Refugiado (2014)

Título original: Refugiado

Origem: Argentina

Direção: Diego Lerman

Roteiro: Diego Lerman, María Meira

Com: Julieta Díaz, Sebastián Molinaro, Marta Lubos, Silvia Baylé, Sofía Palomino, Sandra Villani, Paula Ituriza, Carlos Weber

O texto de hoje não é apenas sobre um filme, mas sobre uma experiência fílmica e de vida que me marcou imensamente nessa semana que passou.

refugiado

A convite do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), tive o privilégio de assistir à projeção do filme Refugiado em um centro cultural de uma “villa” (favela) de Buenos Aires. A ideia era projetar um filme que tratasse do tema violência doméstica para um público que sofre na pele (e nos nervos) os males de uma relação desigual, injusta, indigna. A projeção seria, então, seguida de uma “charla” – conversa informal sobre o tema.

A ficção

A história que nos conta Refugiado é uma ficção, não está baseada na vida de ninguém especificamente e, ao mesmo tempo, relata o desespero, o medo e a dor de tantas mulheres em todo o mundo.

O filme abre com as imagens do menino Matías (Sebastián Molinaro) em uma festa de aniversário. Vestido com capa vermelha, óculos de natação (transformado em máscara) e um cinto de utilidades improvisado, ele espera a chegada de sua mãe Laura (Julieta Díaz), que deveria vir buscá-lo, mas que, por razões desconhecidas, não aparece na hora devida.

A roupa de super-herói das primeiras cenas – escolha super acertada de figurino – já anuncia o que vai ser um leitmotiv do filme: é preciso ter super poderes para enfrentar certas situações da vida. Uma fantasia que representa tanto a inocência da infância como o desejo e a necessidade reais de se transformar, vez por outra, em super-herói a fim de sobreviver. Uma fantasia que vai, pouco a pouco, perdendo suas partes – somem primeiro os óculos, depois o cinto, por último a capa – ao mesmo tempo em que o pequeno Matías vai perdendo sua inocência. Já na segunda sequência, quando o menino encontra a mãe no chão do apartamento, toda machucada, depois de ter sido agredida pelo marido, nosso pequeno protagonista já se vê obrigado a vestir sua verdadeira capa de herói.

A partir daí o filme vai ser tornar um thriller (meio road-movie) com mãe e filho saindo em disparada numa tentativa enlouquecida de escapar dos maus tratos. Indo de um lugar a outro – centro de refugiados, motel, etc., – os dois vão ser perseguidos o tempo todo pelo toque estridente do telefone celular da mãe. Ferramenta de comunicação transformada em ferramenta de tortura, ele é a personificação do agressor. Cada toque representa uma ameaça, uma tensão que cresce, um medo que se apodera da agredida. O toque escolhido para o telefone – outra escolha bem acertada – é enlouquecedor, deixando-nos aturdidos, incomodados, irritados, nervosos. Tememos por eles e com eles. A agressão física é substituída ou agravada pela psicológica. Um jogo cruel, de difícil saída.

A direção de arte é muito boa. Uma paleta de cores tristes, escuras, que retratam bem o clima de tensão da história. Cenas de fuga filmadas com uma câmera nervosa contrastam com as cenas posadas, captadas por uma câmera fixa de enquadramento perfeito. Belas cenas, bem compostas, bem pensadas que nos permitem respirar para continuar o périplo rumo à liberdade, verdadeiros quadros que retratam uma triste realidade.

A realidade

Depois do filme, o debate. Ou melhor, a “charla”. E foi aí que desmontei, constatando, ao mesmo tempo, o poder da sétima arte em desencadear um processo positivo de catarse. As mulheres ali naquela plateia se identificaram com Laura, sentiram sua dor, ao reviver (e ver na tela) suas próprias dores. Com vozes tremidas, compartilhara corajosamente suas próprias experiências. Foram vários relatos de mulheres que já saíram de situações de violência, ou de outras que, com lenços de papel em punho, contaram o que ainda estão vivendo, e o que estão fazendo (ou tentando fazer) para tentar escapar do pesadelo. Em seus testemunhos, confirmaram que o telefone é, de fato, uma arma de controle e de tortura muito usada pelo agressor. Um terror psicológico que complementa a agressão física e que, pior, funciona 24 horas, 7 dias por semana.

Aprendi também ali que muitas das atrizes e figurantes que aparecem no filme são sobreviventes reais de violência doméstica. Mulheres que conseguiram sair do inferno da submissão, do medo e da agressão. O processo não é fácil, não é simples e não é rápido. Há recaídas, há vais-e-voltas, há a culpa por separar o pai dos filhos, há a dependência financeira, há o orgulho, a vergonha… tantos fatores que impedem que escapem da situação. Mas há saída. Nem que para isso, se tenha que vestir a capa de super-herói, colocar o cinto de utilidade e fugir em disparada.

Refugiado é um grito de alerta, um abrir os olhos para uma situação que não é privilégio de um único país, de uma única cultura ou de uma única classe social. A violência doméstica desconhece essas diferenças, ela acontece em todas as camadas da sociedade, em todas as épocas de nossa história, em todos os lugares do mundo. Infelizmente. Que este filme não violento sobre violência – não há nenhuma cena violência (física) – nos sirva de aviso.

PRA PENSAR e PRA SE ANGUSTIAR

~ by Lilia Lustosa on novembro 15, 2015.

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