Sudoeste (2011)

Veja o trailer aqui!

Título original: Sudoeste   

Origem: Brasil

Diretor: Eduardo Nunes

Roteiro: Eduardo Nunes e Guilherme Sarmiento

Com: Dira Paes, Simone Spoladore, Raquel Bonfante, Mariana Lima, Julio Adrião

Com uma fotografia irretocável – à la Sebastião Salgado – o primeiro longa metragem de Eduardo Nunes (que se diz explicitamente influenciado pelo cineasta russo Andrei Tarkovsky)  impressiona pela beleza, pelo formato espichado (3,66:1 – ainda mais longo do que o Scope) e pela poesia tão presente em seu realismo fantástico.

Rodado todo em preto e branco, Sudoeste levou mais de dez anos para ser realizado, tendo tido, assim, tempo suficiente para ser cuidadosamente burilado, esculpido e esmerado.

Tempo, aliás, é o grande protagonista desta história, trabalhado por meio de diversos simbolismos, que vão desde o próprio ritmo lento da narração, passando pelo barulho repetitivo do moinho, o canto do vento forte, até a imagem da areia escoando pelos dedos de uma menina.

Tempo que é também flexível, elástico, circular, percebido diferentemente por diferentes personagens. A história toda do filme se passa em um dia (será?), desde a hora em que uma moça morre, ainda de madrugada, até o  outro limite daquele dia.

Trata-se da história de Clarice, uma jovem que morre ao dar à luz seu primeiro filho. A moça morre em um prostíbulo e é acudida pela benzedeira ou “bruxa” do vilarejo. Em seguida ela é enterrada numa vala comum e nada se sabe sobre a causa de sua morte nem sobre sua história. Tampouco sobre  destino do bebê.

Nós, espectadores, no entanto, vemos a velha bruxa carregar um bebê para seu barraco no meio do lago. Uma casinha de madeira suspensa (em palafita) bem no meio das águas salgadas daquela lagoa que está morrendo. Um cenário de um misticismo digno de Hayao Miyasaki! Vide seu O Castelo Animado (2004), em que um castelo voa e viaja pelo tempo.

Acontece que o bebê ali escondido se transforma rapidamente em uma menina de cabelos longos e romântico vestido branco, de nome Clarice. A menina, presa na “torre” tal qual Rapunzel, foge de sua prisão e segue descobrindo o mundo. Naquele mesmo dia, ela vai conhecer a família de João, um menino mais ou menos da sua idade, que acabou de perder a irmã, também chamada Clarice, naquela madrugada. A mãe está devastada, mas dá abrigo à pequena. Os meninos ficam amigos. Mas Clarice logo cresce e vira uma mulher, atraindo olhares adultos. Ela foge de novo, mas acaba sendo novamente socorrida pela mãe de João.

E assim, aquele bebê do início do filme vai virar moça, mulher e velha. Tudo em um único dia. Em um dia apenas toda uma vida será ali resumida e (re)vivida. Sonhos e pesadelos de realidade se misturam e se confundem. Segredos são revelados. Culpas e arrependimentos são expostos. Muito passa a ser compreendido. Para os outros, no entanto, a vida segue o curso normal, com uma manhã, seguida de uma tarde, terminando em uma noite. Dois mundos paralelos que paradoxalmente têm vários pontos de intersecção.

Eduardo Nunes foi muito feliz na escolha de seu tema, na escritura do roteiro, na montagem de seu filme, na plasticidade das imagens e no misticismo todo  com que o vento Sudoeste impregna sua obra.

Os diálogos, no entanto, poderiam ter sido mais bem elaborados, poderiam ser mais ricos, mais profundos. O campo era bastante fértil. Parece que faltou um pouco mais de água. Faltou também um maior cuidado com os sotaques dos atores. Pode parecer besteira ou preciosismo, mas os diferentes sotaques feriram um pouco meus ouvidos. Sem falar na “aparição” de uma música-alien bem no meio do filme que quebrou totalmente o ritmo da narração. Uma pena!

Fora esses deslizes, Sudoeste é um filme brasileiro de alta qualidade,  do tipo que faz a gente sentir orgulho da terrinha! Não é à toa que ele já arrebatou diversos prêmios pelo mundo a fora: Melhor Fotografia no Festival do Rio 2011; Prêmio AQCC – Associação de Críticos de Cinema de Quebec, dentro do quadro do 41° Festival du Nouveau Cinéma de Montréal; Prêmio Andrei Tarkovsky no VI Festival de Filmes de Zerkalo; Melhor Fotografia no Festival de Guadalajara, dentre outros.

Um filme PRA SE ENCANTAR e PRA PENSAR.

~ by Lilia Lustosa on novembro 26, 2012.

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