Coringa (2019)

•October 17, 2019 • Leave a Comment

Título original: Joker

País de origem: EUA

Diretor: Todd Phillips

Roteiro: Todd Phillips e Scott Silver

Elenco: Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Zazie Beets, Frances Conroy, Brett Cullen

Logo que ouvi falar que ia sair o filme do Coringa, pensei: mais um blockbuster de heróis… nesse caso, de um anti-herói. Super produção, muitos efeitos especiais, muito barulho, cortes rápidos, muita ação, pouco tempo para se analisar qualquer coisa, puro cinema de entretenimento. E logo pensei que isso deveria ser uma reação da DC Films, que nos últimos anos anda perdendo terreno feio para a Marvel Studios, com seus Avengers e Panteras Negras da vida. Diga-se de passagem, adorei Pantera Negra!

Enfim, confesso que não fiquei muito animada e pensei em esperar o filme chegar na Netflix para assistir. Até que comecei a ler sobre a repercussão que o filme estava tendo nos Estados Unidos, chegando mesmo a ser entendido por algumas plateias como uma mensagem subliminar contra o governo Trump. Soube até da circulação de um texto do Michael Moore, por meio de uma amiga que mora em Washington (Obrigada, Fê!), defendendo o filme e ressaltando o valor de sua mensagem nos tempos atuais, época sombria, em que muitos medos povoam nossos pensamentos.

Me rendi então à famosa “peer pressure”, e fui, no fim de semana passado, assistir ao Coringa, mesmo sabendo que estava em pleno período de “invasão blockbuster”. Ou seja, um único filme hollywoodiano ocupando praticamente todas as salas de cinema da cidade, deixando só os piores horários para produções locais ou mesmo de outros países. Mas minha curiosidade foi mais forte que minha bronca… me rendi e vou dizer: valeu cada segundo!

O filme de Todd Phillips é um filmaço, daqueles que você sai e fica por horas discutindo, pensando, refletindo. Um filme, sem dúvida, duro de ver, não pelo excesso de violência física – confesso que achava que ia ser pior! -, mas pelo excesso de realidade impresso naquela tela gigante do cinema. Excesso de verdade sendo atirada bem na nossa cara.  Excesso quase insuportável quando entendemos que nós, que estamos ali sentados confortavelmente naquela sala de cinema, somos a elite ali representada. Aquela elite que ataca, que chuta, que discrimina e que, acima de tudo, parece ignorar o que está acontecendo na nossa sociedade. Elite que desvia o olhar ao passar ao lado de um mendigo dormindo na rua, que fecha rapidamente o vidro do carro quando sabe que vem aquele velhinho ou aquele deficiente físico pedir dinheiro outra vez… Mea culpa.

Obviamente, Coringa é uma grande alegoria de nossa sociedade, e, por isso mesmo, se permite trabalhar com excessos e com muitas metáforas. E isso assusta! Mas são justamente essas extrapolações ou caricaturas de nós mesmos que nos fazem entender aquela tela como um espelho do que estamos nos tornando ou, quem sabe até, do que já somos.

Ao acompanharmos o passo a passo da construção do “monstro” em que vai se convertendo Arthur Fleck (magistralmente interpretado por Joaquin Phoenix), enxergamos muitos casos de conhecidos nossos, quer seja na pele do próprio Arthur, quer seja na pele dos que estão em seu entorno, ajudando a construir a “criatura-Coringa”. Enxergamos, no início, um ser humano que tem um sonho: vencer na vida como comediante. Uma pessoa que, apesar das adversidades sociais (pobreza) e de problemas psicológicos (sofre de uma doença mental em que não consegue controlar o riso), tenta alcançar esse sonho por meios lícitos. Vemos, assim, ao longo do filme, vários momentos em que aflora a bondade naquele homem (como o cuidado que tem com a mãe velha e doente), ou ainda de ingenuidade, misturados a rasgos de delírio, transmitidos por aquele corpo frágil que não se faz compreender nem mesmo pela assistente social que deveria ajudá-lo. No entanto, o descaso e a ignorância dos que detêm o poder (políticos, empresários, imprensa, artistas, assistentes sociais, “meninos de Wall Street”, etc.) vão minando a conta-gotas os bons sentimentos que existem naquele corpo solitário e sofrido.

Não à toa, o Coringa de Todd Phillips é cheio de referências implícitas e explícitas ao grande Charles Chaplin, que sabia tão bem dosar o riso e a dor. Quem melhor, na história do cinema, soube (e teve coragem de) levar às telas comédias de aparência ingênua e que eram, na verdade, grandes críticas à sociedade de então?

Não, definitivamente  Coringa não é uma apologia à violência, como muitos clamam por aí. Muito ao contrário. O triunfo do Coringa, aplaudido em seu ato final, não é consequência dos assassinatos que cometeu, muito menos reflexo do monstro em que se transformou. Sua grande vitória, e por isso as palmas, é ter-se feito ouvir e, assim, ter liberado o grito de milhões de “palhaços” que vivem na penumbra, escondidos atrás de máscaras que lhes roubam a identidade. É ter dado voz aos “invisíveis”. É ter despertado uma camada da sociedade que vinha aguentando as pequenas violências do dia-a-dia sem nada fazer, sem protestar.

O filme de Todd Phillips me fez pensar em O Grito, de Munch. Acho que é isso: Coringa é, para mim, a liberação daquele grito sufocado, que tenta escapar de dentro de um ser deformado pela sociedade, de uma figura contorcida de dor e de sofrimento. É a materialização daquele grito, do pedido de socorro de uma gente tão necessitada!

Não fiquem com medo da violência do filme. Vejam Coringa. Vale muito a pena!

PRA PENSAR.

Roma (2018)

•March 4, 2019 • 3 Comments

Origem: México

Diretor: Alfonso Cuarón

Roteirista: Alfonso Cuarón

Atores: Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Marco Graf, Daniela Demesa, Carlos Peralta, Nancy García

Basta digitar “Roma Alfonso Cuarón” no Google para ficar impressionado com o número de prêmios recebidos por esse filme tão pessoal do diretor mexicano, já ganhador de vários Oscares por seu também excelente Gravidade (2013). (Leia a crítica no post de 27/10/2013). No entanto, alguns espectadores têm ficado surpresos, alguns até indignados, com essa quantidade de galhardetes recebidos por um filme que consideram monótono, lento demais e com uma história que não conta nada… um “dramalhinho”, como colocou uma de minhas alunas.

Mas vamos lá, vou fazer aqui explicitamente a defesa de Roma, que considero um filme excelente, super merecedor dos prêmios recebidos, apesar de ter dito em texto recente  que não era obra para ganhar o Oscar de melhor filme de 2019, o que continuo afirmando.

Roma decididamente não é um filme tipicamente hollywoodiano. Trata-se de um filme de arte, poético ao extremo, com uma fotografia de encher os olhos e o coração, e com movimentos de câmera precisos, bem calculados, coreografados, capazes de dar ao espectador uma boa noção da realidade ali retratada. O ritmo é lento sim, mas é justamente essa lentidão que nos permite apreciar a beleza de sua fotografia e os detalhes de uma história “sem grandes acontecimentos”.

Já de início, o plano do chão (não identificável num primeiro momento) em plongée total com uma água ensaboada que vem e vai em pequenas ondas, é simplesmente maravilhoso!  Ondas que refletem um pedaço de céu. Um avião que passa, confinado no quadrado daquele reflexo. Ondas que vão e vêm, num movimento que embala e que já anuncia o ritmo da narrativa a que vamos assistir. A câmera se move em seguida para cima e abre para mostrar o palco da história que será contada, perseguindo a empregada doméstica Cleo (Yalitza Aparicio), a protagonista do filme, num belo plano-sequência sem pressa de tudo mostrar. Um início que, na verdade, faz eco à sequência já quase do final do filme, em que as ondas do mar vêm e vão, como se tivessem o poder de lavar as feridas e levar embora as tristezas e decepções da “vida como ela é”. Sim, porque Roma é isso, um filme sobre “a vida como ela é”. Um filme de narrativa simples, que não conta nenhuma história mirabolante, nenhum “fait divers”, não sendo nem de longe o que costumamos chamar de dramalhão mexicano. 

A história contada em Roma é simples, é a da infância do próprio diretor Alfonso Cuarón, terceiro de quatro filhos de uma família de classe média alta mexicana, morador do bairro Roma. Uma história que poderia ser a minha, a sua e a de tantas outras pessoas que vivem ao nosso redor. Uma história, no entanto, muito característica das sociedades latino-americanas, que costumavam ter (ou ainda têm) empregadas domésticas  que moravam em suas casas e que faziam da vida da família para a qual trabalhavam a sua própria vida. Uma relação, sem dúvida, extremamente complicada de se entender se vista por olhos europeus ou norte-americanos. Para eles, essa relação é algo impensável, inconcebível, se situando no limiar da escravidão. E, infelizmente, não podemos negar que há casos que chegam muito próximo disso. Há patrões que maltratam seus empregados, que lhes pagam de forma indigna, mesmo fazendo-lhes trabalhar horas a fio. Há os que lhes dão comidas diferentes, que separam os pratos e copos que podem usar, que lhes privam de ter suas próprias vidas. Reflexo direto da desigualdade social desses países, mas que, felizmente, vêm mudando pouco a pouco, sobretudo em função de vários direitos trabalhistas adquiridos. Por outro lado, não podemos negar tampouco que há um lado afetivo que nasce dessa relação e que é igualmente difícil de explicar ou de transmitir para alguém que nunca teve uma babá, uma empregada morando em casa, que nunca viveu esse sentimento, que nunca experimentou o amor que pode dali brotar. E para mim, é aí que está a grande beleza do filme de Cuarón. Afinal, falar sobre os problemas surgidos dessa relação desigual, fruto dos abismos sociais presentes nos países subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento, não me parece original, embora de suma importância. Esse tema já vimos aos montes! Mas conseguir colocar a lupa nas flores que nascem desses cactos, isso sim, me parece um trabalho difícil, tarefa para uma alma sensível, merecedora de muitos prêmios.

Roma é então um filme sobre o amor. Uma história sobre seres humanos que, independentemente da classe social a que pertencem, amam, sofrem, choram, riem, sentem, vivem… Cuarón consegue assim, através de um trecho da vida de Cleo, e de um período difícil na história de sua própria família – separação dos pais –, descrever a complexa relação entre empregada e patroa de uma maneira sensível, honesta, simples, delicada, sem cair nunca nos estereótipos e sem fazer justamente grandes dramas de tudo isso. Mostra, ao mesmo tempo, a grande quantidade de horas trabalhadas sem descanso por parte de Cleo, da falta de tempo e de espaço para sua vida pessoal, mas também mostra o apoio que ela tem de Sofía (Marina de Tavira), sua patroa, na hora em que suas escolhas, tomadas fora do universo de trabalho, acabam conduzindo-a para um caminho de sofrimento. O foco passa a ser aí a solidariedade entre essas duas mulheres “abandonadas” por seus parceiros, o apoio mútuo, a compreensão e, por que não dizer, a amizade que surge entre elas. Sofía às vezes grita com Cleo, abusando de sua condição de patroa, mas também grita com o filho, abusando da sua condição de mãe, da mesma maneira que o marido grita com ela, abusando da sua condição de marido e de homem… 

Roma, que, aliás, Cuarón nunca escondeu que retratava sua infância, não deixa de ser um tipo de mea culpa do diretor, ou melhor, uma bela reflexão sobre essa relação desigual entre patrão e empregado doméstico, causada sobretudo pelas disparidades sociais de nossos países ainda tão carentes de desenvolvimento. Mas a beleza maior que ele mostra, no entanto, são os sentimentos genuínos que podem existir nessas relações, amores verdadeiros entre crianças e babás (como o dele para Libo, verdadeira Cleo, a quem o filme é dedicado), confiança e solidariedade entre mães e empregadas, mulheres que confiam seus filhos aos cuidados de outras mulheres, às vezes também mães, tantas vezes quase-mães. Algo que teve em mim, latino-americana que sou, o efeito das madeleines de Proust… Não pude me impedir de voltar no tempo e pensar na minha “Baia” – era assim que eu a chamava – que tive que deixar em Fortaleza quando minha família se mudou para Brasília. Eu só tinha 4 anos e, naquela época, ela e minha amiga Adriana, que é minha amiga até hoje, eram meu mundo. Lembro até hoje da dor de deixá-las… A nossa relação era tão forte que quando nasceu meu primogênito,  “Baia” veio cuidar de mim e dele, ficou três meses comigo em Brasília, morando em minha casa, dividindo comigo minha intimidade, me ajudando em minhas angústias de mãe de primeira viagem. Ela já tinha dois filhos adultos. Me senti protegida, amada, querida e tive certeza de que meu filho também estava sendo muito amado por ela.

Quanto à quantidade absurda de prêmios arrebatados por Roma, claro que existe também aí por trás toda uma indústria. Com certeza a poderosa Netflix, percebendo o potencial do filme de Cuarón, fez uma grande campanha para que eles acontecessem. O jogo da indústria cinematográfico funciona assim mesmo. Todos sabemos. Ninguém faz filme para ser guardado na gaveta! E isso não desmerece em nada o valor de Roma, nem o torna menos merecedor dos prêmios que já levou. O filme é lindo, de uma poesia encantadora, daquelas que têm o poder de causar choque, produzindo emoções verdadeiras, como defendia o poeta Pierre Reverdy.  Um filme PRA PENSAR e PRA SE EMOCIONAR.

O poder dos documentários

•March 1, 2019 • Leave a Comment

Ouvindo o discurso das ganhadoras do Oscar de melhor documentário de curta metragem deste ano – Period. End of a Sentence. (2018), da iraniana-americana Rayka Zehtabchi – uma frase ficou gravada em minha mente e, imagino, na de muitas outras pessoas também: “Period should end a sentence. Not a girl’s education” [“Period” deveria encerrar uma sentença. Não a educação de uma menina”]. Lembrando aqui que a palavra “period” em inglês significa tanto ponto final como menstruação, possibilitando assim o êxito desse jogo de palavras.

A partir dessa frase e do próprio curta, ao qual assisti logo em seguida, muitos pensamentos relacionados à força do documentário e ao poder que ele tem de propor mudanças, e às vezes até mesmo de realizá-las, me vieram à cabeça. Principalmente levando em conta que, hoje em dia, o espectador comum está sabendo cada vez mais reconhecer o valor desse gênero, por tanto tempo discriminado, apesar de sua origem se confundir com a do próprio cinema (vide os filmes dos Irmãos Lumière!).

Fiquei, então, lembrando de alguns documentários que vi recentemente e que trazem uma mensagem tão forte que acabam por ter o real poder de mudar coisas… Comento rapidamente dois deles :

Born into brothels (2004), de Zana Briski e Ross Kauffman,  é uma coprodução Estados Unidos / Índia, que também levou o Oscar de melhor documentário em 2005, só que na categoria de longa-metragem. O filme mostra a situação degradante em que vivem os filhos das prostitutas de um bordel em Calcutá, em pleno distrito da luz vermelha. Crianças que, em sua maioria, não frequentam a escola ou que, quando vão, acabam falhando por não terem tempo para dedicar aos estudos, já que suas rotinas são preenchidas por uma grande quantidade de trabalhos domésticos. As meninas  não enxergam outro caminho que não o de seguirem os passos das mães, avós e até bisavós, tornando-se elas mesmas prostitutas assim que atingirem a idade “apropriada”. Um filme que tem, portanto, tudo para ser duríssimo (e é), mas que consegue, de alguma maneira, dar-nos um sopro de esperança em meio a um cenário de total horror para nossos olhos ocidentais e de elite.

A diretora do filme, Zana Briski ou Auntie Zana (Tia Zana), como é carinhosamente chamada pelas crianças, é uma fotógrafa inglesa que foi a Sonagachi para fazer um registro fotográfico das prostitutas do Red Light District, quando se deparou com a situação degradante em que vivem os filhos dessas mulheres. Sem alternativa, as crianças vivem ali, no meio do bordel, convivendo diretamente com as drogas e a prostituição. Meninos e meninas sem ambições ou visões de futuro. Zana introduz, porém, o “sonho” em suas vidas! Isso porque, ao perceber o interesse pelos equipamentos usados em seu trabalho – as câmeras fotográficas -, ela decide ensiná-los a fotografar. Coloca uma câmera na mão de cada um (no filme aparecem 8 crianças) e pede para que registrem a vida que vêem diante de seus olhos. Lhes ensina a enquadrar, a compor, a ver a vida sob outro ângulo, a sonhar…

O filme mostra também o périplo da fotógrafa-diretora para colocar essas crianças em internatos, lutando contra o preconceito e a falta de dinheiro. A fotógrafa se sai vencedora em alguns casos e em outros, nem tanto, com algumas crianças chegando a entrar em escolas, mas depois abandonando as instituições.

Apesar dos “fracassos”, não se pode dizer que o trabalho de Zana foi em vão! Avijit, um dos meninos mais talentosos do grupo, chega mesmo a ir a Amsterdam participar como jurado mirim de uma conferência promovida pela World Press Forum Foundation, indo mais tarde estudar cinema em Nova Iorque. Um sopro de esperança que nos faz acreditar que, com esforço e amor, dá para se mudar o destino de alguém.

Após a conclusão do filme, Zana ainda criou uma ONG chamada Kids with Cameras, numa tentativa de seguir apoiando crianças em situação de risco, ensinando-as a arte da fotografia e usando o dinheiro das fotos para bancar a educação deles. Um belo documentário com a força para mudar algumas vidas!

The Dancing boys of Afghanistan (2010), do jornalista afegão Najibullah Quraishi,  apresenta uma triste prática (cultura / mania / doença) afegã chamada Bacha Bazi, que consiste na compra de meninos por parte de homens poderosos, com o objetivo de treiná-los para dançarem e cantarem vestidos de mulher para uma plateia masculina. Em muitos casos, depois das apresentações, os meninos são usados para satisfazer os desejos sexuais de seus donos ou de seus convidados. Os meninos que tentam escapar acabam sendo, muitas vezes, assassinados. Uma história de escravidão, pedofilia, homicídio, assédio e de tantas outras monstruosidades das quais o ser humano infelizmente é capaz.

Para contar essa história, Quraishi convence um poderoso empresário do norte do país a deixá-lo penetrar no mundo do Bacha Bazi, alegando estar realizando ali um documentário que tem como objetivo comparar a prática afegã a práticas similares da Europa (mentira!). Dastager, o empresário, que além de ter outros negócios, investe também na compra de meninos, conta com orgulho os detalhes desse mundo de horror. A naturalidade com ele e outros homens poderosos do Afeganistão falam do assunto é de embrulhar o estômago de qualquer um! Nenhuma vergonha, nenhum remorso, nenhum pudor, tudo parece estar dentro da normalidade, apesar de a prática do Bacha Bazi constituir crime, de acordo com as leis do país. Trata-se, porém, de um símbolo de status e de poder. E, embora a polícia reconheça a prática como crime, alguns policiais são flagrados por Quraishi em uma festa em que meninos se apresentam. Eles assistem a tudo calados. Ou pior, se divertindo. Os “donos” desses meninos se orgulham de suas posses, alegando estarem ajudando a essas crianças, tirando-os da miséria e  oferecendo-lhes “uma vida melhor”.

Depois de perceber que havia ido longe demais em suas filmagens, Quraishi decide sair do Afeganistão e apresentar o filme para ONU, em Nova Iorque. Para Radhika Coomaraswamy – a então Representante Especial do Secretário-Geral para Crianças e Conflito Armado e uma das poucas a reconhecerem a existência do Bacha Bazi no Afeganistão -, a única maneira de acabar com essa prática, seria condenar as pessoas que cometem esse crime. Mas existe muita “gente grande” envolvida e a coisa não é tão simples assim de se resolver. Ora, se até na ONU esse é um assunto tabu, que dirá no próprio Afeganistão?

Mas nem tudo está perdido… Shafiq, um menino de 11 anos que aparece no filme sendo iniciado na prática do Bacha Bazi, comprado por Dastager, foge durante as filmagens e depois é encontrado e devolvido a seu algoz. No entanto, com dinheiro arrecadado por Qurasishi e com a ajuda de uma boa alma afegã, o menino é devolvido à família e confessa ao jornalista que sonha em estudar e um dia se tornar médico.

Em meio a cenários de absoluto caos, The Dancing Boys of Afghanisthan e Born into Brothels mostram que é possível ensinar a sonhar e fazer a diferença na vida de alguém. Pode parecer pouco, mas se pararmos para pensar friamente, na pior das hipóteses,  os filmes de Qurasishi e de Briski ajudaram a salvar ao menos duas vidas!

Por mais documentários assim!

Pequena reflexão sobre o Oscar 2019

•February 22, 2019 • Leave a Comment

Hollywood não é mais a mesma…

Ainda me falta assistir a um dos indicados ao Oscar de melhor filme de 2019 – Vice (2018), de Adam McKay – mas, diante da lista de nomeados e da crescente diminuição do número de telespectadores da cerimônia de premiação (Oscar 2018 foi o menos assistido da história), já podemos desenvolver alguma reflexão sobre as mudanças por que vem passando a mais renomada premiação cinematográfica do mundo ocidental.

Vamos lá:

Neste ano, os dois filmes com maior número de indicações são Roma (2018), do mexicano Alfonso Cuarón, e A Favorita (2018), do grego Yorgos Lanthimos. Só por aí já se percebe uma mudança gigantesca no perfil premiado pela Academia ultimamente. Roma, que também concorre na categoria de melhor filme estrangeiro, representando o México, é falado em espanhol e é um filme extremamente poético, em preto e branco, de narrativa simples, sem recorrer às inúmeras possibilidades que a tecnologia atual pode propiciar. Filme lento sobre as relações humanas, sobre o amor e sobre a condição da mulher, independente da classe social a que pertença. Um lindo filme de arte, com muito mais perfil pra ganhar o Festival de Cannes ou o de Berlim. Já A Favorita, uma co-produção britânico-americana, é marcada pelo humor peculiar de Lanthimos, diretor também do fantástico (em todos os sentidos) O Lagosta (2015), que, no mínimo, se pode dizer, não caiu no gosto de tantos espectadores assim. Eu mesma o indiquei a alguns amigos que depois vinham me perguntar que filme era aquele… A Favorita, por sua vez, não tem tampouco perfil de blockbuster, apesar da estética moderna dada a esse filme épico – com imagens distorcidas pelo uso de grandes angulares, trilha sonora dissonante e monocórdica – e da forte carga de comicidade dos diálogos, que acabam por transformar o filme em uma grande sátira à Inglaterra do século 18, mostrando uma sociedade marcada pela aparência e pela hipocrisia.

Cabe então a pergunta: O que aconteceu com aquela velha Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, sediada em Hollywood, que premiava o filme-espetáculo – conhecido também como “filmão” – grandes produções que levavam milhares de espectadores às salas de cinema? O que aconteceu com aquela premiação criticada pelos amantes do cinema de arte, que a consideravam superficial e despreocupada com a realidade? Estaria Hollywood mudando?

Analisando os últimos Óscares, me parece que, hoje, os filmes, para serem premiados, muito mais do que apresentarem inovações tecnológicas ou estéticas, devem estar implicados em alguma “causa” da atualidade, seja a questão da discriminação racial contra negros, latino-americanos, mulheres, grupo LGBT e/ou outras “minorias”, ou questões ambientais que afetam todo o planeta, ou qualquer outro tema que esteja na ordem do dia. O que certamente não é de todo mau. Ao contrário, é uma resposta positiva ao que tanto se criticou no passado sobre as premiações dadas pela Academia a filmes alienantes, de “transparência”, que distanciavam cada vez mais o espectador da realidade vivida.

No ano passado, por exemplo, em plena estupefação do mundo diante da possibilidade da construção de um muro separando México dos Estados Unidos, quem levou o prêmio foi o mexicano Guillermo del Toro com o filme A forma da água (2018). Não que o filme não fosse bom, mas estavam competindo outros filmes igualmente bons como os excelentes Três anúncios para um crime (2017), de Martin McDonagh e Corra! (2017), de Jordan Peele, sem falar dos outros competidores. Será que o fato de Del Toro ser mexicano pesou na eleição do filme para levar o prêmio maior da noite ? Para mim, sem dúvida, a resposta é sim! Da mesma maneira que no ano anterior pesou o fato de Moonlight – sob a luz do luar (2016), de Barry Jenkins, ser composto por um elenco 100% de negros, como uma forma de reparar o erro de 2017, em que não se havia premiado nenhum ator, roteirista ou diretor afro-americano. A coisa foi tão explícita que a estatueta, quase certa para o inovador La, la land (2017), de Damien Chazelle, foi tirada literalmente das mãos da equipe desse excelente musical revisitado, depois de um erro na leitura do envelope (ato falho?).

Vitória então para o cinema que faz pensar, certo? Sim. Pode ser. E isso é bom. Por um lado. Por outro, se pensarmos bem, para esse tipo de cinema sempre houve o Festival de Cannes, de Veneza, de Berlim, ou o próprio Sundance, além de tantos outros. Ou seja, já havia (e há) espaço para premiações aos filmes de arte, apesar de persistir a falta de oportunidade para sua exibição, o que é, aliás, um problema bem mais grave até do que as estatuetas distribuídas pelos tantos Festivais mundo afora e para o qual até hoje não se conseguiu encontrar uma solução.

Se todos os festivais do mundo passarem a premiar “causas”, me pergunto então que espaço sobrará para se premiar os filmes de grande bilheteria, os famosos blockbusters que arrastam (ou arrastavam) multidões às salas de cinema e que trazem as inovações tecnológicas que fazem evoluir a sétima arte? Afinal, eles também têm seu valor. Quem não tem vontade às vezes de ver um filme para se distrair, para rir ou simplesmente para ver o tempo passar? Que mal há nisso? Filme também é distração, dentre outras coisas.

Não é porque lutamos para que haja espaço para os filmes de arte, para os documentários e para as pequenas produções, que temos que execrar os filmes de grande produção. É o dinheiro gerado por eles que permite o investimento em novas tecnologias para o cinema e que faz girar a grande roda da indústria cinematográfica. Não precisamos matar um para que viva o outro. Da mesma maneira como podemos (e devemos) conviver todos – de todas as raças, sexos e classe sociais – de forma pacífica e respeitosa, os filmes, grandes e pequenos, de arte ou de diversão também podem (e devem) conviver de forma harmônica. Como La-la Land nos explicou tão bem dois anos atrás não precisamos eliminar o antigo para dar lugar ao novo. Há lugar para todos! É uma questão de adaptar-se, de renovar-se, de abrir mente e coração ao outro, ao novo, ao diferente, e, acima de tudo, é uma questão de respeito. Respeitemos os filmes de diferentes estilos, cores, gêneros, orçamentos e nacionalidades… e que venham os prêmios! 

Terra Selvagem (2017)

•September 24, 2017 • Leave a Comment

Título original: Wind River

Origem: EUA

Direção: Taylor Sheridan

Roteiro: Taylor Sheridan

Elenco: Jeremy Renner, Elizabeth Olsen, Julia Jones, Graham Greene, Kelsey Asbille, Apesanahkwat

Depois de séculos sem ir ao cinema – sim, acreditem!!!! – ontem fui a uma sala de cinema perto de casa para assistir ao filme Wind River, aqui na Argentina traduzido como Vientos Salvajes. Confesso que, depois de haver visto o trailer, fui achando que ia assistir a mais um thriller americano, tipo blockbuster… que, aliás, não desgosto nem um pouco! Mas estava meio desanimada, pensando que depois de tanto tempo sem fazer um de meus programas preferidos, ia acabar ver um filme comum. Para minha sorte, surpresa e prazer, achei o filme muito bom, e nada comum!!!!

O filme de Taylor Sheridan é um thriller diferente. Diria talvez que estamos aqui diante de um thriller filosófico, um suspense que nos faz refletir sobre questões profundas da natureza humana e das leis que regem nossas sociedades modernas. Não se trata de um mistério insolucionável que você só vai desvendar nos últimos minutos… nem por isso, deixa de prender a atenção do princípio ao fim. Mérito de um roteiro redondo e de uma montagem cuidadosa, que resultam em um filme de ritmo excelente, equilibrado, misturando cenas de contemplação, reflexão e dor a cenas de ação, de revolta, de protesto. Ora temos planos gerais com bucólicas paisagens brancas das montanhas nevadas de Wyoming, ora temos cenas violentas de luta, em ambientes fechados, com uma câmera nervosa, trêmula, desesperada!

Baseado em fatos reais, o filme conta a saga da investigação do assassinato de Natalie (Kelsey Asbille), uma jovem índia de 18 anos, encontrada morta no meio de um deserto de neves, descalça, a seis milhas de distância de qualquer rastro de civilização. O corpo é encontrado pelo caçador de predadores Cory Lambert (Jeremy Renner), que vai solicitar ajuda do FBI para solicitar o caso. Quem aparece para ajuda-lo é a agente Jane Banner (Elizabeth Olsen), que chega em um carro alugado e sem nenhuma equipe de apoio.

Por meio da investigação desse homicídio, o filme de Sheridon vai nos revelando pouco a pouco uma sociedade doente, com leis que protegem empresários do petróleo e supostamente também os povos originários daquelas terras. No entanto, essas mesmas leis que os protegem são também as que jogam contra eles, já que essas reservas indígenas se tornam um território “protegido”, em que as leis dos Estados Unidos não se aplicam. Acabam virando uma terra de ninguém, sem leis, onde o que vale mesmo é a força, a bala ou a flecha. Regiões em que o desaparecimento de mulheres é fato comum e não registrado (contabilizado) pelos dados oficiais.

Terra Selvagem é assim um filme profundo, camuflado pela neve do thriller americano. Devia ter desconfiado que não se ganha um prêmio de melhor diretor em Cannes – Un Certain Regard – à toa! Sim, com esse filme Sheridan ganhou esse prêmio! E também devia ter confiado mais em um roteirista que já nos havia presenteado no ano passado com o ótimo Hell or High Water, pelo qual havia sido, inclusive, indicado ao Oscar. E antes ainda, com o roteiro do também excelente Sicario (2015).

Enfim, acho que depois de tanto tempo concentrada na minha pesquisa de doutorado, acabei perdendo a cancha de detectar sinais de um bom filme… Que venham outras surpresas por aí!

Um filme PRA PENSAR e PRA SE ANGUSTIAR.

 

 

BAFICI 2017 – Buenos Aires Festival Internacional de Cine Independiente

•July 1, 2017 • Leave a Comment

Buenos Aires, De 19 a 30 de abril 

Neste ano, o Brasil esteve presente no BAFICI com 10 filmes, de origens e gêneros bastante diversos. Documentários, filmes de arte, documentários com toques de ficção, ficções com toques de documentários, e até filme de terror falado em inglês. Obras realizadas por diretores de diferentes gerações, experientes ou principiantes, conhecidos ou nem tanto, oriundos de diferentes regiões geográficas do nosso imenso país. Dos 10, tive a oportunidade de assistir a seis. Aí vão algumas considerações.

 

A Cidade do Futuro (2016), de Cláudio Marques e Marília Hughes – Compentencia Oficial Latinoamericana – PREMIO DE MELHOR FILME LATINO-AMERICANO

Segundo longa metragem da dupla Cláudio Marques e Marília Hughes, o filme A Cidade do futuro é uma ficção com toques de documentário. Apesar do uso de vários artifícios do gênero documentário – imagens de arquivo e alguns depoimentos -, é a ficção que assume aqui o papel de protagonista ao colocar em primeiro plano a história de três jovens homossexuais habitantes de uma cidade do interior da Bahia. A ênfase é colocada nos sofrimentos vividos pelo trio em função de sua orientação sexual e da mentalidade pequena de sua população. A parte documental acaba ficando em segundo plano e, de certo modo, meio solta do restante da história. Uma pena porque a história de fundação daquela comunidade, fruto da desapropriação de terras para a construção da Usina Hidrelétrica de Sobradinho no interior da Estado, já seria por si só de extrema riqueza para a construção do filme. Com um bela fotografia, onde predominam as cores fortes, A Cidade do Futuro mostra a realidade de tantas cidades pequenas no interior do Brasil, com seu jeito simples de viver, com seus pequenos prazeres e sua mentalidade ainda tão tradicional (quadrada) e preconceituosa. A trilha sonora é bem trabalhada, com destaque para música Jeito Carinhoso, da dupla Jads & Jadson, que funciona como leitmotiv do filme. O grande senão do filme fica por conta da atuação de seus protagonistas, Mila Suzarte, Gilmar Araújo e Igor Santos. Atores estreantes – e isso se nota, sobretudo nas cenas iniciais do filme – que vão, pouco a pouco, ficando mais à vontade em cena e conseguindo nos envolver na história de seus personagens, com exceção de Igor, que até o fim, parece não encontrar sua zona de conforto! A ficção apresentada, no entanto, ignorou o desconforto de Igor e a fraqueza do aspecto documental da história e conquistou o júri portenho, tendo A Cidade do Futuro recebido o prêmio de MELHOR FILME LATINO AMERICANO na 19a edição do BAFICI.

 

A Destruição de Bernardet (2016), de Claudia Priscilla e Pedro Marques, na categoria Cinefilia

Documentário com toques de ficção sobre a vida de Jean-Claude Bernardet, francês (nascido na Bélgica por acaso) naturalizado brasileiro, crítico de cinema, e um dos nomes mais importantes da nossa história cinematográfica. Crítico fundamental na época de formação e consolidação do Cinema Novo – movimento cinematográfico mais importante da historia do cinema brasileiro – Bernardet é também roteirista, diretor, filósofo, professor de cinema e, mais recentemente, ator. O divertido e, ao mesmo tempo, profundo filme da dupla Claudia Priscilla e Pedro Marques apresenta, então, uma grande reflexão sobre os caminhos que levaram Bernardet a enveredar, já no crepúsculo da vida, para o mundo da atuação. Muitas vezes considerado “explorado” pelos jovens diretores que o elegem para atuar em suas obras, Bernardet desconstrói esse pensamento, colocando-nos diante de outra possibilidade: não seria ele – já quase sem visão e convivendo com a iminência da morte em função do HIV – que estaria explorando esses jovens, usando-os para poder continuar vivendo? Quem é quem nesse jogo de exploração? Em A Destruição de Bernardet, morte e vida andam lado a lado, são parceiras. Essa situação, no entanto, não assusta. A morte é tratada aqui com naturalidade, leveza e até com certo carinho. Temas como AIDS, suicídio assistido, passado-presente, erros, acertos, projetos, futuro (a curto prazo) são tratados neste filme-provocação, montado com esmero. A Destruição de Bernardet tem excelente ritmo, belas imagens, excelentes diálogos (conversas e reflexões) e acaba por nos fazer esquecer o tempo lá fora… Ao mesmo tempo, coloca-nos em profunda reflexão sobre os rumos que às vezes tomam as nossas vidas e as diversas possibilidades que temos para lidar com esses caminhos.

 

Arábia (2017), de Affonso Uchoa e João Dumans – Competencia Internacional – MENÇAO ESPECIAL DO JURI

Os mineiros Affonso Uchoa e João Dumans são hoje talvez os novos queridinhos do cinema independente contemporâneo, ou do também chamado cinema de periferia. Uma fama que parece já ter atravessado as fronteiras, visto que a sala de cinema da sessão de imprensa estava lotada. Já premiados no Festival de Tiradentes, o maior festival de cinema contemporâneo no Brasil hoje, os dois já haviam trabalhado juntos no bem sucedido A vizinhança do Tigre (2014) – Affonso Uchoa na direção e João Dumans no roteiro – e agora repetem a dose com o filme Arábia, único filme brasileiro selecionado para participar do Festival de Roterdã, na Holanda. Desta feita, os dois dividem a direção. O filme conta a história de um rapaz que mora com seu irmão mais novo no bairro proletário de Ouro Preto – a mãe nunca aparece – e que, num belo dia, descobre um caderno de anotações – espécie de diário – de um operário meio desconhecido de todos. O filme vai contar, assim, em flashback, o relato dessa road trip nada glamorosa de um brasileiro simples, que erra de trabalho em trabalho, tentando encontrar uma maneira decente de ganhar a vida, e de assim sobreviver. Ele sai de Contagem, bairro da periferia de Belo Horizonte onde mora Affonso Uchoa, e vai acabar parando em Ouro Preto, terra natal de João Dumans. Com um ritmo lento e uma bela fotografia, o filme trata de questões trabalhistas complicadas na realidade brasileira: empregos informais com baixos salários, falta de segurança e condições insalubres no local de trabalho, longas jornadas, exploração do trabalhador, etc. Tudo isso misturado às consequências desse nomadismo involuntário na vida pessoal do protagonista e também na dos vários personagens que ele vai encontrando pelo caminho. Situações que são, no entanto, mostradas de maneira delicada e contemplativa e que são vividas por milhares de brasileiros que, por falta de trabalho digno, veem-se obrigados a se lançar no mundo em busca de qualquer coisa que possa garantir seu sustento, mesmo que isso represente o afastamento da família, a solidão, o desamparo. O título do filme é inspirado no conto homônimo de James Joyce, que tem como fio condutor um menino de um bairro proletário de Dublin e sua fascinação diante de uma quermesse de nome Arábia. Um filme forte, político, mas ao mesmo tempo, sensível e poético, que nos leva a refletir sobre muitas questões a serem ainda resolvidas no nosso Brasil.

 

Beduíno (2016), de Júlio Bressane, categoria Trayectorias

Um filme original, complexo e hermético que requer do espectador um bom entendimento da obra de seu diretor, Julio Bressane, para ser bem entendido e apreciado. Ou como o próprio diretor diz, “para ser contemplado”! Quase uma peça de teatro, Beduíno se passa praticamente todo dentro do apartamento de seus protagonistas, os personagens-atores Fernando Eiras e Alessandra Negrini, palco em que várias cenas são encenadas. Todas elas pautadas por uma infinidade de referencias literárias que custaram muita pesquisa ao diretor e, consequentemente, muito tempo de trabalho. Foram 14 anos para concluir o filme! Não se trata de um filme narrativo, mas de um filme reflexivo, em que o casal de protagonistas discute a relação, seus sonhos, seus desejos, suas verdades e vão assim, aos poucos, passeando por obras de arte, de arquitetura e até mesmo pelas próprias obras de Bressane, como no caso de seu filme Memórias de um Estrangulador de Loiras, de 1971. Extremamente preocupado com a estética, Bressane se esmera nos planos e nos ângulos escolhidos, na luz e nas cores, apresentando ao espectador um filme poético, sensual, filosófico e que traz com orgulho a marca dessa figura de proa do nosso Cinema Marginal.

 

Lilith’s Awakening (2016), Monica Demes, Competencia Vanguardia y Género

Parece um pouco estranho falar de “filme brasileiro” quando tudo que se ouve na tela é inglês, saído da boca de atores americanos, atuando em um cenário que nada tem de Brasil. Um filme de terror e suspense, mais especificamente de vampiro, ou melhor de vampira! Sim, porque a questão de gênero é muito presente e forte no primeiro longa metragem de Monica Demes, cearense de 42 anos, mestranda em cinema na Maharishi University, em Iowa, nos Estados Unidos e que declarou em entrevista, que quando criança sonhava em ser vampiro. “Apadrinhada” por ninguém mais ninguém menos que David Lynch, diretor de cinema e do próprio curso, ela foi descoberta ao realizar o curta metragem de animação Halloween, quando estudava cinema na Espanha. Lilith’s Awakening, filmado em preto e branco – com apenas algumas cenas, ou detalhes de cenas, em cores – é rodado no estado de Iowa, num cenário bem típico de filmes de terror americano. Ele conta a historia de Lucy, uma jovem entediada com sua vida matrimonial e com o dia-a-dia nada exciting do vilarejo em que mora. Perdida em seus pesadelos (ou sonhos), a jovem busca um caminho alternativo para encontrar a paz e a felicidade. Uma busca que a levará ao encontro de Lilith, vampira misteriosa, que pode muito bem ser a sua própria essência. Com uma fotografia belíssima, bom ritmo e boa movimentação de câmera, o filme, apesar de não me parecer nada brasileiro – nem no tema nem na estética empregada – é bem produzido, bem montado e bem acabado. Falta-lhe, no entanto, toques de brasilidade, principalmente, por estar participando de um festival de cinema internacional, em que leva em punho a bandeira brasileira!

No intenso agora (2016), de João Moreira Salles, Competencia Oficial Internacional. Sessão com presença de João Moreira Salles.

Escrito e dirigido por João Moreira Salles, talvez tenha sido este o filme brasileiro mais esperado pelo público argentino neste ano. Até aí nenhuma surpresa, já que Moreira Salles goza de prestigio junto ao meio especializado argentino, e que, ainda por cima, faz dez anos que o diretor brasileiro não lança nenhum filme. Agregue-se a isso o fato de que No Intenso Agora, antes de chegar a Buenos Aires, já arrebatou alguns prêmios importantes em festivais de documentários espalhados pelo mundo, tais como três prêmios no Cinéma du Réel, na França, além de uma estreia muito bem recebida no ultimo Festival de Berlim. Narrado em primeira pessoa, o filme é montado em torno de um precioso conjunto de imagens da década de sessenta, incluindo registros da revolta estudantil francesa em maio de 1968, vídeos da chamada Primavera de Praga, feitos por amadores em agosto do mesmo ano, além de imagens dos horrores causados neste mesmo período em cidades como Paris, Praga, Lyon e Rio de Janeiro. Para completar esse conjunto de imagens históricas, Moreira Salles foi buscar nos filmes de família a sua maior fonte de inspiração e, talvez, seu maior trunfo! Trata-se de filmagens feitas pela própria mãe do diretor, em viagem à China em 1966, ano em que se implantou a Grande Revolução Cultural Proletária no país. Imagens feitas em VHS, a cores, e que trazem leveza e poesia às duras imagens em preto e branco dos eventos de 1968. Imagens também que ajudam o narrador-diretor a elaborar suas próprias reflexões acerca da intensidade com que se vive momentos de grandes tensões na história. Momentos em que se vive tão intensamente cada minuto que não se pensa necessariamente no amanhã, na ação que deverá ser tomada em seguida, depois de passada a “tempestade”, ou depois da “conquista”. Momentos intensos que depois viram história, tornando-se parte integrante da memória, e que muitas vezes parecem não ter dado em nada. Conclusão que o próprio filme desmente, já que todo ato terá algum desdobramento, mesmo que não aquele planejado no calor da hora! Um grande filme, repleto de nostalgia e poesia, sobre um momento “quente” da história mundial, em contraste com um momento de puro encantamento e de descoberta na história pessoal do diretor. Um filme que transita de maneira brilhante entre o pessoal e o mundial, entre o privado e o público, e que nos traz uma quantidade enorme de informações importantes para entendermos os rumos tomados pelos eventos dos sessenta e, sobretudo, para pensarmos os acontecimentos de agora.

 

Jornal de bordo – Update

•June 24, 2017 • Leave a Comment

Desde que me mudei para Buenos Aires há dois anos, perdi um pouco o controle sobre o meu tempo! Mudanças, em geral, são extremamente proveitosas para o crescimento pessoal (continuo acreditando nisso), mas, ao mesmo tempo, podem ser um tanto quanto complicadas com relação à parte prática da vida… No início, ainda tentei escrever algumas críticas, mesmo que não com tanta frequência, para tentar manter o blog minimamente atualizado, mas pouco a pouco a vida “real”, agravada pela chegada da fase final do doutorado, foi me atropelando e assumindo uma proporção maior do que eu esperava!

Resumo da ópera: já estou há quase dois anos sem escrever aqui… e ainda nem terminei o doutorado! Isso me entristece um bocado, já que é aqui que posso escrever de forma livre, sem os enquadramentos acadêmicos e, sobretudo, na minha própria língua (amo nosso português!!!!). Um espaço em que posso simplesmente compartilhar minhas ideias sobre filmes que vejo, sem nenhuma censura! Pode ser um clássico, um blockbuster, um documentário, um filme de arte… qualquer coisa! Ah, pode ser também sobre uma viagem relacionada à sétima arte, ou algum livro interessante, algum evento, seminário, etc. Ou seja, qualquer coisa mesmo! Um espaço para falar de cinema e ponto final. Ou melhor, e reticências…

Enfim, o que queria hoje era apenas retomar este canal, mesmo que “precariamente”. Sim, porque ainda não dá pra ser como antes, já que agora iniciei a escritura da tese… e estou bem enlouquecida!!!!! Mas, justamente por isso, para o bem da minha sanidade mental é que gostaria de retomar esta escrita livre, este bate-papo com desconhecidos e conhecidos sobre essa arte que tanto me atrai!

Isso dito para justificar posts vindouros com temas antigos, eventos, lugares e textos que talvez pareçam (e sejam) meio desatualizados. Só queria poder voltar a compartilhar com vocês meu olhar… Bons filmes!

•July 25, 2016 • Leave a Comment

Depois de tantos meses sem escrever – estive envolvida em um curso de documentários, junto com a pesquisa para minha própria tese que precisa sair em algum momento… – volto hoje à ativa. Mais uma vez, não posso prometer assiduidade. Até acabar este doutorado vai ser assim… Mas, prometo que de vez em quando darei as caras,  sempre que achar que um filme vale a pena ser visto!

Por isso compartilho aqui, hoje, minhas ideias sobre algo que assisti recentemente e que achei muito bom. Trata-se do italiano Perfetti sconosciuti (2016) ou Perfeitos desconhecidos (imagino que chegue no Brasil com este título), de Paolo Genovese.

 

Perfeitos desconhecidos (2016)

Una foto di scena di 'Perfetti sconosciuti', Roma, 9 gennaio 2016. ANSA/UFFICIO STAMPA ++ NO SALES, EDITORIAL USE ONLY ++

Título original: Perfetti Sconosciuti

Origem: Itália

Direção: Paolo Genovese

Roteiro: Filippo Bologna, Paolo Costella, Paolo Genovese

Com: Giuseppe Batiston, Alba Rohrwacher, Edoardo Leo, Marco Giallini, Anna Foglietta, Valerio Mastrandea, Kasia Smutniak.

Se você gostou dos filmes Deus da carnificina (2011) e/ou Qual é o nome do bebê? (2012), é bem provável que goste deste também. O formato é bem parecido. Gravado quase todo em um mesmo ambiente – apartamento de classe média alta -, um grupo de amigos se encontra para jantar, compartilhar as novidades da vida e apreciar um eclipse total da lua. São três casais e um divorciado que, em teoria, iria apresentar sua nova namorada. No entanto, ele chega sozinho, deixando o grupo uma vez mais frustrado com o mistério que envolve sua nova amada.

Em torno da mesa – de um bom vinho e dos muitos piatti que compõem uma refeição italiana – os amigos falam de amenidades até que Eva (Kasia Smutniak) – psicoterapeuta casada com um cirurgião plástico, mãe de uma adolescente com quem vive em crise – propõe uma espécie de jogo da verdade. Cada um dos amigos tem que colocar o celular em cima da mesa e, a partir daquele momento, está obrigado a compartilhar qualquer mensagem recebida, lendo-a em voz alta. Ou, no caso de chamadas, terá que atende-la em viva-voz.

Está dada, assim, a largada para um emaranhado de mal entendidos e de segredos revelados. Um jogo perigoso que pode estremecer todo e qualquer tipo de relacionamento. Até que ponto vale a pena conhecer todos os segredos de uma pessoa?

À medida em que a lua vai sendo encoberta pela sombra da terra, o ambiente do jantar vai se tornando cada vez mais tenso, mais carregado, mais sombrio. Cada bip de entrada de mensagem faz estremecer cada um dos personagens. E a nós também, espectadores, que embarcamos com tudo na tensão daquela brincadeira. O mundo exterior invade, assim, aquele ambiente huis-clos, projetando sua sombra na aparente felicidade e harmonia daquele grupo de amigos que se conhece há tão longa data. Mas será que se conhece mesmo?

Com diálogos muito bem elaborados, o filme tem ritmo excelente e muito bom roteiro, revezando momentos de descontração, regados de brincadeiras típicas dos que convivem há muitos anos, e momentos de decepção, tristeza ou raiva diante de descobertas avassaladoras.

Perfeitos desconhecidos é um filme super atual que põe em cheque a fragilidade dos relacionamentos nesta era digital em que vivemos. O que é real e o que é virtual, invenção ou mera aparência? Que verdades escondem um perfil no Facebook ou no Instagram? Quem são de fato nossos amigos? Como vivem de verdade? O que sentem? Como estão hoje? Os conhecemos pra valer ou apenas sabemos aquilo que escolhem publicar na grande rede?

Ao mesmo tempo, o filme de Genovese levanta a questão sobre o paradoxo da liberdade/prisão que tecnologia trouxe para nossas vidas, conectadas o tempo todo com todo o mundo. Uma ponte capaz de unir os que estão distantes, de fornecer informações instantaneamente aos quatro cantos do mundo, mas que, por isso mesmo, representa uma invasão total de privacidade, não deixando muito espaço para segredos. E que atire a primeira pedra quem não os tem…

Um filme PRA PENSAR.

 

 

100 Años de Perdón (2016)

•March 6, 2016 • 1 Comment

Título original: Cien Años de Perdón

Origem: Argentina / Espanha / França

Direção: Daniel Calparsoro

Roteiro: Jorge Guerricaechevarría

Com: Joaquin Furriel, Luis Tosar, Rodrigo de la Serna, Raúl Arévalo, José Coronado, Luciano Cáceres, Patricia Vico, Marian Alvarez

Deixando o Oscar de lado e retomando nossas críticas sobre filmes de origens e cores diversas, hoje vou comentar um filme que acaba de estrear nos cinemas argentinos. Trata-se de uma coprodução Argentina-Espanha-França, falada em espanhol, mesclando grandes atores argentinos e espanhóis. cien anos de perdon

A parceria entre produtoras europeias e argentinas deu ao filme latino uma aura de blockbuster americano, sem perder, no entanto, o charme das regiões mais cálidas do globo. Um filme de ação bem montado, bem filmado, com belíssimos movimentos de câmera, boa fotografia, boa trilha, excelente ritmo e cheio de humor. Um filme divertido que faz o tempo voar, sem no entanto, deixar de colocar-nos diante de questões bastante sérias de nossas sociedades atuais. Questões que não dizem respeito apenas à Espanha, onde a história se passa, à Argentina, de onde vem parte do elenco, ou à França, coprodutora, mas questões, infelizmente, universais. Questões, aliás, extremamente atuais em nosso Brasil de hoje (ou talvez de sempre): os desdobramentos da corrupção nas várias esferas da sociedade. Casos cabeludos que envolvem políticos, empresários (bancos), justiça (polícia), cidadãos comuns, etc.

100 Años de Perdón conta a história de um grupo de seis assaltantes que um belo dia, não definido no calendário, resolvem assaltar o Banco Mediterráneo em Valencia, Espanha. A ideia seria esvaziar todos os cofres (de clientes) da caixa-forte e fugir por um túnel (previamente cavado) que os levaria até uma estação abandonada de metrô. Tudo de certa forma bem planejado, mas que não contava com um pequeno problema meteorológico… Justo naquele dia, uma chuva forte insistia em cair sobre Valencia, inundando o túnel por onde os assaltantes fugiriam.

O plano vai, então, literalmente por água a baixo, deixando os seis homens reféns de si mesmos, presos dentro do Banco junto com clientes e funcionários apavorados, sem saber como sair daquela enrascada. O clima esquenta entre os membros da quadrilha que começam a discutir e brigar entre si, revelando segredos sobre o assalto. Sem deixar que os de fora descubram as falhas do plano, começam então as negociações com a polícia. E é aí que, nós, espectadores seremos apresentados ao real objetivo do assalto e a quem está de fato por trás de toda esta ação.

Sem seguir muito mais adiante no meu relato sobre o filme (melhor que vocês vejam com seus próprios olhos!), posso dizer que o que veremos não é muito diferente do que já podemos imaginar em função de nossas próprias experiências de vida, sem falar nos tantos filmes que retratam (bem ou mal) essas infindáveis malhas de corrupção que insistem em aproximar nossas culturas. Infelizmente!

100 Años de Perdón é uma ficção que pode ser a história de qualquer país deste globo terrestre e que joga em nossas caras o que já sabemos de cor e salteado: instituições corrompidas pela ânsia de poder e fortuna, abençoadas por uma justiça que não pune, não vão nunca alavancar o florescimento de nações justas e equilibradas. Sociedades que não investirem pesadamente em educação como sua melhor arma para dizimar esse comportamento indecente e, hoje, tão naturalmente aceito, não poderão nunca formar sociedades justas e fornecedoras de oportunidades para todos.

Não, “não podemos fazer concessões à ética”, utilizando aqui uma frase que meu pai gosta tanto de repetir. Temos, ao contrário, que lutar para mudar de uma vez por todas o ditado que dá título a este filme… Ladrão que rouba ladrão NÃO deveria ter 100 anos de perdão. Todos que cometem crimes devem ser punidos e sofrer as consequências de seus atos!

PRA PENSAR e PRA SE DIVERTIR.

 

Sobre ontem à noite…

•February 29, 2016 • Leave a Comment

Infelizmente não consegui completar a tempo a série “Rumo ao Oscar”. No entanto, gostaria de compartilhar com vocês um pouco do Meu Olhar sobre a edição 2016 da premiação da Academia Americana de Artes e Ciências Cinematográficas.

oscar 2016

A cerimônia de entrega do Oscar 2016 foi eminentemente política, marcada por protestos de todos os tipos… Alguns bem colocados, outros muito exagerados, alguns emocionantes, alguns desconcertantes, mas todos, sem dúvida, protestos legítimos e válidos. Vozes que se elevaram contra o preconceito racial e de gênero, vozes pela preservação do meio ambiente e respeito às comunidades indígenas, vozes contra a violência sexual e tantos outros absurdos de nossa sociedade contemporânea. Talvez esta edição tenha sido um turning point para um evento que costuma brindar o brilho, o luxo, a vaidade, as amenidades, a descontração, o divertimento e, claro, o talento.

Não sou contra nem uma modalidade, nem outra. As duas têm seu lugar e seu valor. O cinema tanto é diversão quanto informação. Tanto pode fazer nossa mente voar, aliviando-nos da tensão do dia-a-dia, como pode fazer-nos mergulhar em reflexão profunda sobre temas importantes da atualidade ou de nossa existência. Tanto pode cegar, alienar, como também pode nos ajudar a enxergar mais longe.

Bem coerente, portanto, o prêmio de Melhor Filme ter sido atribuído neste ano à Spotlight: Segredos Revelados.

Como escrevi em minha última crítica, não era o meu candidato favorito. Em termos cinematográficos – avaliando técnica + arte – não acho que tenha sido o melhor. Não à toa não ter levado as estatuetas de Melhor Diretor, Melhor Montagem, Melhores Atores Coadjuvantes e nem ter sido mesmo indicado em algumas categorias importantes como a de Melhor Fotografia. No entanto, o prêmio de Melhor Roteiro Original corrobora o tom adotado pela cerimônia de 2016, cujos holofotes estavam virados mais para o “tema” do que exatamente para a técnica empregada. Um reconhecimento a uma obra que vai muito além da arte e da ciência. Um filme que tem uma função social extremamente valiosa. Um papel importante e ousado que merece por si só um troféu, uma recompensa por ter tido a coragem de tocar em uma grande e antiga ferida de nossa sociedade, incentivando, assim, a investigação jornalística séria e comprometida.

A premiação de Melhor Direção para Iñarritú foi, na minha opinião, muitíssimo acertada, assim como foi a de seu compatriota Emmanuel Lubezki para Melhor Fotografia (seu terceiro Oscar seguido). A dupla deu show, realizando um filme grandioso, utilizando com maestria as ferramentas clássicas da sétima arte. Da mesma maneira, encheram-me de alegria os prêmios para Leonardo DiCaprio, Brie Larson, Mark Rylance, Alicia Vikander, Divertida Mente (Animação) e, sobretudo, para Ennio Morricone. Inacreditável o velho e grande Morricone (87 anos) só agora ter recebido sua primeira estatueta! Mas, como disse no começo deste texto, talvez tenha sido este um Oscar-turning-point! A confirmar em 2017.

 
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