Sobre ontem à noite…

•February 29, 2016 • Leave a Comment

Infelizmente não consegui completar a tempo a série “Rumo ao Oscar”. No entanto, gostaria de compartilhar com vocês um pouco do Meu Olhar sobre a edição 2016 da premiação da Academia Americana de Artes e Ciências Cinematográficas.

oscar 2016

A cerimônia de entrega do Oscar 2016 foi eminentemente política, marcada por protestos de todos os tipos… Alguns bem colocados, outros muito exagerados, alguns emocionantes, alguns desconcertantes, mas todos, sem dúvida, protestos legítimos e válidos. Vozes que se elevaram contra o preconceito racial e de gênero, vozes pela preservação do meio ambiente e respeito às comunidades indígenas, vozes contra a violência sexual e tantos outros absurdos de nossa sociedade contemporânea. Talvez esta edição tenha sido um turning point para um evento que costuma brindar o brilho, o luxo, a vaidade, as amenidades, a descontração, o divertimento e, claro, o talento.

Não sou contra nem uma modalidade, nem outra. As duas têm seu lugar e seu valor. O cinema tanto é diversão quanto informação. Tanto pode fazer nossa mente voar, aliviando-nos da tensão do dia-a-dia, como pode fazer-nos mergulhar em reflexão profunda sobre temas importantes da atualidade ou de nossa existência. Tanto pode cegar, alienar, como também pode nos ajudar a enxergar mais longe.

Bem coerente, portanto, o prêmio de Melhor Filme ter sido atribuído neste ano à Spotlight: Segredos Revelados.

Como escrevi em minha última crítica, não era o meu candidato favorito. Em termos cinematográficos – avaliando técnica + arte – não acho que tenha sido o melhor. Não à toa não ter levado as estatuetas de Melhor Diretor, Melhor Montagem, Melhores Atores Coadjuvantes e nem ter sido mesmo indicado em algumas categorias importantes como a de Melhor Fotografia. No entanto, o prêmio de Melhor Roteiro Original corrobora o tom adotado pela cerimônia de 2016, cujos holofotes estavam virados mais para o “tema” do que exatamente para a técnica empregada. Um reconhecimento a uma obra que vai muito além da arte e da ciência. Um filme que tem uma função social extremamente valiosa. Um papel importante e ousado que merece por si só um troféu, uma recompensa por ter tido a coragem de tocar em uma grande e antiga ferida de nossa sociedade, incentivando, assim, a investigação jornalística séria e comprometida.

A premiação de Melhor Direção para Iñarritú foi, na minha opinião, muitíssimo acertada, assim como foi a de seu compatriota Emmanuel Lubezki para Melhor Fotografia (seu terceiro Oscar seguido). A dupla deu show, realizando um filme grandioso, utilizando com maestria as ferramentas clássicas da sétima arte. Da mesma maneira, encheram-me de alegria os prêmios para Leonardo DiCaprio, Brie Larson, Mark Rylance, Alicia Vikander, Divertida Mente (Animação) e, sobretudo, para Ennio Morricone. Inacreditável o velho e grande Morricone (87 anos) só agora ter recebido sua primeira estatueta! Mas, como disse no começo deste texto, talvez tenha sido este um Oscar-turning-point! A confirmar em 2017.

Spotlight: Segredos Revelados (2015)

•February 22, 2016 • Leave a Comment

Título original: Spotlight

Origem: EUA / Canada

Direção: Tom McCarthy

Roteiro: Josh Singer, Tom McCarthy

Com: Mark Ruffalo, Michael Keaton, Rachel McAdams, Josh Slattery, Brian d’Arcy James, Stanley Tucci, Liev Schreiber

Vamos hoje para o quinto da série “rumo ao Oscar”, concorrendo em seis categorias (Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro Original, Melhor Montagem, Melhor Ator Coadjuvante para Mark Ruffalo, Melhor Atriz Coadjuvante para Rachel McAdams) e, pelo que ando lendo e ouvindo por aí, um dos mais fortes candidatos na opinião do público e da crítica: Spotlight – Segredos Revelados.

Assim como O Regresso, A Grande Aposta, Carol e Joy (os dois últimos não concorrem a melhor filme), Spotlight também é baseado em fatos reais. Fatos, aliás, bem cabeludos que envolvem os maiores poderes do nosso mundo: a Igreja, a Justiça e a Imprensa!

Uma história (investigação) pra lá de interessante – ganhadora de um Prêmio Pulitzer – com potencial para gerar uma obra-prima do cinema. Só que não! Spotlight-Film Poster

Sem querer mais uma vez ser uma estraga-prazeres, tenho que admitir que não achei assim uma Brastemp! O filme é bom, tem muitos méritos que vão além da sétima arte, mas não é fantástico! Demora muito para decolar – os primeiros quinze ou vinte minutos não prendem – e por essa razão, perde um pouco a “liga”. A segunda parte, tem melhor ritmo e acaba conseguindo envolver-nos mais na investigação, sem, porém, chegar a nos tocar como fez Philomena, de Stephen Frears (2013), que também contava horrores envolvendo a Igreja (Leia o post do dia 2/2/14). Como se, de certa forma, o diretor McCarthy também quisesse se proteger um pouco…

Ao filme:

Spotlight conta a história da investigação de diversos casos de pedofilia envolvendo membros da Igreja Católica em Boston – chegando até ao Arcebispo da cidade, Cardial Law (Len Cariou) – descobertos pela equipe do jornal The Boston Globe conhecida pelo pseudônimo de Spotlight. Michael Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) e Matty Carrol (Brian d’Arcy James), chefiados por Walter Robinson (Michael Keaton) formam o time de elite do jornal, responsáveis por investigações confidenciais que podem durar meses ou até anos. Assuntos graves que não podem ser divulgados no calor da hora nem da emoção.

Seguindo o estilo clássico de se fazer cinema, sem ir buscar apoio na tecnologia de ponta nem em efeitos “pirotécnicos” diversos, o filme é narrado de forma linear, com algumas elipses, mas sem recorrer muito aos tradicionais flashbacks, recurso que poderia ter sido usado e abusado pelo diretor para causar um efeito de comoção no público. A escolha de McCarthy, no entanto, recaiu sobre o formato jornalístico limpo, direto, honesto, sem melindres, um dos pontos fortes do filme, apesar de talvez ser justamente este o fator responsável pela falta de conexão total com espectadores. Um certo distanciamento jornalístico que tem seu mérito, mas que, ao mesmo tempo, pode ser lido como um certo receio de exibir algo que se configura em mais uma “bomba” para a poderosa Igreja Católica.

O excelente trabalho da equipe Spotlight na vida real (e também da equipe de atores que os interpretou) resultou em um igualmente excelente trabalho de denúncia, via sétima arte, dos horrores que continuam a existir na Igreja Católica. Crimes contra crianças e adolescentes que seguem marcados por toda vida. Com certeza, um filme que vai incomodar muita gente e que vai fazer grande parte do público pensar e refletir sobre até onde vão os limites do poder “divino” que a Igreja tanto reclama para si. Um poder sem fronteiras, que não obedece às leis dos humanos e que se julga por isso superior. Um poder que intimida, que amedronta, que ameaça, já que protegido pelo que não se explica, pelo que não se racionaliza, nem se questiona: a fé. Isso sem falar na “parceria” da Justiça e da própria imprensa que, por também temer o poder “superior” da Igreja, deixa passar tantos casos criminosos comprovados.

Muito interessante observar que o processo todo de desmantelamento da rede de pedofilia da Igreja Católica tenha sido iniciado com a chegada do novo editor-chefe, “estrangeiro” a Boston, e também “estrangeiro” ao catolicismo. Marty Baron (Liev Schreiber) é um judeu que acabara de assumir a chefia do jornal depois de já ter passado por Miami e Nova Iorque. Um novo olhar, ainda não acometido pela miopia da região, que consegue enxergar bem mais longe.

Apesar de ter começado esta análise falando que Spotlight não é assim uma Brastemp, gostaria de retomar o raciocínio. Quando digo isto, refiro-me a quesitos técnicos, estéticos, à cinematografia em seu estado puro. No entanto, filmes como estes são importantíssimos e fundamentais em todos os tempos. O cinema pode e deve ser usado para denunciar, para apontar, para nos acordar, para sacudir nossos pontos de vistas acomodados, míopes e doutrinados. Talvez o prêmio adequado para Spotlight não seja mesmo um Oscar… ele merece muito mais! Merece nosso aplauso pela coragem, pela ousadia e por permitir o seguimento de uma investigação que não pode parar. Merece prêmio por levar a um número muito maior de pessoas uma denúncia de práticas indecentes que até hoje existem e persistem na Igreja Católica. Que me perdoe minha mãe, que tanto preza pela Igreja, pela religião e que tanto reza para aumentar sua fé… Mas Deus não é a Igreja. Ela é só uma instituição feita por homens, por gente de carne e osso. Gente que erra – e erra muito – por se acreditar dotada de um poder divino, maior que o dos outros seres humanos. E a fé, ao mesmo tempo que traz paz, também cega, amedronta e até corrompe! Que filmes como Spotlight sirvam para deixar nossos olhos bem abertos!

PRA PENSAR.

O Quarto de Jack (2015)

•February 18, 2016 • Leave a Comment

Título original: Room

Origem: Canadá / Irlanda

Direção: Lenny Abrahamson

Roteiro: Emma Donoghue (também autora do livro)

Com: Brie Larson, Jacob Tremblay, Sean Bridgers, Joan Allen, William H. Macy, Tom McCamus

Imagine-se vivendo em um quarto pequeno, sem janelas, durante sete anos, sem direito a sair para nada! E para piorar, servindo de escrava sexual de um homem desconhecido que aparece de vez em quando para trazer o básico para sua sobrevivência e para exigir seus “direitos”. E se esse homem lhe desse um filho? Um bebê não desejado, fruto de um ato violento, injusto e cruel, mas que vai se tornar sua maior razão de (sobre)viver.

Essa é, de forma muito simplista, o ponto de partida do filme que comentarei hoje, O Quarto de Jack, quarto da série “rumo ao Oscar”, concorrendo em quatro categorias : Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Atriz. room 2

Um filme sensível, às vezes duro de assistir, angustiante, bonito e emocionante!

Baseado no livro homônimo da irlandesa Emma Donoghue, que também assina o roteiro, O Quarto de Jack conta a história de Joy (a grandiosa Brie Larson), uma adolescente raptada, violentada e feita prisioneira de um desconhecido, apelidado por ela de Velho Nick (Sean Bridgers). Transformada em uma espécie de escrava sexual, a jovem acaba engravidando de seu algoz e dá à luz Jack (o encantador Jacob Tremblay).

O filme começa, então, no dia do aniversário de cinco anos do pequeno, tendo como ponto de vista narrativo o olhar do menino. Uma criança aparentemente feliz que não conhece nada além daquele pequeno quarto em que vivem, por onde só se enxerga o exterior (céu), via claraboia no teto e pela televisão, ponte entre o mundo real (Quarto) e o da fantasia (exterior). Ou seria o contrário? Para Jack, tudo o que acontece no “espaço” – como ele chama o exterior – é tão fantasioso quanto nos livros de história que sua mãe lê para ele.

Para não enlouquecerem e para tornar a vida do filho um pouco próxima do que considera “normal”, Joy cria uma rotina para os dois: Café da manhã, exercícios, hora de ver televisão, de ler, de tomar banho, etc. Atividades que acabam por dar um certo ar de normalidade e graça à vida daqueles personagens, ao ponto de, por vezes, fazerem-nos até ignorar a gravidade da situação.

E aqui, tenho que abrir parênteses para falar da atuação da dupla. A sintonia entre os dois atores é total e absurda. Tudo parece tão real e verdadeiro! Atuações equilibradas, sinceras e, por que não dizer, perfeitas, que nos comovem profundamente. A última vez que vi tamanha sintonia entre mãe e filho (ou seja, entre atriz e ator) foi no filme canadense Mommy (leia o post do dia 19/4/15), de Xavier Dolan. Não levando aqui em consideração, claro, os enredos dos dois filmes que são totalmente diferentes. Mas o que quero dizer é que o trabalho da dupla, sem desmerecer a excelente direção do irlandês Lenny Abrahamson – que soube guiar seus atores sem nunca deixa o filme cair no dramalhão – é sem sombra de dúvidas, o maior trunfo de O Quarto de Jack. O pequeno Jacob é uma joia rara, já tendo até arrebatado o Critics’ Choice Award (Best Young Actor) e a jovem Brie Larson é, não sem razão, fortíssima candidata a levar o Oscar de Melhor Atriz neste ano. Sem falar em Joan Allen, que também está excelente no papel da mãe / avó.

Com relação à estética do filme, nada de grandes novidades, porém tudo muito justo, correto, equilibrado, bem filmado e bonito. Várias tomadas em contra-plongée absoluto ou em plongée absoluto são um caminho lógico e esperado para o tipo de história narrada. A trilha, que se faz notar apenas nos momentos-chave, também foi muito bem utilizada. Silêncios intercalados por músicas em crescendo ajudam a dar um clima de tensão à situação apresentada.

Dotado de bom ritmo, pode-se dizer que O Quarto de Jack é dividido em duas partes: a do Quarto em si e a do Mundo. Na primeira, nós, espectadores, também somos confinados àquelas quatro paredes. Um cenário claustrofóbico, feio e de pouca luz mas que consegue, em alguns poucos momentos, se transformar quase em um cenário de conto de fadas à la Cinderela ou Alice no País das Maravilhas, graças ao olhar inocente e doce de Jack. Sonhamos com ele, entramos na sua fantasia de sobrevivência e chegamos até a encontrar graça e beleza naquele universo paralelo tão cruel e desumano. Pena que esses momentos durem pouco…

A segunda parte, já no Mundo, depois que os dois conseguem escapar do cativeiro, é mais ensolarada, com tomadas mais amplas (planos gerais, planos americanos, etc.), coloridas, mas, por incrível que pareça, é a mais difícil, menos harmoniosa, mais angustiante e dura de resolver. Não tendo mais que “sobreviver”, Joy agora precisa reaprender a viver. Reaprender a viver em sociedade, ao lado de outras pessoas, de gente que questiona, que se envolve, que se importa, que ama ou que não ama e que interfere. Aquele mundo paralelo, criado por ela, e de certa forma “protegido” da realidade, já não existe mais. A relação harmoniosa entre mãe e filho, sem interferência exterior (fora, obviamente, a constante ameaça na figura do Velho Nick), ficou para trás. “Ma” já não é mais a única pessoa no mundo para Jack. Assim como Jack não é mais o único ser humano que conta para Joy. As preocupações agora vão muito além da sobrevivência dela e do menino. E aí o filme surpreende, ao ganhar uma camada ainda mais profunda de reflexão.

Duas partes bem diferentes, embora igualmente densas e bem realizadas, que contrastam entre si e que se somam, levando-nos a refletir sobre uma série de questões da vida em sociedade. Um filme que não é baseado em fatos reais, mas que não deixa de contar a triste história de tantas adolescentes por aí afora e de relações complicadas vividas por várias famílias em todo o mundo.

Mais que isso, O Quarto de Jack é sensível, duro, emocionante e lindo, um conto não-de-fadas em que a fantasia ajuda a realidade a ser tornar vivível, mexendo de verdade com nossos sentimentos. Preparem o lenço!

PRA PENSAR e PRA CHORAR.

Carol (2015)

•February 13, 2016 • 2 Comments

Título original: Carol

Origem: EUA / Inglaterra

Direção: Todd Haynes

Roteiro: Phyllis Nagy, Patricia Highsmith (livro)

Com: Cate Blanchett, Rooney Mara, Sarah Paulson, Kyle Chandler, John Magaro, Jake Lacy

 

Terceiro da série “rumo ao Oscar”, hoje vou falar de um filme talvez um pouco menos pretensioso do que os dois anteriores, mas, nem por isso, de menor qualidade.

Carol é um filme de fácil compreensão, sem rodeios, nem subterfúgios, em que nada está implícito, apesar de seu tema ainda tabu em tantas sociedades: a homossexualidade feminina. Imaginem, então, nos anos 50, época em que a história se desenrola.

carol poster

Em 1952, aliás, a Associação Americana de Psiquiatria acabava de incluir a homossexualidade na lista de distúrbios mentais (sociopathic personality disturbance). Neste mesmo ano, a jovem escritora Patricia Hightsmith, que havia tido enorme sucesso com seu primeiro livro Strangers on a Train, graças à adaptação feita por Hitchcock às telona – em português Pacto Sinistro (1951) –, viu-se obrigada a publicar seu segundo romance sob o pseudônimo Claire Morgan. O motivo? O conteúdo “escandaloso” de sua história: amor entre duas mulheres.

E é justamente baseado na obra The Price of Salt, considerada pornográfica para a época, que Carol foi realizado.

Em uma Nova Iorque dos anos 50, o filme conta a história de amor entre Carol (uma Cate Blanchett mais elegante do que nunca!) e Therese (Rooney Mara). Mulheres de gerações diferentes, classes sociais também diferentes, vivendo momentos igualmente distintos em suas vidas. Carol, mulher rica e belíssima, está em pleno processo de divórcio, ainda discutindo com o ex-marido a guarda de sua única filha. Therese, jovem da típica working class americana, trabalha em uma loja de departamentos chique, vendendo bonecas para clientes endinheiradas, mas sonha em tornar-se fotógrafa profissional algum dia. Tem um namorado – Richard (Jake Lacy) – que planeja casar-se com ela e ainda leva-la para uma viagem de sonhos na Europa.

Por uma obra do destino (e quem sabe do bom velhinho, já que a história se passa no período do Natal), as duas mulheres acabam se encontrando, se conhecendo e, pouco a pouco, percebendo-se atraídas uma pela outra.

Iniciado com um belo plano-sequência que nos dirige, por meio de um gracioso movimento de câmera, a um chique restaurante em Manhattan, somos então apresentados às duas protagonistas. De uma conversa interrompida nesta primeira cena, passamos então a um longo flashback, em que veremos o desenrolar da relação que une as duas mulheres. Um romance que tem como pano de fundo uma sociedade extremamente moralista e todas as implicações e complicações que representam viver uma relação homossexual naquela época, ainda mais sendo mãe, em processo de divórcio e lutando pela guarda da filha.

Indicado à Palma de Ouro em Cannes em 2015, mas não levando a estatueta, impossível não traçar aqui um paralelo com o badalado filme francês La Vie d’Adèle (2013), de Abdellatif Kechiche (se você não viu, leia o post do dia 20/10/13), que também retrata o romance entre duas mulheres de classes sociais diferentes e que, no caso, ganhou a Palma de Ouro em 2013. Enquanto o diretor do filme francês insistiu em mostrar todas as partes, optando por uma estética crua, realística e nua do romance (sobretudo nas cenas de sexo), Todd Haynes optou pela sutileza, pela sensualidade e pela elegância. Enquanto o filme de Kechiche nos choca, o de Haynes nos encanta. É belíssimo! Cheio de cenas-fetiche, com vários closes de mãos, nucas, cabelos, bocas e olhares, mas tudo de uma suavidade, delicadeza e beleza inacreditáveis, mostrando que não é preciso agredir o espectador para tocá-lo. Do lado de cá da tela, torcemos pelo amor das duas personagens, envolvemo-nos com seus sofrimentos e angústias e alegramo-nos com suas pequenas felicidades.

Filmado com uma Super 16mm (o mais comum é usar uma 35mm) o filme ganhou uma tonalidade meio envelhecida, meio amarelada, meio “antique”, sofisticada. Janelas e vidros são temas recorrentes em Carol. Olhares que veem e são vistos através de vidros opacos, embaçados, molhados, sujos. Seres humanos que se escondem, se protegem e, ao mesmo tempo se enxergam nesse jogo transparência-opacidade tão bem empregado aqui por Haynes.

A trilha sonora – composta por blues, jazz e pop americana dos anos 50 – também merece destaque. Ela acompanha à perfeição o ritmo e o tom elegante do filme, indo de Billie Holiday a The Clovers, passando por Georgia Gibbs e Les Paul and Mary Ford. Muito boa!

Para terminar, enquanto A Grande Aposta e O Regresso são filmes extremamente masculinos, este aqui é pura feminilidade. Com ritmo perfeito, duração também (não se vê a hora passar), Carol é um filme delicado, lindo, sensual, feminino, elegante, conciso, redondo! Mas talvez não original o suficiente para ganhar um Oscar. Já Cate Blanchett e Rooney Mara podem, sim, sair no dia 28 carregando uma estatueta dourada. A primeira por Melhor Atriz e a segunda por Melhor Atriz Coadjuvante. Vamos aguardar!

PRA SE ENCANTAR.

 

A Grande Aposta (2015)

•February 8, 2016 • Leave a Comment

Título Original: The Big Short

Origem: EUA

Direção: Adam McKay

Roteiro: Charles Randolph, Adam McKay e Michael Lewis (livro)

Com: Ryan Gosling, Christian Bale, Steve Carell, Brad Pitt, Finn Wittrock, John Magaro

Segundo da série “rumo ao Oscar”, hoje vou falar de um filme que vem causando alvoroço em meio ao público brasileiro: A Grande Aposta.

the big short

Entendo. O filme, encenado por um elenco de primeira grandeza, é uma adaptação do livro de mesmo nome, escrito pelo jornalista Michael Lewis, e relata a complexa trama que levou à crise imobiliária de 2008 nos Estados Unidos. Um livro dificílimo de ser traduzido para a língua dos “reles mortais” e, mais complicado ainda de ser adaptado às telonas. E só por isso, o diretor Adam McKay já pode se considerar vitorioso. O filme ficou relativamente fácil de se entender e pode até ser considerado (por alguns) bem divertido! Meu irmão economista adorou!

No entanto, pelos meus olhos que enxergam mais o aspecto cinematográfico da história, McKay pecou pelo excesso. Abusou demais dos efeitos que a Sétima Arte oferece e das gags que ajudam um filme a se tornar divertido e criou uma espécie de “Frankstein”, excessivo, caricato e metido a engraçadinho demais. Ficou cansativo! Mas antes que vocês me atirem pedras, vou tentar me defender…

Vamos lá!

  1. Movimento de câmera – Aquela câmera mexe demais! Certamente, a explicação para tal excesso pode estar no desejo de mostrar a agitação enlouquecida da vida do pessoal do mundo financeiro. Ok, concordo, apesar de ter ficado tonta. Este é, sem dúvida, um bom argumento e esta é uma boa estratégia estilística.
  2. Falta de foco – Em inúmeras cenas, as imagens perdem o foco. Aqui também se pode alegar que a falta de foco representa toda a loucura em que se vive no mercado financeiro. Workaholics que não enxergam nada além de números, oportunidades, painéis, fortunas e que, perdem muitas vezes o foco da vida. Também uma boa estratégia.
  3. Regard-caméra – A técnica de se olhar direto para a câmera e conversar com o espectador – que já foi um tabu no cinema clássico, mas que há muito deixou de ser – é usada e abusada por McKay. Mais uma vez, uma ótima estratégia para tornar o filme mais leve, mais didático e mais palatável. Mas até aqui já são três ferramentas usadas. E ainda não acabou.
  4. Inserções de cenas não-diegéticas – Inserção de cenas de efeito retórico, não pertencentes ao enredo do filme, que interrompem a narração para agregar-lhe um caráter didático. A primeira, com uma belíssima loura na banheira – no caso, a atriz australiana Margot Robbie – tomando champanhe (achei de péssimo gosto); a segunda, com o famoso chef americano Anthony Bourdain, ensinando a como reaproveitar ingredientes; e a terceira com a atriz/cantora pop Selena Gomez e o respeitado economista Richard Thaler, professor na Universidade de Chicago. Recurso também super válido para cumprir o objetivo de tornar o filme mais inteligível e divertido e, sem dúvida, até agora, o mais original deles.
  5. Inserção de imagens fixas (subjetivas ou explicativas) – Espécie de flashes compostos de imagens fixas que se intercalam com as imagens em movimento (cenas) e que introduzem pensamentos, delírios, sonhos, etc. Recurso bastante usado nos anos 90, sobretudo nos videoclips, mas também no cinema, e que, apesar de datados, também podem ter seu valor didático e divertido.
  6. Inserção de elementos animação ou textos sobre as cenas do filme – Estamos aqui diante do sexto recurso para transformar um assunto chato, em algo divertido, interessante e fácil de entender. Mais uma vez, uma ferramenta que tem seu valor. Mas será que ainda precisa????

Isso tudo dito e listado, volto ao meu ponto. Mckay usou, abusou e se lambuzou. Como se o diretor tivesse selecionado vários ingredientes exóticos para fazer uma receita original e tivesse terminado por fazer um “mexidão”. Ficou interessante? Talvez. Rico? Para mim, não. Poderia, ao invés, ter confiado mais na atuação de seu elenco que é, aliás, fantástico – Christian Bale e Steve Carell dão show! – e ter selecionado talvez uns três desses recursos estilísticos.

Provavelmente pese contra mim o fato de se tratar de um tema que desconheço ao extremo e que considero muito complicado e chato. Só que, se o objetivo era torna-lo palatável, divertido e inteligível para leigos, para mim a fórmula não funcionou. No meio do filme já estava torcendo para que estourasse logo a bolha imobiliária americana para eu poder ir embora para casa. Que me desculpe a legião de fãs do filme, que sei que é enorme!

A Grande Aposta está concorrendo em cinco categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator Coadjuvante para Christian Bale e Melhor Montagem.

Um bom filme PRA PENSAR e PRA QUEBRAR A CABEÇA.

O Sal da Terra (2014)

•February 6, 2016 • Leave a Comment

Título original: The Salt of the Earth

Origem: Brasil / França / Itália

Direção: Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado

Roteiro: Wim Wenders, Juliano Ribeiro Salgado e David Rosier

Com: Sebastião Salgado, Juliano Ribeiro Salgado, Lélia Wanick Salgado, Wim Wenders (narração)

Abrindo parêntesis na série “rumo ao Oscar 2016”, gostaria de comentar rapidamente um documentário que concorreu ao prêmio da Academia Americana de Artes e Ciências Cinematográficas no ano passado, mas que acabou perdendo a estatueta para Citizenfour (2014), de Laura Poitras, sobre o vazamento dos segredos americanos por Snowden.

O Sal da Terra conta de forma poética a trajetória do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado.

Dirigido e narrado pelo alemão Wim Wenders, codirigido e fotografado pelo primogênito do próprio Sebastião, o filme percorre aproximadamente 40 anos de trabalho deste economista que um dia se descobriu fotógrafo. Acompanhado e incentivado por sua companheira de vida, Lélia, o brasileiro percorreu o mundo – e continua a percorrer – registrando paisagens (geográficas e humanas) nem sempre divulgadas.

the salt of earth

Belíssimo, forte, profundo, tocante, com cenas de arrepiar, o filme apresenta-nos muito mais do que a vida de um profissional da fotografia, oferece-nos praticamente um estudo etnográfico registrado pelas lentes de um ser humano grandioso, e tão simples ao mesmo tempo, que enche de orgulho nossos corações brasileiros, em uma época tão carente desse sentimento.

Misturando fotografias do próprio Sebastião, com imagens de arquivo e mais as tomadas de agora feitas por Juliano Salgado, o filme nos mostra, com toda a tranquilidade característica da terra natal do fotógrafo – Aimorés, Minas Gerais – que cada um de nós pode contribuir de alguma maneira para transformar o mundo em um lugar melhor para se viver.

Se você ainda não assistiu, corra para vê-lo. Já está disponível no Netflix e é um espetáculo de documentário, além de uma bela lição de vida.

Ganhador do Un certain regard, prêmio especial do Júri em Cannes 2015, além do César de Melhor documentário também em 2015, O Sal da Terra nos leva a refletir sobre os valores de nossa sociedade de consumo, nossos próprios valores, nossos caminhos, nossas escolhas e nossas possibilidades, ao mesmo tempo que nos apresenta um grande profissional e um grande homem. A não perder!!!!

PRA PENSAR e PRA SE ENCANTAR.

 

O Regresso (2015)

•February 3, 2016 • Leave a Comment

Título original: The Revenant

Origem: EUA

Direção: Alejandro González Iñárritu

Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Mark L. Smith, Michael Punke (livro)

Com: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhanall Gleeson, Will Poulter, Paul Anderson, Forrest Goodluck

A corrida para o Oscar já começou há algum tempo, mas só agora estou tendo a oportunidade de começar a assistir aos filmes-candidatos de 2016. Abro hoje, então, os trabalhos com aquele que obteve o maior número de indicações – 12 no total – à premiação concedida pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas Americana: O Regresso.

Filmão, a ser visto impreterivelmente no cinema, poético, tenso, denso, sublime e sangrento.

Baseado no livro de Michael Punke, O Regresso conta a história (verídica, apesar de inverossímil) de sobrevivência de Hugh Glass, um caçador de peles de animal e espécie de guia nas terras geladas do norte dos Estados Unidos, fronteira com Canadá. Personagem magnificamente interpretado por Leonardo DiCaprio, que tem grande chance de levar a estatueta dourada neste ano.

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No início do século 19 (por volta de 1820), Glass, acompanhado de seu filho mestiço Hawk (Forrest Goodluck), tem como missão auxiliar um grupo de mercenários (caçadores de pele) e oficiais americanos a atravessar os “desertos” gelados do Missouri. Uma região bela e hostil, habitada por animais selvagens e índios das tribos Pawnee e Ree (Arikaree), e extremamente disputada por americanos e franceses que buscam na caça aos animais (e às suas peles) a solução para o frio, para os seus bolsos e para suas conquistas territoriais.

Dentro do grupo há John Fitzgerald, também magnificamente interpretado por Tom Hardy, um homem incrédulo que odeia índios e que não enxerga em Glass nada além de um inimigo. A razão principal para tanta animosidade é o passado “duvidoso” do rapaz: filho com uma Pawnee e assassinato de um oficial americano. Depois então que Glass é atacado por um urso fêmea e fica entre a vida e a morte, tornando-se um peso para a expedição, Fitzgerald encontra ainda mais motivos para descarta-lo do grupo. Assim, quando encarregado de cuidar do moribundo, enterra-o (não totalmente) ainda com vida em uma cova e o abandona naquela imensidão gelada.

A partir daí começa a saga de Glass, um homem com feridas profundas que renasce para se vingar de seu algoz.

E para contar essa história de amor e vingança, Iñárritu foi buscar no olhar certeiro e poético do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki seu maior trunfo. O já “oscarizado” diretor de fotografia de Gravity (2013) e Birdman (2014) tem mais uma vez grandes chances de levar neste ano, a terceira consecutiva.

Sublime talvez seja a palavra mais acertada para definir a estética de O Regresso. Uma natureza bela e aterrorizante, que fascina e amedronta, filmada com maestria. Planos-sequências, planos estáticos, planos longos, primeiros planos, closes, planos curtos, tudo se alterna, complementa e intercala. Planos filmados com uma câmera bailarina (ou guerreira) que acompanha de perto o movimento dos personagens, nos fazendo viver cada cena. Batalhas filmadas com realismo, com flechas atravessando corpos, muito sangue e muita agitação contrastam com a beleza de longos planos calmos de paisagens encantadoras que demonstram a pequenez do homem diante da natureza.

Iluminação natural, sem efeitos, que trazem ainda mais realismo para o cenário de O Regresso complementam a estética de O Regresso. Difícil dizer quais cenas merecem destaque, são tantas… talvez me arriscasse em assinalar a que Glass se torna um pontinho preto no meio do vasto branco já na segunda metade do filme, ou a linda cena do céu visto em contra-plongée absoluto, ao som da respiração do protagonista, ou ainda o primeiro plano-sequência, logo após o prólogo, em que, com uma câmera baixa sobrevoamos algo que parece ser um riacho, à altura dos pés dos personagens. Não sei… são tantos momentos sublimes!

Uma cena que marca, não só pela estética, mas, sobretudo, pelo que ela representa no filme é aquela em que Glass tira as tripas do cavalo para se abrigar em seu ventre. Momento em que vemos a necessidade de proteção materna (e/ou paterna) para, em seguida, vermos o renascer do animal homem. A simbiose homem natureza, homem animal, lindamente representada por um plano em plongée absoluto em que o vermelho ganha destaque na imensidão branca.

O aspecto “família” (maternidade, paternidade), aliás, é central no filme, um verdadeiro leitmotif que move seres de tribos, raças e espécies tão distintas. Todos, ou quase todos ali, são movidos por questões familiares: o índio que sai em busca da filha raptada, Glass que quer vingar a morte de sua família, o índio que aparece mais tarde na historia e que erra pelo mundo depois de ter perdido sua esposa ou ainda a ursa que ataca para proteger seus filhotes… Um tema universal que transcende culturas, línguas, regiões geográficas, credos religiosos, etc.

Com este filme épico-poético, Iñarritú continua a esbanjar talento, tornando-se um forte candidato na corrida ao Oscar. Se tivesse que assinalar um senão do filme, seria o ritmo. A duração não ajuda, claro! O filme é longo e em alguns momentos acaba pesando um pouco, fica muito lento, talvez dispersando a atenção de alguns espectadores. Talvez um equilíbrio melhor entre cenas de ação e cenas de contemplação tivessem ajudado neste quesito. Mas nada que tire o brilho deste filme que veio para entrar na história.

Um filme PRA SE ANGUSTIAR e PRA CONTEMPLAR.

 

The Lobster (2015)

•December 6, 2015 • Leave a Comment

Título original: The Lobster

Origem: Inglaterra, Irlanda, França, Grécia, Holanda, Estados Unidos

Direção: Yorgos Lanthimos

Roteiro: Yorgos Lanthimos, Efthimis Filippou

Com: Colin Farrell, Rachel Weisz, Léa Seydoux, John C. Reilly, Olivia Colman

Faz tempo que não assisto a um filme tão original, tão surreal e tão rico em conteúdo! Uma excelente sátira de nossa sociedade ocidental, totalmente surrealista, regada a uma forte dose de humor negro, sarcasmo, tristeza e uma certa melancolia.

The Lobster, quarto filme do grego Yorgos Lanthimos (primeiro rodado em inglês) e ganhador do Prêmio do Júri em Cannes neste ano, é forte, denso, escuro, irônico e absolutamente fantástico! the lobster poster

A história se passa em uma sociedade distópica perdida em algum lugar da Europa em algum período da História. Neste lugar não identificado no mapa nem no calendário, ser casado é obrigatório. Os solteiros são enviados a um hotel-prisão-de-luxo e têm até 45 dias para conseguir arrumar um parceiro. Caso não sejam bem sucedidos nesta missão, são transformados em animais (de sua preferência) e soltos em uma floresta das redondezas.

O filme vai então contar a história de David (um excelente Colin Farrell), que será dispensado por sua esposa já na primeira cena (depois do prólogo). No canto da tela, vemos David de costas, enquanto ouvimos a voz de uma mulher terminando um longo relacionamento. Em seguida, vemos David sendo levado por mordomos-enfermeiros, junto com seu cachorro (que depois vamos descobrir que se trata do seu irmão), para uma van branca (Ambulância? Camburão?). Até aí, não sabemos muito do que se trata o filme. Percebemos que há algo de bizarro, sobretudo pela trilha que acompanha essas primeiras cenas (meio cômica, meio de suspense), mas, apesar do prólogo meio non-sense que vimos logo antes, ainda não enxergamos o quão surreal será esse mundo.

Eis que então, uma voz de mulher surge e começa a narrar a história. Sua voz, junto com as instruções dadas pela gerente do Hotel, a quem seremos apresentados um pouco mais adiante no filme, mais as falas dos personagens, vão nos fazendo entender aos poucos como funciona essa sociedade surrealista que tanto tem em comum com a nossa.

Uma sociedade maniqueísta (qualquer semelhança é mera coincidência), hipócrita, ditada por padrões extremamente rígidos, em que poucos têm nome. Vestem-se de forma idêntica e são, em geral, identificados por suas características físicas (“defeitos”), por seus hábitos ou, mais precisamente, pelos “rótulos” que lhes são colados ao longo de suas vidas. Ex: O homem manco (the limping man), a mulher do biscoito (the biscuit woman), a mulher que sangra o nariz (the bleeding nose woman), a míope (the short sighted woman), etc. E não é assim também em nosso mundo? Todos colocados em “caixinhas”? A gordinha, o manco, a branquela, o nanico, a estressada, o zen, etc. Difícil é a gente conseguir se livrar dos rótulos que “ganhamos”… como se isso definisse quem somos!

Na segunda parte do filme, deixamos o hotel e adentramos a floresta, onde vamos descobrir os solteiros-rebeldes, uma espécie de resistência ao stablishment, lideradas pela atriz francesa Léa Seydoux, que, assim como os outros personagens, não tem nome. Uma facção que faz oposição às imposições do sistema, mas que nem por isso deixa de ser radical, burra e cega. Na verdade, creio ser este o ponto crucial do filme. É justamente essa nossa mania de só enxergar preto ou branco, de querer colocar tudo dentro de padrões, etiquetas, compartimentos, etc., que nos emburrece, que nos torna míopes ou até mesmo cegos. Não à toa os protagonistas são míopes e várias cenas estão fora de foco!

Os rebeldes-solteiros são tão ditadores e radicais quanto os casados-conformados. Os membros desta facção não podem ter relações sexuais, não podem se apaixonar, têm que cavar literalmente sua própria cova e só podem dançar ao som de música eletrônica, por que assim só podem dançar sozinhos. Desculpem-me os fãs do eletrônico, mas adorei a piada!

E é no meio deste outro mundo de extremos que David vai descobrir o amor, na figura da solteira-rebelde Míope Rachel Weisz. E, neste ponto, o filme se converte em uma clássica (nem tanto) história de amor, em que os apaixonados têm que lutar contra as convenções da sociedade para poderem viver seus sentimentos.

The Lobster é um drama cômico-fantástico – lembrou-me aqui e ali os filmes de Wes Anderson – que trata de forma irônica de preocupações recorrentes em nossa sociedade ocidental, como a solidão, o conformismo, a adequação, a falta de liberdade, os estereótipos e muito mais. Um filme extremamente sério, disfarçado de cômico por suas tantas alegorias e que nos faz pensar por muito tempo depois que saímos da sala de cinema.

Como não é difícil de imaginar, o animal escolhido por David, caso ele não consiga arrumar uma nova parceira é uma lagosta. Também não por acaso um animal-símbolo do Surrealismo. Por que uma lagosta? Por ser um animal que vive muito (mais de 100 anos), por viver no mar (ele gosta do mar) e por ter sangue azul (como os nobres).

E você, se tivesse que escolher um animal para ser em outra vida, que animal escolheria?

PRA PENSAR

Refugiado (2014)

•November 15, 2015 • Leave a Comment

Título original: Refugiado

Origem: Argentina

Direção: Diego Lerman

Roteiro: Diego Lerman, María Meira

Com: Julieta Díaz, Sebastián Molinaro, Marta Lubos, Silvia Baylé, Sofía Palomino, Sandra Villani, Paula Ituriza, Carlos Weber

O texto de hoje não é apenas sobre um filme, mas sobre uma experiência fílmica e de vida que me marcou imensamente nessa semana que passou.

refugiado

A convite do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), tive o privilégio de assistir à projeção do filme Refugiado em um centro cultural de uma “villa” (favela) de Buenos Aires. A ideia era projetar um filme que tratasse do tema violência doméstica para um público que sofre na pele (e nos nervos) os males de uma relação desigual, injusta, indigna. A projeção seria, então, seguida de uma “charla” – conversa informal sobre o tema.

A ficção

A história que nos conta Refugiado é uma ficção, não está baseada na vida de ninguém especificamente e, ao mesmo tempo, relata o desespero, o medo e a dor de tantas mulheres em todo o mundo.

O filme abre com as imagens do menino Matías (Sebastián Molinaro) em uma festa de aniversário. Vestido com capa vermelha, óculos de natação (transformado em máscara) e um cinto de utilidades improvisado, ele espera a chegada de sua mãe Laura (Julieta Díaz), que deveria vir buscá-lo, mas que, por razões desconhecidas, não aparece na hora devida.

A roupa de super-herói das primeiras cenas – escolha super acertada de figurino – já anuncia o que vai ser um leitmotiv do filme: é preciso ter super poderes para enfrentar certas situações da vida. Uma fantasia que representa tanto a inocência da infância como o desejo e a necessidade reais de se transformar, vez por outra, em super-herói a fim de sobreviver. Uma fantasia que vai, pouco a pouco, perdendo suas partes – somem primeiro os óculos, depois o cinto, por último a capa – ao mesmo tempo em que o pequeno Matías vai perdendo sua inocência. Já na segunda sequência, quando o menino encontra a mãe no chão do apartamento, toda machucada, depois de ter sido agredida pelo marido, nosso pequeno protagonista já se vê obrigado a vestir sua verdadeira capa de herói.

A partir daí o filme vai ser tornar um thriller (meio road-movie) com mãe e filho saindo em disparada numa tentativa enlouquecida de escapar dos maus tratos. Indo de um lugar a outro – centro de refugiados, motel, etc., – os dois vão ser perseguidos o tempo todo pelo toque estridente do telefone celular da mãe. Ferramenta de comunicação transformada em ferramenta de tortura, ele é a personificação do agressor. Cada toque representa uma ameaça, uma tensão que cresce, um medo que se apodera da agredida. O toque escolhido para o telefone – outra escolha bem acertada – é enlouquecedor, deixando-nos aturdidos, incomodados, irritados, nervosos. Tememos por eles e com eles. A agressão física é substituída ou agravada pela psicológica. Um jogo cruel, de difícil saída.

A direção de arte é muito boa. Uma paleta de cores tristes, escuras, que retratam bem o clima de tensão da história. Cenas de fuga filmadas com uma câmera nervosa contrastam com as cenas posadas, captadas por uma câmera fixa de enquadramento perfeito. Belas cenas, bem compostas, bem pensadas que nos permitem respirar para continuar o périplo rumo à liberdade, verdadeiros quadros que retratam uma triste realidade.

A realidade

Depois do filme, o debate. Ou melhor, a “charla”. E foi aí que desmontei, constatando, ao mesmo tempo, o poder da sétima arte em desencadear um processo positivo de catarse. As mulheres ali naquela plateia se identificaram com Laura, sentiram sua dor, ao reviver (e ver na tela) suas próprias dores. Com vozes tremidas, compartilhara corajosamente suas próprias experiências. Foram vários relatos de mulheres que já saíram de situações de violência, ou de outras que, com lenços de papel em punho, contaram o que ainda estão vivendo, e o que estão fazendo (ou tentando fazer) para tentar escapar do pesadelo. Em seus testemunhos, confirmaram que o telefone é, de fato, uma arma de controle e de tortura muito usada pelo agressor. Um terror psicológico que complementa a agressão física e que, pior, funciona 24 horas, 7 dias por semana.

Aprendi também ali que muitas das atrizes e figurantes que aparecem no filme são sobreviventes reais de violência doméstica. Mulheres que conseguiram sair do inferno da submissão, do medo e da agressão. O processo não é fácil, não é simples e não é rápido. Há recaídas, há vais-e-voltas, há a culpa por separar o pai dos filhos, há a dependência financeira, há o orgulho, a vergonha… tantos fatores que impedem que escapem da situação. Mas há saída. Nem que para isso, se tenha que vestir a capa de super-herói, colocar o cinto de utilidade e fugir em disparada.

Refugiado é um grito de alerta, um abrir os olhos para uma situação que não é privilégio de um único país, de uma única cultura ou de uma única classe social. A violência doméstica desconhece essas diferenças, ela acontece em todas as camadas da sociedade, em todas as épocas de nossa história, em todos os lugares do mundo. Infelizmente. Que este filme não violento sobre violência – não há nenhuma cena violência (física) – nos sirva de aviso.

PRA PENSAR e PRA SE ANGUSTIAR

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (2014)

•November 2, 2015 • 2 Comments

Título original: Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance

Origem: EUA

Direção: Alejandro González Iñárritu

Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris, Armando Bo, Raymond Carver

Com: Michael Keaton, Emma Stone, Naomi Watts, Edward Norton, Zach Galifianakis, Andrea Riseborough, Amy Ryan

Com anos-luz de atraso, assisti finalmente ao famoso e oscarizado Birdman. Confesso que, apesar das estatuetas douradas – Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Fotografia – , não fui com “muita sede ao pote”, já que havia lido nas redes sociais e em algumas críticas da época (sobretudo na francesa) que Iñárritu teria se exaltado com este filme, aproveitando-se para se exibir (show-off), usando e abusando das potencialidades da sétima arte para mostrar o quão bom ele era…

birdman cartaz

Depois de assistir ao filme ontem, só pude concordar com esses comentários: sim, o diretor mexicano se exibiu, se exaltou, exagerou e comprovou mais uma vez o seu enorme talento. Birdman é um filmaço, super merecedor dos inúmeros prêmios recebidos. E talvez injustiçado por alguns críticos justamente por pagar o preço da fama, drama tão bem tratado em seu roteiro.

Bem, vamos ao filme!

Em uma espécie de mise en abyme (“narrativa em abismo” – narrativa que contém outras narrativas dentro de si), Birdman conta a história de Riggan Thomson (Michael Keaton) um ator passado da meia idade, em decadência, que luta com todas as suas forças para recuperar o sucesso e a glória que um dia bateram à sua porta. No passado, incarnou nas telas de cinema o super herói Birdman, tendo se tornado uma celebridade, aclamado em todo o mundo. Depois de ter dito não à sua participação em Birdman 4, Riggan viu sua carreira desmoronar aos poucos. Não sem relação com a própria carreira e vida de Michael Keaton, que encarnou Batman (1989) e Batman Returns (1992), não conseguindo mais grandes destaques no universo hollywoodiano.

No presente, numa tentativa louca de recuperar o sucesso, o reconhecimento da crítica e do público, e sobretudo, sua autoestima e sanidade mental, Riggan decide dirigir, produzir e atuar em uma peça de teatro – What we talk about when we talk about love , de Raymond Carver – adaptação de um texto consagrado pela Broadway. Interessante ver aqui aquele eterno duelo entre as artes, voltando à velha questão de que o teatro seria uma arte superior ao cinema, porque mais antiga, mais pura, etc. Talvez um “tendão de Aquiles” na vida dos atores de cinema…

A história vai, então, se passar nos dias que antecedem a estreia da peça na Broadway, período em que vemos a angústia e o temor de Riggan crescendo e tomando conta de todo o seu ser. Convivem em sua mente (e corpo), o ator Riggan Thomson e o personagem Birdman, numa simbiose meio esquizofrênica, um tentando dominar o outro e assumir o poder. De um lado um fracassado mortal que tenta provar seu valor; do outro, uma celebridade, o aclamado herói, dotado de super poderes, totalmente seguro de seu sucesso. Um duelo – que, certamente, não é privilégio só de Riggan – super bem retratado pela voz interna, pela trilha sonora e pela câmera nervosa que persegue os personagens no labirinto dos bastidores do teatro, local que deixa o glamour de fora. Lá vemos os atores despidos de suas fantasias, de suas máscaras, maquiagens, vemos suas fragilidades e suas “humanidades”. Corredores estreitos e escuros, escadas, portas e mais portas que nos confundem, nos causam náuseas, claustrofobia ou, ao menos, um certo incômodo pelo seu excesso. Como se acompanhássemos os vais e vens do pensamento de Riggan, suas angústias e questionamentos, seu aprisionamento naquele homem pássaro que foi um dia e que não o deixa ser ele mesmo.

Aí talvez eu concorde que houve exagero! Iñárritu exagerou no uso dos planos-sequências. Eles me cansaram, me incomodaram ao longo de todo filme. Pensei: poxa, precisava de tantos? Depois, me dei conta que justamente essas tomadas sem fôlego, com movimentos sinuosos, arredondados, esquizofrênicos, davam na justa medida o sentimento de encurralamento que vive o protagonista (e muitos outros atores de teatro e de cinema por este mundo afora, sem falar de nós, espectadores, atores da vida real, que buscamos sem cessar o reconhecimento de alguém). Uma técnica difícil, que exige precisão e muito ensaio, e que, aqui, foi muito bem utilizada.

A trilha é um caso à parte. Quase toda composta em cima do som do baterista Antonio Sanchez, propositadamente ou não, ela acentua esse aspecto de “irritação” e “incômodo”. (Que desculpem os bateristas!). É ela que dá o tom, o ritmo ao movimento do personagem e também à sua loucura. O toque repetitivo irrita como um zumbido dentro da cabeça, uma martelo que bate sem cessar e que enlouquece. Mais uma vez, exagerado, demasiado, mas super apropriado ao filme.

Assim sendo, concluo por onde comecei: Birdman é sim excessivo, com planos-sequências demais, bateria demais, movimento demais, tempo demais (achei um pouco longo!), porém tudo utilizado dentro de um mesmo propósito: de nos mostrar o impasse (ou a loucura) a que a celebridade pode levar. Pode até ser que o lado Birdman de Iñárritu tenha tido, de fato, o propósito de se exibir e derramar todos seus talentos sobre o público. Não importa! O que conta é que o resultado foi um filme de primeira grandeza.

PRA PENSAR

 
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