A 100 Passos de um Sonho (2014)

Título original: The Hundred-Foot Journey

Origem: Índia / EUA / Emirados Árabes

Direção: Lasse Hallström

Roteiro: Steven Knight, Richard C. Morais

Com: Helen Mirren, Om Puri, Manish Dayal, Charlotte Le Bon

Esqueçamos os filmes-cabeças, com todos os seus intelectualismos ou suas inovações cinematográficas (quer de roteiro, de técnica ou de forma narrativa), filmes que têm por objetivo sacodirem os espectadores de suas inércias mentais, fazendo-nos enxergar a realidade… Nada disso!

A 100 Passos de um Sonho é filme-passatempo, leve, divertido, “fofo”, uma espécie de conto de fadas multicultural, ou simplesmente, um feel-good movie como gostam de dizer os americanos.

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Coproduzido por ninguém mais, ninguém menos que Steven Spielberg e Oprah Winfrey, o filme é muito gostoso de se ver, apesar de sua história repleta de clichês, déjà-vus e desdobramentos pra lá de previsíveis. Sem falar que, como boa clássica produção hollywoodiana que é, o filme é cheio de improbabilidades, de acontecimentos inverossímeis e de absurdos que forçam um pouco a barra. Tudo para contar uma bela história.

O enredo é, na verdade, bem simples: uma família de indianos – os Kadam -, donos de restaurante, após terem perdido tudo em um incêndio criminoso em Mumbai, resolvem imigrar para a Inglaterra. Porém, ao chegarem lá, descobrem que falta sabor aos alimentos da ilha e resolvem, então, partir para o continente em busca do sabor verdadeiro. Dentro de uma van caindo aos pedaços (clichê), dirigem meio sem rumo pelas estradas europeias até que, “por obra do destino”, perdem os freios e acabam tendo que pernoitar em uma cidadezinha do sul da França, local em que redescobrem o sabor dos alimentos. Bingo!

Papa Kadam (Om Puri) resolve então que é ali, na terra de uma das gastronomias mais sofisticadas do planeta, com todos os seus Condon Bleu, estrelas Michelin e Ratatouille, que vão fixar residência e abrir seu restaurante. Compram e reformam em poucos dias (really?) um restaurante abandonado e montam ali seu colorido e barulhento Maison Mumbai. O único problema é a localização do imóvel: exatamente na frente do melhor restaurante do vilarejo, estabelecimento já consagrado com uma estrela Michelin e comandado pela terrível viúva Madame Mallory (Helen Mirren). O grande trunfo de Papa Kadam para enfrentar a atroz concorrência é seu filho Hassan (Manish Dayal), que herdou os dons culinários da mãe, morta no incêndio em Mumbai.

A partir daí fica fácil imaginar o resto. Guerra gastronômica, guerra cultural e guerra étnica, tudo isso, claro, com boas pitadas de romance. Por falar nessa guerra, é ela a responsável por uma das sequências mais interessantes do filme, composta por planos bem curtos, cortes secos, em montagem paralela, mostrando os dois campos de batalha: o restaurante francês de um lado e o indiano do outro. Os planos são acompanhados pelas respectivas músicas de cada país e ritmados pelos cortes dos alimentos. Ou seja, é o barulho das facas cortando legumes e carnes, em uma velocidade alucinante, que dá o ritmo desta batalha. Bem interessante!

Há também um plano-sequência com um belo movimento de câmera, em que ela segue os personagens, ziguezagueando pelo bucólico cenário do interior da França, (acho que) na hora da reforma do restaurante indiano. Aliás, apesar de toda a “fraqueza” do cenário, há que se dizer aqui que a fotografia do filme é muito bonita, predominando os tons alaranjados, presentes tanto nos temperos indianos como nos lindíssimos entardeceres franceses.

Sem querer diminuir a Pixar – eu adoro os filmes da Pixar! – e sem querer tampouco desprezar a produção do mestre Spielberg, tenho a impressão de que este roteiro caberia perfeitamente em um filme de animação do estúdio californiano, hoje, parte do grupo Disney. Inclusive há várias cenas no filme de Lasse Hallström que, ao meu ver, fazem alusões ao fofíssimo Ratatouille (2007), tais como a sequência do omelete, primeiro na hora de sua preparação, com Hassan comandando a receita, mas sem poder usar suas próprias mãos para faze-la, depois na hora da degustação em que a câmera se aproxima de Madame Mallory; ou então a do chef Hassan em Paris, observando a cidade-luz do topo do prédio, assim como fazia o ratinho chef Remy, cheio de nostalgia, com saudades de sua família, de seu mundo e de suas raízes. Sem falar numa questão fundamental em ambos os filmes, que é a do poder que tem a comida de transportar-nos de volta para casa. Há, inclusive, uma fala já no fim do filme que diz: “Every byte takes you home!” E não foi isso que aconteceu com o crítico-vilão em Ratatouille, por sua vez, uma linda homenagem às famosas madeleines de Proust?

A 100 Passos de um Sonho talvez seja um filme “artisticamente” fraquinho, mas absolutamente delicioso de se ver! Pena que o cinema ainda não adicionou o cheiro às suas infinitas dimensões…

PRA SE DISTRAIR.

 

~ by Lilia Lustosa on October 3, 2014.

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