O Lobo de Wall Street (2013)

Veja o trailer aqui!

Título original: The Wolf of Wall Street  poster-em-portugues-de-o-lobo-de-wall-street-1386880716364_956x500

Origem: EUA

Diretor: Martin Scorsese

Roteiro: Terence Winter, Jordan Belfort (livro)

Com: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Matthew McConaughey, Margot Robbie, Jean Dujardin

Do alto de seus 71 anos, Martin Scorsese dá mais uma vez provas de sua jovialidade, originalidade e genialidade. Um monte de “dades” que, somadas, resultaram num filme absolutamente brilhante, tanto no conteúdo quanto na forma.

O Lobo de Wall Street é um filme inteligente, ousado, politicamente incorreto, repleto de sacadas de mestre e uma verdadeira mise en scène da sociedade de consumo prevista por Jean Baudrillard em seu A Sociedade do Consumo, publicado em 1970 e confirmada por seu Simulacros e Simulação, lançado no início dos anos 1980.

Ao contrário de ser uma apologia ao capitalismo selvagem, O Lobo de Wall Street é, na verdade, uma crítica severa à sociedade norte-americana (e a tantas outras que seguem o mesmo modelo), comandada pelo desejo cego de sucesso e poder.

A história, baseada no livro autobiográfico de Jordan Belfort, se passa no fim dos anos 1980, nos Estados Unidos, e relata a vida de um jovem de classe média ambicioso que, em função de seu enorme talento, inteligência e ousadia, vai parar em Wall Street, tornando-se em pouco tempo um milionário. Se ele consegue enriquecer apenas por meios lícitos? Óbvio que não. E o filme mostra isso sem nenhum pudor, censura ou hipocrisia.

Aliás, no livro, o verdadeiro Belfort não esconde tampouco seus atos ilícitos, nem sua falta de ética para conseguir alcançar seus objetivos, ou, como ele próprio prefere dizer, “sua visão”. Em entrevista a um repórter australiano, ele declarou, sem constrangimentos, que quem tem objetivos são os “pobres”, os de mentalidade pequena, os loosers. Os bem sucedidos, os que conseguem ficar ricos de verdade, esses têm “visão”.

Voltando ao filme.

Scorsese já começa em grande estilo, abrindo seu filme com um dos símbolos máximos da sociedade do consumo: a publicidade. Trata-se de um comercial da empresa de Jordan Belfort – Stratton Oakmont – que anuncia, desde o primeiro minuto, o universo a ser explorado pela trama. Universo do simulacro, do espetáculo, da retórica, da persuasão, do consumo desmedido, da falácia, da venda de sonhos e de ilusões. Que me desculpem meus colegas publicitários!

A imagem do leão, presente no logo da empresa, confunde-se com as vinhetas das produtoras e dos estúdios responsáveis pela realização do filme, fazendo-nos misturar o real com a ficção, a “fantasia” com a realidade. E essa integração (ou confusão), assim como o próprio modelo publicitário que será também utilizado como forma narrativa, vai continuar a ser explorada por Scorsese ao longo de todo o filme, numa perfeita alusão (e crítica) à sociedade do simulacro e do espetáculo.

Já bem no início, Jordan Belfort – um impecável Leonardo DiCaprio – olha bem dentro de nossos olhos (para câmera) para vender sua empresa e para, em seguida, narrar sua história, em primeira pessoa. Ele se dirige a cada um de nós, com todo o seu poder de persuasão, numa perfeita retórica, tal qual uma sereia lançando-nos seu canto. E vai, pouco a pouco, relatando todas as sujeiras por ele cometidas, mas sempre de maneira a tornar-nos seus cúmplices ou, ao menos, capazes de compreender seus atos, jogando com nossos instintos e fraquezas de seres humanos, assim como tenta fazer com o Agente do FBI na sequência do barco.

Travellings verticais, zooms super rápidos, imagens congeladas, slowmotion, fotos, um verdadeiro pot-pourri de movimentos de câmera e de texturas diferentes dão o dinamismo e o ritmo que esse filme  de 3 horas (2h59min para ser mais precisa) necessita para não se tornar enfadonho.

O elenco de O Lobo de Wall Street também ajuda, claro! DiCaprio parece estar vivendo seu esplendor, entregando-nos uma atuação perfeita, equilibrada, sem exageros ou traços caricatos. Ele está tão bem e tão natural que às vezes dá a sensação de que ele está vestido dele mesmo. Jonah Hill, que interpreta Donnie Azoff, sócio de Belfort, com seus dentões extra-brancos e com seu jeitão “almofadinha”, não deixou Scorsese na mão, atuando muitíssimo bem, formando assim uma bela dupla com o mil vezes nomeado DiCaprio. O francês Jean Dujardin, como banqueiro suíço, trouxe um lado cômico e leve à história. A aparição de Matthew McConaughey no começo do filme, embora curta, é marcante, mostrando a excelente fase por que passa o ator protagonista do também nomeado Clube de Compras Dallas (2013).

Muito sexo, muita droga, muito assédio moral, humilhações, chantagens, fraudes, operações ilegais, consumos desmedidos, tudo é hiperbólico na vida de Belfort. Um mundo de excessos que tem como único guia uma ganância sem limites, sem escrúpulos. Um mundo de exageros que podia ter feito Scorsese derrapar, “errar a mão”, fazendo um filme muito pesado ou com personagens muito caricatos.  Mas não, o diretor ítalo-americano mais uma vez deu-nos mostra de seu enorme talento, trazendo-nos, por certo, um universo megalômano, mas, ao mesmo tempo, um universo não tão “irreal” assim. Um mundo que percorre os sonhos e fantasias de muitos de nós, reles mortais, mesmo que não tenhamos coragem para assumir ou que nossa ética nos fale mais forte.

O Lobo de Wall Street é um daqueles filmes sobre os quais pode-se passar horas e horas escrevendo, tanto há para ser dito e discutido. Mas, infelizmente – ou felizmente para vocês – vou encerrar por aqui e deixar que vocês o vejam e tirem suas próprias conclusões.

Um filme PRA PENSAR e PRA SE DISTRAIR.

~ by Lilia Lustosa on fevereiro 22, 2014.

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