Coringa (2019)

Título original: Joker

País de origem: EUA

Diretor: Todd Phillips

Roteiro: Todd Phillips e Scott Silver

Elenco: Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Zazie Beets, Frances Conroy, Brett Cullen

Logo que ouvi falar que ia sair o filme do Coringa, pensei: mais um blockbuster de heróis… nesse caso, de um anti-herói. Super produção, muitos efeitos especiais, muito barulho, cortes rápidos, muita ação, pouco tempo para se analisar qualquer coisa, puro cinema de entretenimento. E logo pensei que isso deveria ser uma reação da DC Films, que nos últimos anos anda perdendo terreno feio para a Marvel Studios, com seus Avengers e Panteras Negras da vida. Diga-se de passagem, adorei Pantera Negra!

Enfim, confesso que não fiquei muito animada e pensei em esperar o filme chegar na Netflix para assistir. Até que comecei a ler sobre a repercussão que o filme estava tendo nos Estados Unidos, chegando mesmo a ser entendido por algumas plateias como uma mensagem subliminar contra o governo Trump. Soube até da circulação de um texto do Michael Moore, por meio de uma amiga que mora em Washington (Obrigada, Fê!), defendendo o filme e ressaltando o valor de sua mensagem nos tempos atuais, época sombria, em que muitos medos povoam nossos pensamentos.

Me rendi então à famosa “peer pressure”, e fui, no fim de semana passado, assistir ao Coringa, mesmo sabendo que estava em pleno período de “invasão blockbuster”. Ou seja, um único filme hollywoodiano ocupando praticamente todas as salas de cinema da cidade, deixando só os piores horários para produções locais ou mesmo de outros países. Mas minha curiosidade foi mais forte que minha bronca… me rendi e vou dizer: valeu cada segundo!

O filme de Todd Phillips é um filmaço, daqueles que você sai e fica por horas discutindo, pensando, refletindo. Um filme, sem dúvida, duro de ver, não pelo excesso de violência física – confesso que achava que ia ser pior! -, mas pelo excesso de realidade impresso naquela tela gigante do cinema. Excesso de verdade sendo atirada bem na nossa cara.  Excesso quase insuportável quando entendemos que nós, que estamos ali sentados confortavelmente naquela sala de cinema, somos a elite ali representada. Aquela elite que ataca, que chuta, que discrimina e que, acima de tudo, parece ignorar o que está acontecendo na nossa sociedade. Elite que desvia o olhar ao passar ao lado de um mendigo dormindo na rua, que fecha rapidamente o vidro do carro quando sabe que vem aquele velhinho ou aquele deficiente físico pedir dinheiro outra vez… Mea culpa.

Obviamente, Coringa é uma grande alegoria de nossa sociedade, e, por isso mesmo, se permite trabalhar com excessos e com muitas metáforas. E isso assusta! Mas são justamente essas extrapolações ou caricaturas de nós mesmos que nos fazem entender aquela tela como um espelho do que estamos nos tornando ou, quem sabe até, do que já somos.

Ao acompanharmos o passo a passo da construção do “monstro” em que vai se convertendo Arthur Fleck (magistralmente interpretado por Joaquin Phoenix), enxergamos muitos casos de conhecidos nossos, quer seja na pele do próprio Arthur, quer seja na pele dos que estão em seu entorno, ajudando a construir a “criatura-Coringa”. Enxergamos, no início, um ser humano que tem um sonho: vencer na vida como comediante. Uma pessoa que, apesar das adversidades sociais (pobreza) e de problemas psicológicos (sofre de uma doença mental em que não consegue controlar o riso), tenta alcançar esse sonho por meios lícitos. Vemos, assim, ao longo do filme, vários momentos em que aflora a bondade naquele homem (como o cuidado que tem com a mãe velha e doente), ou ainda de ingenuidade, misturados a rasgos de delírio, transmitidos por aquele corpo frágil que não se faz compreender nem mesmo pela assistente social que deveria ajudá-lo. No entanto, o descaso e a ignorância dos que detêm o poder (políticos, empresários, imprensa, artistas, assistentes sociais, “meninos de Wall Street”, etc.) vão minando a conta-gotas os bons sentimentos que existem naquele corpo solitário e sofrido.

Não à toa, o Coringa de Todd Phillips é cheio de referências implícitas e explícitas ao grande Charles Chaplin, que sabia tão bem dosar o riso e a dor. Quem melhor, na história do cinema, soube (e teve coragem de) levar às telas comédias de aparência ingênua e que eram, na verdade, grandes críticas à sociedade de então?

Não, definitivamente  Coringa não é uma apologia à violência, como muitos clamam por aí. Muito ao contrário. O triunfo do Coringa, aplaudido em seu ato final, não é consequência dos assassinatos que cometeu, muito menos reflexo do monstro em que se transformou. Sua grande vitória, e por isso as palmas, é ter-se feito ouvir e, assim, ter liberado o grito de milhões de “palhaços” que vivem na penumbra, escondidos atrás de máscaras que lhes roubam a identidade. É ter dado voz aos “invisíveis”. É ter despertado uma camada da sociedade que vinha aguentando as pequenas violências do dia-a-dia sem nada fazer, sem protestar.

O filme de Todd Phillips me fez pensar em O Grito, de Munch. Acho que é isso: Coringa é, para mim, a liberação daquele grito sufocado, que tenta escapar de dentro de um ser deformado pela sociedade, de uma figura contorcida de dor e de sofrimento. É a materialização daquele grito, do pedido de socorro de uma gente tão necessitada!

Não fiquem com medo da violência do filme. Vejam Coringa. Vale muito a pena!

PRA PENSAR.

~ by Lilia Lustosa on outubro 17, 2019.

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