Tabu (2012)

Veja o trailer aqui!

Título original: Tabu  ozartsetc_tabu_miguel-gomes_001-e1333390678478

Origem: Portugal

Diretor: Miguel Gomes

Roteiro: Miguel Gomes, Mariana Ricardo

Com: Teresa Madruga, Laura Soveral, Ana Moreira, Isabel Muñoz Cardoso, Henrique Espírito Santo, Carlotto Cota

Um filme diferente, que surpreende positivamente!

O prólogo do filme, assim como sua primeira parte podem assustar um pouco a audiência mais convencional, mais adepta ao cinema clássico hollywoodiano.

No entanto, minha sugestão é que persistam, pois vale a pena. O filme é bem interessante, inovador e belo.

Dividido em três partes quase autônomas, mas que se complementam, o filme do diretor português Miguel Gomes vem fazendo sucesso mundo a fora. Já arrebatando vários prêmios importantes.

Tudo começa por um prólogo que narra uma espécie de lenda africana. O jogo de cena dos atores aqui é bem rígido, artificial, duro. E como toda boa lenda, é surreal. Nota-se logo que não se trata de um filme comum. Algumas cenas têm um quê de Jean Rouch, cineasta francês dos anos 50 que ficou conhecido por seus filmes antropológicos, rodados em tribos africanas. Ou ainda pelo que veio a se chamar de cinéma-vérité.

A primeira parte, chamada Paraíso Perdido, se passa na Lisboa de hoje e conta a história de Pilar (Teresa Madruga), uma ativista cinquentona, solteira, católica, que dedica sua vida às causas humanitárias, ajudando também os bem próximos, como sua vizinha D. Aurora (Laura Soveral). Uma senhora outrora “de posses”, já de idade, que mora em companhia de uma criada cabo-verdiana, a Santa (Isabel Muñoz Cardoso).

D. Aurora tem uma filha que mora no Canadá, mas que nunca aparece. A solitária senhora gasta o que resta de seu dinheiro no jogo. E parece já nem se dar mais conta da situação em que vive. Ela implica com Santa, dizendo à sua vizinha Pilar, que a africana faz feitiços contra ela.

Percebe-se bem nas figuras de D. Aurora e de Santa o contraste entre dois mundos, Europa e Africa, entre duas culturas, a branca e a negra, entre as duas religiões, católica e africana (insinua-se aqui práticas de “feitiçarias”), entre as duas classes sociais, entre colonizador e colonizado.

O clima que reina, porém, nessa primeira parte do filme é de nostalgia, solidão, melancolia. Falta vida, alegria, movimento. O ritmo da narração é bem lento e algumas falas também. As coisas vão acontecendo mas parece que não saímos do lugar. Algumas cenas parecem até meio sem sentido ali dentro daquela história, como a da menina polonesa que deveria ficar na casa de Pilar.

Mas eis que Aurora fica doente e pede para Santa chamar um certo Gian Luca Ventura (Henrique Espírito Santo). Pilar segue, então, em busca do misterioso homem e o traz para ver Aurora.

E é aí que vamos passar para a segunda parte do filme, quando, sentados em meio a uma floresta artificial de um shopping em Lisboa, esse Indiana Jones português vai nos contar uma história secreta do passado de D. Aurora, vivida em solo africano.

A segunda parte – um imenso flashback – se chama Paraíso. E a partir daqui o filme ganha novo ritmo, novos sons e a mesma cor (ainda o preto e branco).

O mais interessante desta segunda parte (ou terceira, se considerarmos o prólogo) é que não há diálogos. Na verdade, há sim, mas simplesmente não os ouvimos. Os atores mexem os lábios, mas não ouvimos o som de suas falas. Só ouvimos os ruídos das cenas e a narração na voz do velho Ventura que, puxando por sua memória, leva-nos de volta ao passado para vivermos junto com eles uma história de uma paixão proibida avassaladora.

A escolha de Miguel Torres, certamente, causa estranhamento no início, mas logo ganha ares de encantamento, já que parece tão apropriada a esta parte do filme, quando as súplicas de uma paixão verdadeira têm de ser caladas pela razão que norteia a realidade.

O fato de o filme ter sido todo rodado em preto e branco também contribui para acentuar o efeito de lembrança, de filme antigo, remetendo aos tempos do cinema mudo. Os planos são bonitos e bem contrastados, tendo o filme uma bela fotografia, sobretudo nesta segunda parte.

Tabu homenageia explicitamente o grande cineasta alemão Murnau, ele também autor de um Tabu (1931), filme igualmente dividido em duas partes, chamadas não por acaso de Paraíso e Paraíso Perdido, uma história de amor impossível entre nativos de Bora-Bora. Miguel Torres inverteu a ordem das partes e ainda pegou emprestado de outro filme de Murnau, Aurora (1927), o nome de sua protagonista. Uma bela homenagem à história do cinema!


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