Memórias do Cárcere (1984)

Veja aqui o filme!

Título original: Memórias do Cárcere   image_preview

Origem: Brasil

Diretor: Nelson Pereira dos Santos

Roteiro: Nelson Pereira dos Santos

Com: Carlos Vereza, Glória Pires, Jofre Soares, José Dumont, Jorge Cherques

Baseado na obra homônima de Graciliano Ramos, Nelson Pereira dos Santos traz para as telas uma história de libertação do corpo e da alma via metáfora do cárcere.

O cárcere sendo aqui nossa sociedade brasileira, cheia de conceitos e pré-conceitos importados, herdeira do colonialismo, com seu ranço subdesenvolvimentista, eterna dependente, refém de uma qualquer metrópole. A libertação, por sua vez, não é só física. Não se trata apenas de conseguir escapar do presídio, mas principalmente, de conseguir libertar a alma dos preconceitos, das armadilhas sociais e econômicas, da cadeia invisível que nos torna prisioneiros a cada dia.

No livro, assim como no filme, Graciliano Ramos conta um período de sua vida, quando em 1936, época em que ocupava o cargo de diretor de Instrução do Estado de Alagoas, foi detido por suspeita de participação na Aliança Nacional Libertadora (reunião de diferentes tendências de esquerda em oposição ao Governo de Getúlio Vargas).

O escritor alagoano relata assim suas memórias do cárcere, onde, junto a diversos personagens (reais e fictícios), representantes de boa parte da sociedade brasileira – ladrões, médicos, operários, padeiros, professores, homens, mulheres, homossexuais, etc. –  pôde experimentar a prisão física. Experiência dolorosa que terminou por conduzi-lo à libertação do espírito. Um período em que se viu obrigado a transpor seus próprios muros, quebrando as grades de diversos preconceitos que havia erguido em sua volta.

Nelson Pereira dos Santos afirma que não há em seu filme um compromisso biográfico com Graciliano Ramos, embora o personagem conserve o nome do escritor. Num ato libertário, Nelson não reproduziu fielmente o livro em seu filme mas, assim como fez Graciliano Ramos em seu livro, escreveu seu roteiro de memória*, numa espécie de memória das memórias, deixando a sua ficção invadir àquela do livro.

No entanto, o também diretor de Vidas Secas (1963) – outro filme baseado em obra de Graciliano Ramos – trouxe para o cinema o estilo direto e seco do Mestre Graça. Fez o filme com cortes secos, objetivos, sisudos, sem frufrus nem tecnologias. Recorreu a atores amadores ou pouco conhecidos (na época) para garantir ares de realidade ao filme, misturando-os a outros já consagrados, como o grande Carlos Vereza para o papel principal.

Vereza, aliás, ao encarnar Graciliano Ramos, conseguiu levar às telas a sisudez do escritor, reproduzindo de forma bastante fidedigna seus gestos, suas posturas, sua fala mansa e seca, seu olhar enigmático, numa interpretação “quase milagrosa”, segundo conta Ricardo Ramos, filho de Graciliano.

Mas prepare-se, o filme é super longo (um pouquinho mais que 3 horas) e seu início é lento, difícil de pegar, sobretudo para os espectadores de hoje, não acostumados à encenação mais teatralizada, mais pausada, característica de uma outra época. Tudo pode parecer então, no princípio, meio artificial, duro, ensaiado demais. Mas, insista, persista, não desista. A partir das cenas do barco o filme vai ganhando ritmo, eloquência e torna-se bem mais envolvente.

Há uma série de diálogos interessantes, de cunho altamente revolucionário, verdadeiros discursos feitos por personagens anônimos que olham para a câmera, comunicando-se diretamente com o espectador. Toques de documentário num filme de ficção, momentos de quebra da transparência cinematográfica, daqueles feitos propositadamente para acordar plateias, para tirá-las da inércia em que vivem.

Há outros momentos em que voltamos a embalar-nos pela ficção, sentimo-nos então mais tocados, sofremos junto com os personagens, torcemos por sua libertação. E nesta mistura de ficção e documentário, transparência e quebra de transparência, de sonho e de pé no chão, vamos acompanhando as memórias desse grande escritor que foi Graciliano Ramos pelos olhos desse grande cineasta que é Nelson Pereira dos Santos. Certamente dois homens de ideias que, em períodos de ditadura, souberam usar sua arte para passar mensagens libertárias.

Um filme PRA PENSAR.

* Graciliano Ramos acabou tendo que deixar seus escritos no presídio, distribuídos entre seus colegas presidiários que, num ato de defesa do livro, arriscaram-se escondendo por baixo de suas calças e camisas as folhas contendo partes de suas histórias. Um belo ato de companheirismo que tão bem ilustra o livro e o filme Memórias do Cárcere.

~ by Lilia Lustosa on setembro 9, 2013.

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