Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo (2014)

Título original: Foxcatcher

Origem: EUA

Direção: Bennett Miller

Roteiro: E. Max Frye, Dan Futterman

Com: Steve Carell, Channing Tatum, Mark Ruffalo, Sienna Miller, Vanessa Redgrave

Em muitos de meus textos, tenho criticado a análise e o julgamento extremamente rigorosos feitos pela turma do Cahiers du Cinéma – até hoje a maior referencia da crítica cinematográfica do mundo francófono, quiçá do mundo tout court. No entanto, desta feita, tenho que dar mão à palmatória e me juntar à recente crítica feita ao filme Foxcatcher, de Bennet Miller, escolhido, inclusive, como Filme do Mês na edição de janeiro de 2015 do Cahiers.

O filme é de fato excelente! De uma delicadeza e sensibilidade absurdas, que contrastam enormemente com os “trogloditas” que vemos lutando nas telas!

Foxcatcher_First_Teaser_Poster

Baseado em uma história real – ou, mais precisamente, em um fait-divers, como dizem os franceses, Foxcatcher conta a história de três homens cujos destinos se cruzam, se entrelaçam e acabam por se destruírem:

Mark Schultz (Channing Tatum), lutador decadente de luta greco-romana, campeão olímpico em 1984, estrela meio apagada da constelação de atletas americanos, vive de bicos, falando sobre sua experiência de atleta para escolas públicas americanas e sonha em ainda representar os EUA nos mundiais e nas olimpíadas de Seoul (1988);

Dave Schultz (Mark Ruffalo), irmão mais velho de Mark, também lutador, igualmente ganhador de uma medalha de ouro nas olimpíadas de 1984, mais famoso do que o irmão, hoje também fazendo bicos e ganhando a vida como treinador. Casado e pai de duas crianças;

John E. Du Pont (Steve Carell), herdeiro do império Du Pont, enfant gaté, solitário, vivendo sempre sob as asas da matriarca, e impedido, na juventude, de praticar seu esporte favorito – a luta greco-romana – por ser considerada incompatível com nível social do clã Du Pont. Uma figura controversa, nebulosa, de mente perturbada.

Antes de continuar, é preciso dizer que os três atores em questão dão um show de interpretação. E olha que não sou nem um pouco fã de Steve Carell, muito menos de Channing Tatum, mas devo admitir que, neste filme, Carell teve provavelmente a melhor atuação de sua carreira (apesar do excesso de maquiagem) e Tatum mostrou que é mais que uma montanha de músculos. Seu personagem, tão forte e tão frágil ao mesmo tempo, é capaz de nos emocionar, assim como o de Mark Ruffalo, que nos presenteia igualmente com uma excelente atuação. Não é à toa que tanto Carell quanto Ruffalo estão concorrendo ao Oscar neste ano!

De volta à trama:

Depois de toda uma vida seguindo os conselhos da mãe, John E. Du Pont resolve finalmente lutar por sua alforria, para assim poder sentir o gostinho de ser alguém importante (ou pelo menos alguém importante na vida de outrem), alguém que faça diferença no mundo e que entre assim para a história dos Estados Unidos da América. Ele constrói então na gigantesca propriedade da família uma super infra estrutura de treino de luta greco-romana e monta o Time Foxcatcher. Para comandar a equipe, ele convida os irmãos Schultz, garantindo-lhes bom salário, casa, comida e roupa lavada. O que, segundo ele, deveria ser papel do Estado, mas que os EUA não fazem por seus atletas. E nesta luta, ele acaba conseguindo até mesmo negociar com o próprio governo americano (pagando muito caro) para que o time oficial selecionado para as Olimpíadas vá treinar em sua propriedade, desde que, claro, ele seja seu “coach” oficial.

Vale lembrar que o filme se passa no fim dos anos 80, últimos suspiros da Guerra Fria, num governo Reagan, “patriótico” e fã de Rocky Balboa.

No entanto, o que, no princípio, parece um sonho para os irmãos Schultz – uma nova vida regada por mordomias – acaba virando um pesadelo, já que o relacionamento que vai sendo construído entre John e Mark é um tanto quanto confuso, nebuloso, misturando afeto paternal (segurança, proteção) com relação carnal (não totalmente clara), em uma dinâmica de submissão e subserviência. E que se torna ainda mais complicado quando o milionário tenta convencer o frágil Mark de que ele não pode viver à sombra do irmão Dave, precisando encontrar seu próprio espaço, seu caminho solo. Como se projetasse no rapaz a chance de ele também alçar enfim seu voo solo, tornando-se para o atleta “um pai, um mentor, um modelo!” Tudo o que nunca foi para ninguém.

Na verdade, quase tudo em Foxcatcher é dito, ou mostrado, de maneira meio opaca, não transparente. Aliás, este parece ser o caminho escolhido por Bennet Miller (indicado ao Oscar de Melhor Diretor) para contar esta história. Desde o cenário – digno de um bom filme de suspense, com céu sempre cinza e dias cheios de brumas, naquela propriedade povoada de fantasmas da guerra – passando pela iluminação, sempre escura, até as cenas de luta, filmadas em plano americano, às vezes em close, e que alternam-se entre dança, jogo de sedução e confrontação de dois touros em uma arena, tudo no filme é meio ambíguo, meio misterioso.

As cenas de lutas são, aliás, de uma beleza estonteante, sobretudo a primeira sequência, quando nós, espectadores, somos apresentados ao esporte e vemos os irmãos Schultz pela primeira vez em ação. Há na maneira como o diretor nos apresenta esses corpos em luta algo de animal, de sensual, de violento e de delicado ao mesmo tempo. Há luta, há treino, há esporte, mas há também raiva, amor, frustração, desespero… Muitos sentimentos confundidos e que dão um nó na cabeça do espectador. O que eles estão fazendo afinal?

Na verdade, há muito mais o que dizer sobre este filme, mas vou parando por aqui para deixar para vocês o prazer de descobri-lo no cinema. Intenso, inteligente, sensível e bem interpretado, Foxcatcher é o filme “de macho” mais delicado que já vi. O universo masculino apresentado em toda sua fragilidade e beleza! Um dos melhores filmes desta safra 2014/2015, infelizmente fora da corrida pelo Oscar de melhor filme.

Um filme PRA PENSAR e PRA SE ENCANTAR.

 

~ by Lilia Lustosa on fevereiro 13, 2015.

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