada!

E é no meio deste outro mundo de extremos que David vai descobrir o amor, na figura da solteira-rebelde Míope Rachel Weisz. E, neste ponto, o filme se converte em uma clássica (nem tanto) história de amor, em que os apaixonados têm que lutar contra as convenções da sociedade para poderem viver seus sentimentos.

The Lobster é um drama cômico-fantástico – lembrou-me aqui e ali os filmes de Wes Anderson – que trata de forma irônica de preocupações recorrentes em nossa sociedade ocidental, como a solidão, o conformismo, a adequação, a falta de liberdade, os estereótipos e muito mais. Um filme extremamente sério, disfarçado de cômico por suas tantas alegorias e que nos faz pensar por muito tempo depois que saímos da sala de cinema.

Como não é difícil de imaginar, o animal escolhido por David, caso ele não consiga arrumar uma nova parceira é uma lagosta. Também não por acaso um animal-símbolo do Surrealismo. Por que uma lagosta? Por ser um animal que vive muito (mais de 100 anos), por viver no mar (ele gosta do mar) e por ter sangue azul (como os nobres).

E você, se tivesse que escolher um animal para ser em outra vida, que animal escolheria?

PRA PENSAR

Refugiado (2014)

•November 15, 2015 • Leave a Comment

Título original: Refugiado

Origem: Argentina

Direção: Diego Lerman

Roteiro: Diego Lerman, María Meira

Com: Julieta Díaz, Sebastián Molinaro, Marta Lubos, Silvia Baylé, Sofía Palomino, Sandra Villani, Paula Ituriza, Carlos Weber

O texto de hoje não é apenas sobre um filme, mas sobre uma experiência fílmica e de vida que me marcou imensamente nessa semana que passou.

refugiado

A convite do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), tive o privilégio de assistir à projeção do filme Refugiado em um centro cultural de uma “villa” (favela) de Buenos Aires. A ideia era projetar um filme que tratasse do tema violência doméstica para um público que sofre na pele (e nos nervos) os males de uma relação desigual, injusta, indigna. A projeção seria, então, seguida de uma “charla” – conversa informal sobre o tema.

A ficção

A história que nos conta Refugiado é uma ficção, não está baseada na vida de ninguém especificamente e, ao mesmo tempo, relata o desespero, o medo e a dor de tantas mulheres em todo o mundo.

O filme abre com as imagens do menino Matías (Sebastián Molinaro) em uma festa de aniversário. Vestido com capa vermelha, óculos de natação (transformado em máscara) e um cinto de utilidades improvisado, ele espera a chegada de sua mãe Laura (Julieta Díaz), que deveria vir buscá-lo, mas que, por razões desconhecidas, não aparece na hora devida.

A roupa de super-herói das primeiras cenas – escolha super acertada de figurino – já anuncia o que vai ser um leitmotiv do filme: é preciso ter super poderes para enfrentar certas situações da vida. Uma fantasia que representa tanto a inocência da infância como o desejo e a necessidade reais de se transformar, vez por outra, em super-herói a fim de sobreviver. Uma fantasia que vai, pouco a pouco, perdendo suas partes – somem primeiro os óculos, depois o cinto, por último a capa – ao mesmo tempo em que o pequeno Matías vai perdendo sua inocência. Já na segunda sequência, quando o menino encontra a mãe no chão do apartamento, toda machucada, depois de ter sido agredida pelo marido, nosso pequeno protagonista já se vê obrigado a vestir sua verdadeira capa de herói.

A partir daí o filme vai ser tornar um thriller (meio road-movie) com mãe e filho saindo em disparada numa tentativa enlouquecida de escapar dos maus tratos. Indo de um lugar a outro – centro de refugiados, motel, etc., – os dois vão ser perseguidos o tempo todo pelo toque estridente do telefone celular da mãe. Ferramenta de comunicação transformada em ferramenta de tortura, ele é a personificação do agressor. Cada toque representa uma ameaça, uma tensão que cresce, um medo que se apodera da agredida. O toque escolhido para o telefone – outra escolha bem acertada – é enlouquecedor, deixando-nos aturdidos, incomodados, irritados, nervosos. Tememos por eles e com eles. A agressão física é substituída ou agravada pela psicológica. Um jogo cruel, de difícil saída.

A direção de arte é muito boa. Uma paleta de cores tristes, escuras, que retratam bem o clima de tensão da história. Cenas de fuga filmadas com uma câmera nervosa contrastam com as cenas posadas, captadas por uma câmera fixa de enquadramento perfeito. Belas cenas, bem compostas, bem pensadas que nos permitem respirar para continuar o périplo rumo à liberdade, verdadeiros quadros que retratam uma triste realidade.

A realidade

Depois do filme, o debate. Ou melhor, a “charla”. E foi aí que desmontei, constatando, ao mesmo tempo, o poder da sétima arte em desencadear um processo positivo de catarse. As mulheres ali naquela plateia se identificaram com Laura, sentiram sua dor, ao reviver (e ver na tela) suas próprias dores. Com vozes tremidas, compartilhara corajosamente suas próprias experiências. Foram vários relatos de mulheres que já saíram de situações de violência, ou de outras que, com lenços de papel em punho, contaram o que ainda estão vivendo, e o que estão fazendo (ou tentando fazer) para tentar escapar do pesadelo. Em seus testemunhos, confirmaram que o telefone é, de fato, uma arma de controle e de tortura muito usada pelo agressor. Um terror psicológico que complementa a agressão física e que, pior, funciona 24 horas, 7 dias por semana.

Aprendi também ali que muitas das atrizes e figurantes que aparecem no filme são sobreviventes reais de violência doméstica. Mulheres que conseguiram sair do inferno da submissão, do medo e da agressão. O processo não é fácil, não é simples e não é rápido. Há recaídas, há vais-e-voltas, há a culpa por separar o pai dos filhos, há a dependência financeira, há o orgulho, a vergonha… tantos fatores que impedem que escapem da situação. Mas há saída. Nem que para isso, se tenha que vestir a capa de super-herói, colocar o cinto de utilidade e fugir em disparada.

Refugiado é um grito de alerta, um abrir os olhos para uma situação que não é privilégio de um único país, de uma única cultura ou de uma única classe social. A violência doméstica desconhece essas diferenças, ela acontece em todas as camadas da sociedade, em todas as épocas de nossa história, em todos os lugares do mundo. Infelizmente. Que este filme não violento sobre violência – não há nenhuma cena violência (física) – nos sirva de aviso.

PRA PENSAR e PRA SE ANGUSTIAR

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (2014)

•November 2, 2015 • 2 Comments

Título original: Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance

Origem: EUA

Direção: Alejandro González Iñárritu

Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris, Armando Bo, Raymond Carver

Com: Michael Keaton, Emma Stone, Naomi Watts, Edward Norton, Zach Galifianakis, Andrea Riseborough, Amy Ryan

Com anos-luz de atraso, assisti finalmente ao famoso e oscarizado Birdman. Confesso que, apesar das estatuetas douradas – Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Fotografia – , não fui com “muita sede ao pote”, já que havia lido nas redes sociais e em algumas críticas da época (sobretudo na francesa) que Iñárritu teria se exaltado com este filme, aproveitando-se para se exibir (show-off), usando e abusando das potencialidades da sétima arte para mostrar o quão bom ele era…

birdman cartaz

Depois de assistir ao filme ontem, só pude concordar com esses comentários: sim, o diretor mexicano se exibiu, se exaltou, exagerou e comprovou mais uma vez o seu enorme talento. Birdman é um filmaço, super merecedor dos inúmeros prêmios recebidos. E talvez injustiçado por alguns críticos justamente por pagar o preço da fama, drama tão bem tratado em seu roteiro.

Bem, vamos ao filme!

Em uma espécie de mise en abyme (“narrativa em abismo” – narrativa que contém outras narrativas dentro de si), Birdman conta a história de Riggan Thomson (Michael Keaton) um ator passado da meia idade, em decadência, que luta com todas as suas forças para recuperar o sucesso e a glória que um dia bateram à sua porta. No passado, incarnou nas telas de cinema o super herói Birdman, tendo se tornado uma celebridade, aclamado em todo o mundo. Depois de ter dito não à sua participação em Birdman 4, Riggan viu sua carreira desmoronar aos poucos. Não sem relação com a própria carreira e vida de Michael Keaton, que encarnou Batman (1989) e Batman Returns (1992), não conseguindo mais grandes destaques no universo hollywoodiano.

No presente, numa tentativa louca de recuperar o sucesso, o reconhecimento da crítica e do público, e sobretudo, sua autoestima e sanidade mental, Riggan decide dirigir, produzir e atuar em uma peça de teatro – What we talk about when we talk about love , de Raymond Carver – adaptação de um texto consagrado pela Broadway. Interessante ver aqui aquele eterno duelo entre as artes, voltando à velha questão de que o teatro seria uma arte superior ao cinema, porque mais antiga, mais pura, etc. Talvez um “tendão de Aquiles” na vida dos atores de cinema…

A história vai, então, se passar nos dias que antecedem a estreia da peça na Broadway, período em que vemos a angústia e o temor de Riggan crescendo e tomando conta de todo o seu ser. Convivem em sua mente (e corpo), o ator Riggan Thomson e o personagem Birdman, numa simbiose meio esquizofrênica, um tentando dominar o outro e assumir o poder. De um lado um fracassado mortal que tenta provar seu valor; do outro, uma celebridade, o aclamado herói, dotado de super poderes, totalmente seguro de seu sucesso. Um duelo – que, certamente, não é privilégio só de Riggan – super bem retratado pela voz interna, pela trilha sonora e pela câmera nervosa que persegue os personagens no labirinto dos bastidores do teatro, local que deixa o glamour de fora. Lá vemos os atores despidos de suas fantasias, de suas máscaras, maquiagens, vemos suas fragilidades e suas “humanidades”. Corredores estreitos e escuros, escadas, portas e mais portas que nos confundem, nos causam náuseas, claustrofobia ou, ao menos, um certo incômodo pelo seu excesso. Como se acompanhássemos os vais e vens do pensamento de Riggan, suas angústias e questionamentos, seu aprisionamento naquele homem pássaro que foi um dia e que não o deixa ser ele mesmo.

Aí talvez eu concorde que houve exagero! Iñárritu exagerou no uso dos planos-sequências. Eles me cansaram, me incomodaram ao longo de todo filme. Pensei: poxa, precisava de tantos? Depois, me dei conta que justamente essas tomadas sem fôlego, com movimentos sinuosos, arredondados, esquizofrênicos, davam na justa medida o sentimento de encurralamento que vive o protagonista (e muitos outros atores de teatro e de cinema por este mundo afora, sem falar de nós, espectadores, atores da vida real, que buscamos sem cessar o reconhecimento de alguém). Uma técnica difícil, que exige precisão e muito ensaio, e que, aqui, foi muito bem utilizada.

A trilha é um caso à parte. Quase toda composta em cima do som do baterista Antonio Sanchez, propositadamente ou não, ela acentua esse aspecto de “irritação” e “incômodo”. (Que desculpem os bateristas!). É ela que dá o tom, o ritmo ao movimento do personagem e também à sua loucura. O toque repetitivo irrita como um zumbido dentro da cabeça, uma martelo que bate sem cessar e que enlouquece. Mais uma vez, exagerado, demasiado, mas super apropriado ao filme.

Assim sendo, concluo por onde comecei: Birdman é sim excessivo, com planos-sequências demais, bateria demais, movimento demais, tempo demais (achei um pouco longo!), porém tudo utilizado dentro de um mesmo propósito: de nos mostrar o impasse (ou a loucura) a que a celebridade pode levar. Pode até ser que o lado Birdman de Iñárritu tenha tido, de fato, o propósito de se exibir e derramar todos seus talentos sobre o público. Não importa! O que conta é que o resultado foi um filme de primeira grandeza.

PRA PENSAR

El Patrón – Radiografía de un Crimen

•October 5, 2015 • Leave a Comment

Título original: El Patrón – Radiografía de un Crimen

Origem: Argentina, Venezuela

Direção: Sebastián Schindel

Roteiro: Sebastián Schindel, Nicolás Batlle, Javier Olivera, Elías Neuman (livro)

Com: Joaquin Furriel, Luis Ziembrowski, Mónica Lairana, Germán de Silva, Guillermo Pfening, Andrea Garrote

Hoje vamos de filme argentino de novo!

Desta vez um filme recente, lançado em circuito comercial no início deste ano. Não um tão grande sucesso comercial como Relatos Selvagens (leia o post do dia 23/1/15), mil vezes aclamado e alardeado por toda a imprensa do mundo, mas um filme que chegou tímido, sem fazer grandes alardes, e que vem conquistando pouco a pouco os espectadores que têm o privilégio de lhe assistir.

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El Patrón – Radiografía de un crimen é um filme que conta a história de um crime cometido por um homem simples, pacato, de alma pura. Um ser humano que depois de tantos anos de humilhação, submissão e desencanto, perde seu controle (não tão assim sem relação com Relatos Selvagens…).

Não se trata, naturalmente, de um filme de fácil digestão, já que o prato principal do cardápio é “carne podre”. Carne podre e mesmo assim vendida à população em açougues portenhos. Carne podre de gente de alma estragada, cruel, capaz de explorar ao máximo um cidadão humilde, semi-analfabeto, rotulado desde pequeno de “inapto” pelo Estado Argentino. Aliás “cidadão” é um termo aqui totalmente mal empregado, já que ao protagonista desta história nunca foi apresentada a tal da “cidadania”. Um homem do campo a quem foram negadas as letras, a dignidade, e a quem, desde cedo, foi imposto o conformismo e a aceitação de sua condição de incapaz.

Mas o que torna tudo ainda mais podre é que El Patrón conta uma história real, registrada de forma magistral em livro homônimo – escrito por Elías Neuman, o próprio advogado que defendeu o caso – e levado à telona pelo olhar de Sebastián Schindel, diretor de documentários, estreante no mundo da ficção (ficção?).

Foram doze anos de muito trabalho, entre pesquisas sobre a escravidão moderna na Argentina e em outros países da América Latina, testemunhos, conversas com o advogado/autor do livro, “passeios” pelos açougues do país, viagens a Santiago del Estero, escolha dos atores, até chegar ao roteiro e depois à realização do filme.

El Patrón abre com uma sequência do advogado entrando no Tribunal para resolver pendências e dando de cara com Hermógenes Saldívar (brilhantemente interpretado por Joaquin Furriel), um homem simples de Santiago del Estero – província situada ao norte do país -, acusado de haver assassinado seu patrão, dono de uma rede de açougues em Buenos Aires. No entanto, nesta cena em que aparece pela primeira vez, seu rosto mal pode ser visto, escondido no canto direito da tela, à contra-luz, o foco ficando sobre a Juíza. Composição bem feita e sintomática da situação em que vive o “criminoso” ali naquele momento: a luz na detentora do conhecimento, da “verdade” e da lei, enquanto a sombra paira no detentor da culpa, da ignorância e do pecado.

No entanto, é a juíza, inconformada com o descaso do Defensor Público que deveria atuar no caso de Hermógenes, que pede para o advogado assumir a defesa do réu em troca de um outro pedido feito por ele (troca de favores).

A partir daí o caso vai ser reconstituído por meio de diversos flashbacks, em que vamos vendo e entendendo pouco a pouco o que levou Hermógenes a perder o controle.

Schindel, talvez influenciado pelo mestre Eisenstein, filmou muitas cenas de “pedaços”, compondo-as de forma a nos causar certo asco, ou choque, para ficar dentro da linguagem do cineasta russo. Pedaços de carnes sendo manipuladas por mãos sem rostos nem corpos. Pedaços de carnes sendo cortadas, dilaceradas por mãos sem dono. Ou por um dono sem identidade. Gado. Um dono qualquer cujo nome vai ser roubado, assim como serão roubados seus documentos e sua dignidade. Carne de vaca, carne de homem. Homem sem rosto, sem voz. Faca de crime. Crime sem faca.

Uma pena que o filme não se aprofunde muito no aspecto emocional de Hermógenes e dos demais personagens. Poderia ser ainda muito mais rico. Talvez uma escolha feita por falta de tempo, de verba ou simplesmente por respeitar o livro em que se baseou.

El Patrón é tenso, triste, revoltante, bem feito e, acima de tudo, é um filme que denuncia a situação indecente em que vivem tantos trabalhadores na Argentina e em diversas partes do mundo. Uma obra que traz à tona o assunto que muitos não querem ver: o mundo não está livre da escravidão. Ela apenas está, hoje, mascarada sob outras formas de exploração do trabalhador.

Que a história de Hermógenes transformada em livro e em filme nos sirva não apenas como um “entretenimento”, mas que seja capaz de abrir nossos olhos para enxergar a situação precária e desumana que persiste em nossos tempos, em nossas sociedades ditas “desenvolvidas”.

Não sem interesse é o fato de que a história se passa dentro dos açougues da Argentina, tendo como grande vedete a queridinha dos argentinos (e dos turistas que vêm por aqui): a carne. É preciso abrirmos os olhos e ficarmos atentos. Ou como dizem por aqui: ¡Ojo!

Um filme PRA SE ANGUSTIAR, PRA APRENDER e PRA SE INDIGNAR (nova categoria).

Betibú (2014)

•September 1, 2015 • 5 Comments

Título original: Betibú: crónica de un crimen

Origem: Argentina / Espanha

Direção: Miguel Cohan

Roteiro: Miguel Cohan, Ana Cohan, Claudia Piñeiro

Com: Mercedes Morán, Daniel Fanego, Alberto Ammann, José Coronado

Hoje escrevo sobre mais um filme argentino, na verdade, mais uma coprodução Argentina/Espanha. Desta vez, porém, um filme mais clássico em sua estética, ritmo e conteúdo, e que, talvez, agrade mais facilmente os olhares não tão acostumados ao filme de arte, mais lento e sem grandes ações.

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Betibú é um thriller que gira em torno da investigação de um assassinato. Ou de vários.

Baseado no livro homônimo de Claudia Piñeiro, o filme começa revelando-nos a morte de Pedro Chazarreta, empresário poderoso, que aparece morto em sua mansão localizada nos arredores de Buenos Aires, no condomínio de luxo La Maravillosa.

Com uma câmera-bailarina, dona de movimentos suaves e bem coreografados, e embalada pelo ritmo do jazz que sai do toca-discos do morto, o filme já abre com uma primeira sequência super elaborada, mostrando de cara seu estilo. Interessante notar que esses movimentos tão delicados e femininos contrastam, em princípio, com o tema mortuário e masculino do filme. Mas combinam perfeitamente com sua protagonista, Nurit Iscar (Mercedes Morán) – autora de policiais, afastada da escritura, depois de uma tentativa fracassada de escrever um romance. Ela será a encarregada de cobrir o assassinato para o jornal El Tribuno, dando-lhe assim um viès de ficção.

Mulher forte, inteligente e, ao mesmo tempo, feminina e sedutora, Nurit é também conhecida pelos mais íntimos como Betibú…

Para a cobertura deste assassinato misterioso, vão se juntar à escritora mais dois mosqueteiros: Jaime Brena (Daniel Fanego) e Mariano Saravia (Alberto Ammann). Brena é o mais experiente de todos e, não só cobriu a morte da esposa de Chazarreta, como foi também o último a entrevista-lo antes de sua morte. Já Mariano é o novato no mundo do jornalismo policial, recém chegado “do estrangeiro” onde fez seus estudos. Não tem muita experiência, mas tem aquela discreta arrogância (ou orgulho) tão comum na juventude que se acredita imbatível e que quer fazer tudo diferente. O filme vai, aliás, jogar o tempo todo como os contrastes entre os dois: o velho e o novo; a tecnologia e a tradição; a experiência e a ousadia; o intelectual e o popular; a teoria e a prática, a realidade e a ficção, e por aí vai. Algo bem clichê, por certo, mas que não perturba o bom andamento do filme.

Assim, sob o comando do ex-amante de Betibú, interpretado pelo ator espanhol José Coronado, os três mosqueteiros vão desenrolando esse novelo complicado de mortes sem autores, graças à união de seus “superpoderes”: a experiência, a ousadia e a imaginação.

Betibú é um filme leve – apesar do tema –  que prende do começo ao fim. Tem um ótimo ritmo e excelente trilha. Está muito mais para filme clássico hollywoodiano do que para cinema de arte europeu (para ficar dentro dos clichês). Mas, se olharmos atentamente, há aqui e ali, a marca da cinematografia argentina, que sabe tão bem misturar os dois estilos, produzindo filmes interessantes, fáceis de se assistir, mas que não menosprezam a inteligência do espectador.

O final pode até parecer um pouco confuso, já que explicitamente mistura realidade e ficção, e – como disseram os críticos por aqui – dá um pouco a impressão de que foi resolvido às pressas.  Mas para mim, é justamente esta confusão que dá a graça ao filme.

PRA SE DISTRAIR.

PS. Demorou muito para que “caísse a ficha” que Betibú era uma referência à Betty Boop, personagem de cartoon americano, criada nos anos 1930, e que justamente se mostrava uma moça à frente de seu tempo, independente, sem jamais perder o charme e a feminilidade. Nem mesmo a cena em que o jornalista Brena está em casa assistindo ao cartoon Betty Boop me fez enxergar a conexão. Muitas cenas depois é que tive o estalo… E o jazz tocado no filme, obviamente, ajudou, já que também tem tudo a ver com isso!

 

 
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