Identidade (2021)

Título original: Passing

Origem: EUA

Diretora: Rebecca Hall

Roteiro: Rebecca Hall, Nella Larsen (livro)

Elenco: Tessa Thompson, Ruth Negga, André Holland, Ashley Ware Jenkins, Bill Camp, Alexander Skarsgård

Para celebrar o Dia da Consciência Negra, convidamos Liliane Lopes, uma cinéfila de primeira grandeza, cineasta autodidata e mãe-ativista, membro do grupo EP de Diversidade Racial. A proposta foi assistir ao filme “Identidade” (2021), recém lançado no catálogo da Netflix, e depois trocarmos algumas ideias acerca das questões ali tratadas.

“Identidade”, dirigido pela atriz e diretora debutante branca Rebecca Hall é a adaptação do livro homônimo de Nella Larsen, publicado em 1929, uma escritora mestiça, filha de pai negro e mãe branca, e conta a história de duas amigas negras que se reencontram depois de anos sem se verem. Acontece que no momento do reencontro, Irene (Tessa Thompson) e Clare (Ruth Negga) estão se passando por brancas – “passing”, como chamavam essa prática nos EUA – uma maneira de serem aceitas naqueles racistas anos 20. A partir daí a bolha de suas vidas “perfeitas” vai ser furada e as duas vão ver suas vidas estremecidas, suas crenças abaladas e suas felicidades fragilizadas.

Liliane Lopes

Aqui vão algumas das ideias trocadas com Liliane:

  1. Com relação à estética, você acha que o PB foi uma escolha acertada? E o que dizer do forte contraste? Você acha que isso permitiu trabalhar melhor as diferenças de tons de pele?

O uso do PB como recurso narrativo é um dos grandes trunfos do filme. Além de nos lembrar que a existência e as relações podem ser definidas pela cor da pele, permitiu, ainda, a utilização de um jogo de luz e contrastes, que modificavam a tonalidade de pele dos personagens em sincronia com as situações vivenciadas na trama.

A utilização da tela na proporção 4:3 e os enquadramentos das cenas também foram escolhas acertadas, pois nos colocam dentro da cena e potencializam as emoções dos personagens.

2. O “passing” era uma prática comum nos EUA dos anos 20? Isso existiu em algum momento no Brasil?

É importante contextualizar o filme com o momento histórico. Em uma época com leis segregacionistas em vigor e que o linchamento de pessoas negras não era incomum, o “passing” podia significar uma estratégia de sobrevivência e acesso a locais vedados a pessoas negras. Tanto que no início do filme, a personagem Irene se passa por uma mulher branca em busca de um livro, que se encontrava esgotado para o filho, escondendo-se por trás do chapéu e das luvas, para frequentar aqueles locais com maioria branca. A cor da pele se mostra como fator de validação para receber melhor tratamento e ter segurança.

Nos EUA a pessoa é considerada negra se tiver antepassados negros, independente do fenótipo. É a chamada regra de uma gota de sangue (one drop rule), se o indivíduo tiver uma gota de sangue negro, ele é negro. Não faz diferença ter a aparência de uma pessoa branca.

No Brasil se debate o colorismo, que pode ser definido como tratamento diferente que se dá a pessoas negras com a pele clara. Quanto mais escura a pele, maior a discriminação racial. O indivíduo negro que apresenta o fenótipo branco estaria menos sujeito racismo e, por vezes, não se identifica como negro.

3. Como você enxerga as duas maneiras distintas que as protagonistas – Irene e Claire – escolheram para “sobreviver” às discriminações naqueles EUA de 1920?

Irene e Claire são duas mulheres negras de pele clara, que podiam se passar por brancas, entretanto optaram por estratégias diversas de sobrevivência. 

Irene escolheu casar-se com um médico negro, que não poderia passar por branco e abraçou sua negritude. Ostentava certo status social na comunidade negra, em pleno Harlem Renaissance, além de integrar a classe média com poderio econômico. Nota-se, entretanto, que buscava resguardar os filhos do racismo, ao queixar-se do marido que contou sobre o linchamento de homem negro ao filho mais velho, bem como quando escondia deliberadamente sua negritude em ambientes majoritariamente brancos.

Já a Claire optou por fingir ser uma mulher branca e por um casamento sem amor com um homem branco racista e rico, com quem teve uma filha pela qual agradece poder passar por branca. Entretanto, por intermédio de Irene, ela se reconecta com a comunidade negra e passa a reavaliar sua escolha.

Ambas as personagens me remetem ao sofrimento psíquico causado pelo racismo e as ferramentas individuais que cada um desenvolve para seu enfrentamento. É uma luta interna de construção de identidade. Cada um tem a sua própria batalha.

4. O marido de Irene quer mudar para outro país, talvez o Brasil, imaginando que as coisas seriam mais fáceis para os negros naqueles anos 20. O que você acha?

Nos anos 20 predominavam as ideias do Movimento Eugenista no Brasil, que baseado em racismo pseudocientífico e incensado pela elite política, pregava o branqueamento da população brasileira como política de estado. Defendia-se a morte da população negra abertamente e a miscigenação, como forma de alcançar o almejado branqueamento. A Constituição de 1934 estabelecia como dever do Estado estimular a educação eugênica. Nas faculdades de Medicina e Psiquiatria se criou o estereótipo do negro delinquente, preguiçoso e desprovido de inteligência, que predomina até hoje na mentalidade brasileira. Deu-se até mesmo a proibição de imigração de povos não europeus. 

Em tese, portanto, seria possível que a entrada de Irene e da família sequer fosse admitida no Brasil.

Chama atenção, ainda, a diferente realidade entre os países. Enquanto nos EUA existia classe média negra, no Brasil os negros recém-saídos da escravidão encontravam-se na miséria e alvo de uma política de extermínio.

5. E como você vê a relação com a empregada doméstica?

Me pareceu a reprodução do sistema de opressão do qual as próprias personagens buscavam se esquivar. Note que a empregada tinha pele mais escura e a ela era dispensado tratamento objetificado e menos respeitoso. 

Como por exemplo, na cena em que Irene deixa cair um vaso pela janela e diz que não precisa limpar, pois a empregada o fará, fica evidente a reprodução desse sistema.

Há ainda muito a ser dito sobre esse lindo filme que marca a estreia de Rebecca Hall na direção de longas-metragens, mas vai ter que ficar para outra oportunidade. Recomendamos fortemente que assistam a “Identidade” e reflitam sobre a evolução (ou involução) do respeito à diversidade racial no mundo.

Liliane, muitíssimo obrigada pela conversa, pelas trocas de ideias e por todo o ensinamento que você nos proporcionou aqui! Show demais!

Um filme lindo PRA PENSAR e PRA APRENDER. Super recomendamos!!!!! Disponível na Netflix.

~ by Lilia Lustosa on novembro 20, 2021.

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