Histórias Que Só Existem Quando Lembradas (2011)

Veja o trailer aqui!

Título original: Histórias que só existem quando lembradas  

Origem: Brasil

Diretor: Júlia Murat

Roteiro: Júlia Murat, Felipe Scholl e Maria Clara Escobar

Com: Lisa Fávero, Sônia Guedes, Ricardo Merkin, Luiz Serra

Nostálgico, poético, belo. Um filme sobre um povoado que desistiu de morrer!

O filme de Júlia Murat vem rodando o mundo com sucesso desde que estreou no Brasil em julho deste ano. Já foi exibido em vários festivais e ganhou diversos prêmios: Melhor Filme e Melhor Atriz no Festival de Abu Dhabi, Melhor Filme Latino no Festival de Santa Barbara, Melhor Filme do Público no Festival de Roterdã, pela cidade de Groningen, dentre outros. Sem falar na alta pontuação (89% de aprovação) que conseguiu no site americano Rotten Tomatoes. Tudo isso não é sem razão de ser!

Trata-se de um filme de arte, sem dúvida. Longe do filmão comercial que lota as salas e enche os bolsos dos empresários… que também tem seu valor, é claro. Não me entendam mal!

Mas Histórias Que Só Existem Quando Lembradas é diferente! Ele é aquele tipo de filme contemplativo que nos imerge em um mundo de reflexões: vida x morte, cidade x campo, jovem x velho, etc. Ele é diferente da maior parte dos filmes que estamos acostumados a ver no Brasil. Tanto com relação à história em si, quanto com relação à sua estética sublime, composta de planos fixos hiper bem estudados, planos-detalhes reveladores, planos noturnos à la Rembrandt, com seu chiaroscuro que permite explorar tão bem a profundidade do campo… Uma verdadeira galeria de arte!

O filme todo, aliás, é de uma sensibilidade e de uma poesia difíceis de imaginar para uma diretora estreante em longas-metragens. Sim, este é o primeiro longa de ficção de Júlia Murat., que já dirigiu curtas como Pendular (2009), Dia dos Pais (2008), Ausência (2004) e A Velha, O Canto, As Fotos (2001), além de atuar como roteirista e montadora de algumas dessas e de outras produções.

No entanto, é preciso abrir o coração e o espírito – já tão viciados em receber uma quantidade absurda de informação por milésimo de segundo – pois o filme não conta muita coisa. Mas ele mostra! E mostra lentamente. Sim, o filme é lento, muito lento, já que apresenta-nos a rotina de uma cidade do Vale do Paraíba que parece que parou no tempo. Lá, o cemitério é fechado a cadeado, pois as pessoas decidiram não mais morrer. Uma cidade perdida no meio do nada, composta por velhos solitários e endurecidos. Pessoas que viveram, foram felizes, mas que enjoaram de ver a morte chegar e carregar pessoas queridas. “Sobreviventes” que, por não terem desistido da vida, resolveram fechar o cemitério e proibir a entrada de quem quer que seja. Uma cidade em que foi decretada a morte da morte!

Para vivenciarmos esse dia-a-dia envelhecido, a narração segue, então, o ritmo da vida no vilarejo. Todo dia vemos D. Madalena seguir sua rotina de velha solitária. À noite ela faz o pão à luz de velas. De manhã, caminha pelo trilho de trem – que já não chega mais até ali – com sua cestinha repleta de pães até chegar ao armazém do Seu Antônio. Os dois brigam todos os dias para definir o local para guardar o pão. Seu Antônio faz o café. Depois os dois sentam no banco para toma-lo. E assim a vida segue. Calma, sem surpresas.

A cada novo dia no filme, no entanto, um novo hábito dessa rotina insossa (para nossos olhos citadinos) nos é apresentado. Descobrimos, então, que eles vão à missa todos os dias. Que se juntam a outros moradores para o almoço e que sempre rezam antes de comer. Pouco a pouco temos o retrato completo da vida daquele vilarejo perdido no mundo.

Retrato que será modificado pela chegada de um novo personagem. É Rita, uma moça da cidade, fotógrafa, que pede abrigo na casa de D. Madalena. Como em diversos outros filmes que já vimos, o elemento novo causa estranhamento e desconforto no princípio, mas vai, devagarzinho, conquistando a confiança de todos. Ela traz a alegria e os  questionamentos de volta àquele povoado.

Apesar de o roteiro parecer batido, a originalidade aqui é que o novo elemento (Rita) não tenta pregar a superioridade da cidade grande. Nem da vida moderna. Tampouco a do campo. Ela questiona hábitos, mas não diz o que é melhor. Ela gosta de lá, mas sabe que não pertence àquele mundo. Não há julgamento de valores. Não há certo ou errado. Não há pior nem melhor. O que há são descobertas, constatações, ponderações e registros de uma realidade, feitos por um dispositivo visual primitivo, que remonta às origens da fotografia: uma lata.

Um objeto simples e mágico que, tal qual uma chave, é capaz de abrir portões e corações enferrujados! Um objeto que, ao registrar a realidade, acaba por revelá-la, transformando, assim, pensamentos, sentimentos, imagens e desejos.

Histórias Que Só Existem Quando Lembradas é um filme de grande poesia, banhado de nostalgia e composto por diálogos profundos, embora proferidos em linguagem simples e popular.

Um filme brasileiro de arte que merece ser visto e aplaudido. Um filme PRA PENSAR.

~ by Lilia Lustosa on novembro 29, 2012.

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