Twixt (2011)

•May 20, 2012 • Leave a Comment

Veja aqui o trailer do filme!

Título original: Twixt   

Origem: EUA

Diretor: Francis Ford Coppola

Roteiro: Francis Ford Coppola

Com: Val Kilmer, Elle Fanning, Bruce Dern, Ben Chaplin

Sombrio, estranho, surreal, não tão assustador, tampouco tão encantador, o último filme de Francis Ford Coppola se camufla de non-sense para falar de um  assunto altamente delicado: a morte de um filho e o peso que esse acontecimento tem na vida de um pai.

Apesar de todo o “jeitão” de filme de terror, Twixt é, na verdade, muito mais um filme sobre luto, sobre a dor da perda, sobre uma ideia obsessiva, que não deixa respirar nem viver. Uma obra de caráter pessoal e introspectivo de um Coppola maduro, independente – ele é seu próprio produtor -, de um homem vivido e machucado.

Uma história sobre uma ferida não cicatrizada que se reflete constantemente na obra de um artista, no caso do personagem deste filme, um escritor que se vê acometido pelo famoso writer’s block - bloqueio na hora de escrever suas histórias. Trata-se, assim, de um filme que esmiúça essas questões, fazendo um tipo de sessão de parapsicologia com o autor, a fim de analisar e entender as razões que o levam a sofrer deste mal.

O filme escrito e dirigido por Coppola, conta a história de Hall Baltimore (Val Kilmer), um escritor de thrillers envolvendo bruxas e bruxarias, que, acometido pelo alcoolismo, vive um momento difícil em sua carreira e em sua vida pessoal. Ele perdeu sua única filha em um acidente de barco e vê sua carreira e seu casamento desmoronando diante de seus olhos.

Na tentativa de divulgar seus livros, Hall acaba indo parar em uma cidade um tanto quanto sinistra, perdida no meio do nada, com uma torre com 7 lados, cada qual contendo um relógio que marca um horário diferente. Apesar das tantas horas, a cidade parece parada no tempo. Sem vida. Sem alma. Ou com muitas delas…

Procurado pelo Xerife (Bruce Dern) – que também fabrica casas para morcegos – para que, juntos, possam escrever uma história de vampiros, Hall toma conhecimento de um assassinato em série acontecido no passado em um hotel ali da cidade. Mais precisamente no hotel em que Edgar Alain Poe se hospedara.

Assim, com sua mente repleta de novos elementos – uma história de assassinatos em série, a figura de Edgar Alan Poe (Ben Chaplin), um Xerife convencido da existência de vampiros do outro lado do lago, e sobretudo, com a dor da morte de sua filha – Hall vai devagarinho construindo suas hipóteses, embarcando em viagens do além, realizando encontros mágicos e sobrenaturais…

Enquanto faz suas próprias investigações, viajando por sonhos e alucinações alcoolizadas, o escritor vai revivendo diariamente seu próprio pesadelo, travando sua batalha pessoal, lutando contra seus fantasmas, suas  culpas, seus medos, seus vícios, suas feridas não cicatrizadas.

Coppola escolheu construir seu filme de maneira a nos deixar confusos, sem sabermos ao certo o que é real ou o que é imaginado, o que é vivido ou sonhado. Como recurso estético, ele optou pelo  preto e branco para as cenas sonhadas ou imaginadas (contendo apenas um elemento com cor) e pelas cores – escuras e sombrias – para as cenas da “realidade”. Foi ainda buscar inspiração provavelmente nos Irmãos Cohen, apresentando o filme, o cenário e os personagens por meio de um narrador de voz curiosa, desfilando sob nossos olhos uns Estados Unidos nada glamoroso, nada idealizado. Os planos também fogem do convencional, tendo sido tomados por ângulos incomuns, o que, vez por outra, causam um certo desconforto, desassossego.

Twixt é assim um filme pessoal de Coppola. Mais um fruto (assim como Tetro, de 2009) desta sua fase independente, livre das amarras hollywoodianas. Um filme em que, mais do que nunca, Coppola parece querer resgatar sua história e seus fantasmas, assim como seu personagem-escritor. Haja visto a forma escolhida para a morte da filha de Hall: uma reconstituição perfeita da morte de seu próprio filho Gian-Carlo, em 1986. Um momento de total arrepio quando se tem conhecimento da história pessoal do diretor!

Pequeno Dicionário Amoroso (1997)

•May 19, 2012 • Leave a Comment

Leve, divertido e despretensioso, este filme de Sandra Werneck nos apresenta o amor de A a Z (ou a X), visto tanto por olhos femininos quanto  masculinos! 

Com roteiro de José Roberto Torero e Paulo Halm, o filme conta com Daniel Dantas e Andréa Beltrão nos papéis principais. Além de Tony Ramos, Glória Pires, Mônica Torres e José Wilker.

A música – deliciosa! – ficou a cargo de Ed Motta e José Nabuco.

Para ler a crítica completa, clique aí na barra lateral, no link do parceiro CEBRAC – Centro Brasil Cultural.

Boa leitura e bom filme !!!!!!

Le Prénom (2012)

•May 13, 2012 • Leave a Comment

Veja aqui o trailer do filme!

Título original: Le Prénom   

Origem: França / Bélgica

Diretores: Alexandre de la Patelièrre e Matthieu Delaporte

Roteiro: Matthieu Delaporte

Com: Patrick Bruel, Valérie Benguigui, Charles Berling, Guillaume de Tonquédec, Judith El Zein

Dentro dos mesmos moldes de Carnage, de Roman Polanski, lançado em 2011 (leia a crítica aqui, post de 5/2/2012 ), Le Prénom é uma peça de teatro levada à telona! Um filme em que o maior efeito especial é o texto! E que o jogo de cena é a grande “tecnologia” utilizada.

A história – baseada na peça escrita pelo mesmo Matthieu Delaporte que assina o roteiro do filme – começa quando Vincent (Patrick Bruel) e sua esposa Anna (Judith El Zein), grávida de 5 meses, são convidados para jantar na casa de sua irmã Elisabeth (Valérie Benguigui) e de seu cunhado Pierre (Charles Berling), na companhia ainda de um amigo de longa data, o pacífico e contido suíço Claude (Guillaume de Tonquédec).

Uma noite em família, com ares de normalidade, em que tudo parece estar no lugar – boa comida, bom vinho, boa música… – até o momento em que Vincent resolver anunciar o nome escolhido para o bebê.

Nasce ali, então, naquela noite, a polêmica. Seguida da revelação, da raiva, da vergonha, da falta dela , bem como do medo dos desdobramentos da verdade.

A paz e a leveza do início cedem espaço a discussões variadas, que vão se emendando, uma após a outra, se aprofundando, se complicando até chegar ao ponto do sem-volta. Verdades em forma de opiniões são cuspidas, vomitadas, berradas. O clima vai ficando pesado, tenso, quase insuportável. Segredos são revelados, “pecados” são expostos, mas as mea culpa são, na maior parte das vezes, ignoradas. E tudo isso sem nunca deixar de lado o humor inteligente e o volume alto dos debates tão tipicamente franceses!

Apesar do ambiente huis clos – praticamente todas as ações se passam entre a sala de jantar e a sala de estar do apartamento de Elisabeth e de Pierre – e do número não tão vasto de personagens, o filme consegue manter bem o ritmo, não nos deixando cair no sono nem no tédio em nenhum momento. Isso graças aos ricos diálogos e ao jogo de cena dos atores.

A crítica francesa não foi, no entanto, muito positiva com Le Prénom, talvez justamente pelo fato de o filme ser assim… tão francês… por mostrar, por meio de um humor mordaz, certos estereótipos gauleses que refletem (e que certamente exageram) um pouco do que eles são.

Há, por exemplo, o intelectual de esquerda, professor universitário, que se julga humilde, não ligando nada para as aparências nem para os bens materiais. Ele não se incomoda de não ter carro do ano e nem mesmo se preocupa com o que os outros pensam dele por usar sempre o mesmo paletó de veludo cotelê, até mesmo durante o verão…

Há também o personagem bling-bling (uma expressão bem francesa que é usada para os emergentes, para os que realmente ligam – e assumem que ligam – para as aparências). São os  capitalistas perdulários ou talvez um tipo de “nouveau dandy”, só que sem o charme intelectualóide desta figura.

Para completar o quadro dos clichês franceses, há ainda a mãe-esposa frustrada, que não foi adiante na carreira por causa do casamento e da maternidade; ou ainda a profissional bem sucedida que está sempre atrasada e que tem toda a pinta de que não vai ser boa mãe (ela até fuma durante a gravidez!!!!). Fora o artista, claro! Não há França sem arte! Um músico, mais precisamente, um homem do bem, sensível, que sabe apreciar o belo, que consegue tirar um imenso prazer das coisas simples da vida, como aromas, cores, sons, etc. Ah, um detalhe importante: o artista francês do nosso filme não é francês, é suíço. O que torna a “piada” ainda melhor, pois assim ele pode ser retratado como o “neutro”, o que se abstém de dar opiniões, o que não entra em guerras… Muito interessante ver como os franceses (e talvez o resto do mundo) pintam os suíços!

E assim o filme segue, enveredando em alguns pontos por caminhos perigosos, às vezes, sem volta, fazendo-nos pensar até onde devemos ir com a verdade. Até que ponto podemos conviver bem em sociedade sendo inteiramente sinceros. Perguntas talvez sem resposta. Ou talvez com respostas que nós simplesmente não queremos ouvir.

Enfim, Le Prénom é um filme divertido, com diálogos bem escritos, mesmo que empanados com uma cobertura de clichês diversos. Bem gostoso de se ver, bom para pensar e para se distrair!

Tropicália (2012)

•May 6, 2012 • Leave a Comment

Veja aqui a entrevista que me levou ao filme!

Origem: Brasil

Diretor: Marcelo Machado

Roteiro: Marcelo Machado, Di Moretti

Com: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee, Tom Zé, Hélio Oiticica, etc.

13h40. Olho a programação do Festival de Nyon pela Internet. Assisto a uma entrevista com um diretor brasileiro – Marcelo Machado – sobre seu documentário sobre o Tropicalismo. Ummmm, parece bem interessante! Pena que começa às 14h. Será que dá tempo? Começo rapidamente a fazer os cálculos: 10 minutos daqui até lá, mais 5 minutos pra estacionar, mais outros 5 pra comprar o ingresso e achar um lugar… Bem apertado, mas dentro de “condições normais de temperatura e pressão”, acho que dá. Agarro a bolsa, que está bem ao meu lado, desço a escada correndo, tranco a casa, entro no carro e voo, deixando para trás o computador aberto na página do Festival.

Chego a Nyon rapidinho, sem tráfego. Depois de dar umas duas rodadas no estacionamento, encontro enfim uma vaga, atravesso correndo a rua – na faixa, é claro, afinal, estou na Suíça – entro no prédio, localizo o guichê pra comprar o ingresso, pergunto esbaforidametne à moça do caixa se ainda dá tempo. Ela me responde “Oui, madame”; o filme não havia nem começado. Ufa! Tento acalmar minha respiração ofegante, pego meu bilhete, caminho apressadamente rumo à sala, ignorando pipocas, balas ou refrigerantes. Pego um lugar logo na segunda fileira e, antes mesmo de conseguir me desvencilhar do casaco, as luzes se apagam. Parece que o filme esperava por mim!

Ainda com o coração batendo rápido dentro do meu peito, vejo a tela preta ganhar as cores verde e amarela. Ancine, Petrobrás, Bossa Nova Films, etc. Todos nomes tão familiares mas também tão distantes. Transporto-me para o Brasil. Estou aqui e estou lá. Estou lá e estou aqui. O Brasil se abre a minha frente, me invade, me contamina. O espetáculo vai começar!

Mais do que um documentário, Tropicália é uma experiência sensorial, uma verdadeira viagem no tempo conduzida e embalada pelas vozes de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Rita Lee, Gal Costa, Nara Leão, Tom Zé e tantos outros. Um filme que ultrapassa o limite do documentário para atingir o patamar de quase-poesia, tocando nossas almas lá no fundo.

Escrito com uma linguagem dinâmica de clip, misturando grafismos a imagens de arquivos, trechos de filmes  (como os do Glauber Rocha, por exemplo) e de entrevistas que exploram o campo e o contra-campo, Tropicália é fruto de um trabalho de pesquisa riquíssimo. Algumas imagens que compõem o filme são inéditas até mesmo para os artistas que fizeram parte do próprio Tropicalismo, afirma uma de suas produtoras, Paula Concenza.

O filme de Marcelo Machado é, mais do que tudo, um reencontro.

Para os  brasileiros “da velha guarda”, um reencontro nostálgico com um momento tão marcante e importante da música e da política brasileiras – a política sendo o pano de fundo para a grande protagonista “música”.

Para mim – e para tantos outros que estão longe - Tropicália é um reencontro com meu país, com minha cultura, com minha gente.

Para os mais jovens, talvez o mais certo fosse falar de um primeiro encontro, de uma apresentação, de um aprendizado feito por meio do encantamento!

Deixo-me então levar pela música alta e abundante no filme. Redescubro os Mutantes, com uma Rita Lee tão novinha, com seus cabelos longos e seu estilo tão original. Fico encantada com tamanha ousadia e talento daquela banda! E vou assim me encantando e me emocionando a cada nova música, a cada nova entrevista, até não conseguir mais conter as lágrimas, que começam a deslizar copiosamente pelo meu rosto, ao ritmo dolorido de Asa Branca, na voz e no violão de um exilado Caetano Veloso. Absolutamente sublime!

O filme então termina e a plateia aplaude. Meus olhos ainda marejados sorriem timidamente, como se fossem os responsáveis pela beleza daquela obra. Quase me levanto para agradecer! Sinto então uma vontade danada de gritar: Esse aí é o meu país! É minha música! É minha terra! É minha gente! Mas as luzes se acendem e me fazem colocar o pé de volta na realidade, guardando então dentro do meu peito todo o orgulho que carrego de ter nascido em um país com tantas cores e sons! Viva o Tropicalismo! Viva Marcelo Machado! Viva o talento brasileiro!

A Dona da História (2004)

•May 2, 2012 • Leave a Comment

Fica aí mais uma sugestão de um ótimo filme brasileiro PRA SE DISTRAIR, mas que também nos põe PRA PENSAR um bocado!

A Dona da História, de Daniel Filho, com Marieta Severo, Antônio Fagundes, Débora Falabella e Rodrigo Santoro. Baseado na peça de João Falcão.

Para ler a crítica, vá ao link do parceiro CEBRAC – Centro Brasil Cultural, aí na barra lateral.

Espelho, Espelho Meu! (2012)

•April 29, 2012 • Leave a Comment

Título original: Mirror, Mirror     

Origem: EUA

Diretor: Tarsem Singh

Roteiro: Jason Keller, Melisa Wallac

Com: Julia Roberts, Lily Collins, Armie Hammer, Nathan Lane

Desde que os irmãos Grimm, ainda na primeira metade do século 19, escreveram Branca de Neve - famosíssimo conto de fadas para crianças – muita coisa mudou. Incluindo as crianças e, sobretudo, a própria história por eles criada.

Walt Disney foi o primeiro a trazê-la para o cinema, ainda em 1937, em seu primeiro longa metragem de animação.  Um sucesso que imediatamente virou clássico na história do cinema. De lá pra cá, o que não faltam são novas versões do conto, quer seja na literatura, no teatro, na dança ou no cinema.

Só neste ano de 2012, duas versões estão sendo lançadas nas telonas. Mas Espelho, Espelho Meu, de Tarsem Singh foi a que saiu na frente!

O filme é bonito, divertido, leve, colorido (em algumas partes) e gostoso de assistir!

A versão do conto foi bastante modificada, guardando pouco do original. Talvez apenas os personagens com algumas de suas características mais marcantes, tipo Branca de Neve (Lily Collins, filha de Phil Collins), com sua pele muito branca, seus cabelos negros e lábios vermelhos. Linda! Ou ainda a rainha – esplendorosamente interpretada por Julia Roberts – vaidosa, ambiciosa, inteligente e louca! Um rei bobamente enfeitiçado pela rainha. Os sete anões que acolhem a moça de pele alva. E um príncipe bonitão (Armie Hammer) que surge no caminho da princesa.

Fora isso, tudo é diferente. Os anões não trabalham nas minas, o príncipe não salva a princesa com seu beijo, a rainha não se disfarça de bruxa para enganar a princesa, e a própria Branca de Neve não é aquela mocinha frágil que usa um vestidinho azul e amarelo, com fitinha vermelha na cabeça, que cantarola para os pássaros e brinca com os animais da floresta. Não, tudo é diferente, original, caricato, hilário!

A floresta, por exemplo, é um lugar eternamente sombrio e assustador. Nada de grandes verdes, de folhagens, nem de animaizinhos bonitinhos. Aliás predominam nesse cenário os tons escuros, sombrios, frios e tristes, tendo o preto e o branco papel de destaque, com a neve como o grande tapete que cobre todo o ambiente. Já no castelo da rainha-madrasta a cor que reina é o dourado. As cenas são assim mais vivas, mais claras, mais alegres, em contraste com o escuro mundo interior da rainha, só percebido pelo seu próprio espelho mágico.

Nessa brincadeira de tonalidades, quando o final-feliz parece chegar, as cores ganham terreno, se misturam, dominam a cena. E, surpresa!!!! Começa então um número musical “à la Bollywood.” Com aquele excesso de tudo, (cores, figurantes…) característico do cinema comercial indiano. Uma cena totalmente supérflua ao enredo do filme e que está ali somente para alegrar, para distrair, para fazer dançar. Sem sombra de dúvidas, algo diferente para nossos olhos ocidentais!

O somatório de Espelho, Espelho Meu é finalmente positivo, sobretudo se o objetivo é “divertimento”.

Agora resta-nos esperar por Branca de Neve e o Caçador, de Rupert Sanders, que, ao menos pelo trailer, tem ares de um filme mais assustador ! Mas já posso adiantar que nenhum espelho-de-madrasta-rainha do mundo vai me convencer de que Kristen Stewart é mais bonita do que Charlize Theron…

O Show de Truman (1998)

•April 22, 2012 • Leave a Comment

Título original: The Truman Show

Origem: EUA        

Diretor: Peter Weir

Roteiro: Andrew Niccol

Com: Jim Carrey, Ed Harris, Laura Linney, Noah Emmerich

Original, instigante, inteligente, um filme a ver e a rever em família.

Em tempos de Jogos Vorazes (leia a crítica neste mesmo site, publicada em 1/4/2012), em que a sociedade do espetáculo em que vivemos é recolocada em questão, creio que vale a pena voltarmos um pouquinho no tempo para analisar este filme do fim do século 20 que retrata tão bem a confusão atual entre o real e o ensaiado, entre o natural e o artificial.

Com vocês O show de Truman!

O filme conta a história de Truman (Jim Carrey), um homem casado, que leva uma vida estável e confortável, com um bom emprego, casa e carro próprios, um bom e fiel amigo de infância, uma mãe compreensiva e participativa, e uma esposa enfermeira que sonha em aumentar a família. Tudo em torno dele parece perfeito, ensaiado, tudo tão em ordem que não parece real. As pessoas o os lugares são sempre os mesmos, todos se conhecem, se cumprimentam e a vida segue uma rotina sem grandes novidades, sem grandes emoções, uma vida meio sem vida.

Truman, que teve seu espírito aventureiro podado desde a infância, mantém em seu íntimo, o sonho de um dia chegar as ilhas Fiji, impulsionado por uma paixão da adolescência. Mas ele é prisioneiro de seus medos (ele perdeu o pai em um acidente de barco e tem fobia de água), de sua ilha, de sua própria ignorância. Mas devagarzinho as coisas vão mudando, até o dia em que ele pensa ter esbarrado em seu pai “morto”, começando a desconfiar de que há algo de estranho em sua vida.

E essa será sua grande luta, ir atrás de seu pai, descobrir se ele está mesmo morto, ultrapassar a fronteira do medo e descobrir o que se esconde do outro lado da ponte, saciando assim sua fome de conhecimento e de aventura.

O filme é em tudo brilhante, a começar pelo nome escolhido para seu protagonista e grande estrela do show: Truman. Um nome que já traz em si a “verdade”, batizando ironicamente um personagem que não conhece a verdade sobre sua família, sua cidade, sua vida… sobre nada.

A escolha estética de Peter Weir foi a de filmar Truman sob diversos pontos de vistas, indo desde tomadas “normais”, com planos gerais, planos americanos, etc., até tomadas feitas sob ângulos “estranhos”, dando a impressão de tomadas feitas por câmeras de segurança (com distorções), ou câmeras escondidas, que têm como resultado uma série de cenas emolduradas por diferentes caches, por vezes em contra-plongée, outras em plongée. Enfim, uma profusão de câmeras subjetivas cujos olhos são os dos próprios espectadores do Show de Truman, disfarçados em anéis, colares, retrovisores, etc.

O Show de Truman nos faz pensar em até que ponto se pode manipular a vida de uma pessoal em prol de uma boa audiência. Nos faz também refletir sob até onde nossas vidas, fora do estúdio, não são também manipuladas, orientadas por determinados papéis que a sociedade nos impõe interpretar. Papéis muitas vezes bem diferentes do que realmente somos ou sonhamos. E que fazemos sem questionar. Será que a vida que se vive fora de um reality show é tão melhor ou mais real do que a que se vive lá dentro? Será que não somos nós também grandes atores, atuando, fingindo, interpretando papéis diversos, a depender do que a circunstância exige? E quem é o nosso diretor, a qual “deus” obedecemos?

Por fim, o filme de Peter Weir nos remete também ao mito da caverna de Platão, nos fazendo questionar se não há algo lá fora de nossas vidas, algo que vai além desta vida que levamos, algo mais real, mais sincero, mais honesto e coerente com nós mesmos. Só que para encontrarmos a resposta é preciso ter coragem de sair da caverna e enxergar a luz, a verdade!

Fica aqui a sugestão de um bom filme para pensar. Excelente para assistir e discutir com adolescentes.

Piratas Pirados! (2012)

•April 15, 2012 • Leave a Comment

Título original: The Pirates! Band of Misfits  

Origem: Inglaterra

Diretor: Peter Lord, Jeff Newitt

Roteiro: Hamish McColl, Gideon Dafoe

Com as vozes de: Hugh Grant, Salma Hayek, Jeremy Piven

Tecnicamente impecável, divertido, inteligente, está aí um bom programa para toda a família!

A nova produção dos estúdios Aardman chega mais uma vez elevando o patamar da animação mundial! Utilizando personagens de massinha e técnica de stop-motion associada à tecnologia digital, o filme é tecnicamente e esteticamente brilhante!

Fora isso, Piratas Pirados! é de um humor altamente sofisticado, inteligente e mordaz – bem ao estilo inglês de ser – não poupando nem mesmo figuras importantes de sua história como a rainha Victoria herself e Charles Darwin.

A história é baseada no livro de Gideon Dafoe e se passa na Inglaterra vitoriana, em uma época em que a pirataria estava em voga, tendo a rainha Victoria como sua inimiga número um.

Enquanto a rainha (na voz de Imelda Staunton) defende, em terra firme, sua campanha antipirataria, um concurso de “Pirata do Ano” movimenta as águas e os piratas de todos os mares. Dentre eles, o candidato com menor probabilidade de ganhar o concurso é o pirata Capitão – a quem Hugh Grant maravilhosamente empresta a voz – e que é, digamos assim, um loser. Apesar de sua bela barba, nosso protagonista não é lá muito bom em saquear navios, nem em roubar tesouros… Não tem perna de pau, nem olho de vidro, muito menos cara de mau. Na verdade, o pobre Capitão tem ainda uma alma boa, não muito condizente com sua condição de pirata, embora lute constantemente para se tornar um verdadeiro terror dos mares…

Assim, depois de sofrer várias humilhações pelos outros piratas candidatos a “Pirata do Ano”, nosso Capitão resolve agir para mudar de uma vez por todas sua imagem de perdedor. Ele começa então a atacar sem descanso todos os navios que aparecem em seu caminho. Infelizmente, suas tentativas são todas fracassadas. Nada de ouro, nada de pedras preciosas, nada de nada! Até o dia em que, quando já está prestes a desistir de tudo, ele ataca um navio cheio de “bichos esquisitos” e se vê diante de ninguém mais, ninguém menos que Charles Darwin (David Tennant).

A partir daí, tudo vai mudar! O cientista – pintado no filme como alguém ganancioso e sem muitos escrúpulos – vai descobrir que o papagaio do pirata Capitão era na verdade uma espécime raríssima, e vai tentar convence-lo a apresenta-lo no Salão de Ciências de Londres, podendo com isso ganhar o grande prêmio. O perdedor pirata vê ali uma chance dourada de mudar seu destino. E a aventura tem início!

O filme de Peter Lord – também diretor do excelente Fuga das Galinhas (2000) – é gostoso de assistir e vai certamente divertir pequenos e grandes. Cheio de piadas inteligentes e referências histórias e culturais, Piratas Pirados! é extremamente crítico, satírico, misturando problemas antigos, contemporâneos e eternos com maestria. Aliás, me impressiona como os ingleses são capazes de criticar e brincar sem pudor nem medo com suas figuras mais emblemáticas, com seus símbolos nacionais, com sua história… Talvez uma lição que possamos ainda aprender!

PS. Vocês concordam comigo que a personagem de Salma Hayek – Cutlass Liz – foi inspirada em Maria Bonita e/ou no nosso cangaço nordestino? Não consegui enxergar de outra maneira…

Mince Alors! (2012)

•April 8, 2012 • Leave a Comment

Título original : Mince Alors !  affiche Mince alors!

Origem : França

Diretor : Charlotte De Turckheim

Roteiro : Charlotte De Turckheim, Gladys Marciano

Com : Victoria Abril, Lola Dewaere, Catherine Hosmalin, Charlotte De Turckheim

Uma comédia que nos faz pensar…

O filme de Charlotte De Turckheim é divertido, sensível, gostoso de assistir e ainda nos faz refletir sobre a ditadura da magreza que assola nosso novo milênio e que vem levando milhares de meninas e mulheres a fazerem loucuras em nome da boa forma!

O filme conta a história de Nina (Lola Dewaere) – uma moça bonita e um pouco acima do peso para os padrões atuais – que, junto com seu marido Gaspard (Grégory Fitoussi), é dona de uma marca de roupas de banho. Nina cuida das finanças enquanto ele – que é super em forma – se ocupa pessoalmente das criações dos biquínis e maiôs e, ainda, das escolhas das modelos. Um pequeno detalhe: ele não aprecia nem um pouco as gordurinhas!

Um belo dia, Gaspard chega em casa com um presente para sua amada esposa: um pacote de um mês em um spa nos alpes franceses. E é dada assim a largada rumo à diversão (e à reflexão)!

Ao chegar em Brides-les-Bains, Nina faz amizade com Emilie (Catherine Hosmalin), uma dona de casa cheia de vida, casada, mãe de dois filhos, obesa, que finge não se preocupar com seu tamanho, sofrendo, porém, escondida; e com Sophie (Victoria Abril), uma jovem senhora divorciada, com problemas para aceitar seu corpo e as transformações que a passagem do tempo opera.

O trio está assim formado. Juntas elas vão viver diversas situações de descobertas e redescobertas de si mesmas, vão brigar, se ajudar, se divertir e, acima de tudo, vão aprender a se aceitar como são.

O filme certamente joga bastante com estereótipos e com situações-clichês, nos apresentando diversos “tipos de gordos” e seus respectivos problemas. Mas nem por isso Mince Alors! perde seu encanto. Afinal nem tudo é tão simples assim! Por trás de camadas de gordura (ou de pseudo-gorduras) há corações frágeis e almas hiper sensíveis que sofrem em silêncio. Pessoas que, muitas vezes, camuflam suas tristezas por detrás da figura do brincalhão, do que “não está nem aí”, mas que quotidianamente se perguntam o porquê de estarem presos àquele corpo, que lutam todos os minutos contra um vício, um desejo, um ímpeto muito mais forte do que eles próprios!!!!

E que atire a primeira pedra quem nunca sofreu por não entrar em uma roupa, quem nunca se sentiu em desconforto com seu corpo, quem nunca sofreu com dietas malucas antes da chegada do verão!

Por outro lado, o filme não faz apologia à gordura. Muito menos defende a todo preço o lema “Big is beautiful”! Ele apenas tenta nos fazer enxergar que não precisamos ser todos iguais, todos magérrimos, tamanho 34! E que o mais importante de tudo é sentirmo-nos bem com nosso próprio corpo, quer isto signifique perder 5 quilos, 10 quilos ou nenhum grama sequer…

Quanto à estética, o filme de  Charlotte De Turckheim – que aliás também atua, no papel da dona do salão – não apresenta grandes inovações de montagem, nem planos diferenciados ou magníficos. Tudo é meio previsível, já feito ou já visto. A narração também segue esta linha da simplicidade, sendo direta, sem subterfúgios. Começo, meio e fim. No entanto, o formato é eficaz em seu propósito.

Mince alors! é um filme para rir que pode arrancar algumas lágrimas das almas mais sensíveis! Recomendo.

Enquanto Chaplin’s World não fica pronto…

•April 4, 2012 • Leave a Comment

Enquanto o museu dedicado à vida e à obra de Charles Chaplin – Chaplin’s World – não fica pronto, uma boa pedida para quem estiver viajando pela França (ou mesmo pela Suíça Romande) é a Exposição “Charles Chaplin, images d’un mythe”, que acontece até o dia 20 de maio no Palais Lumière, em Evian. Aquela da água mesmo!

A exposição não é muito grande, porém extremamente rica, composta de trechos de filmes – inclusive um inédito – cartazes, artigos de jornais e revistas e, ainda, de uma série de fotos lindíssimas de Chaplin em suas mais diversas facetas: o ator, o diretor, o compositor, o pai de muitos filhos, o marido de várias mulheres, o exilado… Enfim, belos registros de um super homem que revolucionou a história do cinema mundial e que continua até hoje sendo um ícone para cineastas e cinéfilos de todas as nacionalidades.

O must da exposição é ver de pertinho a roupa e os sapatos (gigantes) usados por Carlitos em um de seus filmes… De arrepiar!

Programa imperdível para os fãs de Chaplin!