Batalha Real (2000)

Se você gostou de Jogos Vorazes (post de 1/4/12), vale a pena dar uma conferida no filme japonês Batalha Real , de Kinji Fukasako, lançado em 2000, e tentar apontar semelhanças e diferenças!

Tirando a quantidade absurda de sangue derramado, o filme japonês lembra em muito a produção hollywoodiana deste ano, baseada no livro de Suzanne Collins. Por sinal, a produção nipônica também encontrou inspiração em um livro, publicado em 1999, do escritor Koshun Takami. A semelhança de tema é tal que Suzanne Collins chegou mesmo a ser acusada de plágio, mas garantiu “de pé junto” que desconhecia a obra japonesa.

Batalha Real se passa no Japão de um futuro não determinado, aparentemente não muito distante, em pleno período de recessão, com taxas de desemprego super elevadas, chegando a atingir 15% da população (qualquer semelhança com a realidade atual não é mera coincidência).

A sociedade japonesa vive, então, um período de terror e pânico, com uma quantidade enorme de adultos sem empregos, sentindo-se constantemente ameaçados pela entrada dos jovens no mercado de trabalho. Esses jovens passam a representar, então,  uma ameaça ao bom funcionamento da sociedade, que torna-se cada dia mais violenta e sem esperança.

O governo japonês resolve, portanto, intervir e institui um programa chamado Batalha Real.

O programa consiste em enviar uma vez por ano um grupo de jovens estudantes, formandos do Ensino Médio, para uma ilha deserta, onde ficarão por três dias. Ao fim deste período, só um sairá vivo. E neste caso, diferentemente de em Jogos Vorazes, não adianta tentar escapar, fugir, esconder-se ou proteger alguém. Pois, ao final dos três dias, caso reste mais do que um sobrevivente, todos serão eliminados, mortos, explodidos. Isso porque cada participante usa uma “coleira”, com GPS e microfones, que pode explodir a qualquer momento. E segundo às regras, se, ao fim dos três dias, houver mais do que um sobrevivente, todas as coleiras explodirão, não sobrando ninguém para contar a história.

O filme é super violento, com sangue espirrando para todo lado e cenas horrorosas. Sem falar que, vistos pelos nossos olhos ocidentais, os efeitos especiais parecem falsos, mal feitos. A atuação nos parece um tanto quanto coreografada, artificial. No entanto, em meio ao horror da morte injustificada, questões delicadas vêm à tona, como, por exemplo, a dos amores e angústias da adolescência , nos permitindo ver ali o retrato de uma sociedade controlada, contida, reprimida. Assim, muito da disputa na arena acaba ficando por conta dos não ditos, dos desejos reprimidos, dos medos, dos ciúmes, das invejas e dos amores não correspondidos. Aquele lugar amaldiçoado se transforma em palco para confissões.

Falando em “arena”, a da produção japonesa é bem diferente daquela vista em Jogos Vorazes. Nada de grandes tecnologias nem realidades virtuais. Em Batalha Real ela lembra mais um tabuleiro de Batalha Naval, com as áreas proibidas marcadas nos quadrantes desenhados nos mapas de cada participante.

Essas áreas proibidas, assim como os nomes dos mortos do dia – ou do período -são anunciados por alto-falantes, como num quartel, e são sempre precedidos de uma boa música clássica. Aliás, vocês já repararam na quantidade de filmes que associa música clássica à guerra, à violência, à morte???!!!!! Isso merece um estudo (que, com certeza já deve existir).

Nós, espectadores, podemos, no entanto, ler na tela os números  dos participantes mortos.

Uma grande diferença entre os dois filmes é a questão da exibição, do espetáculo. No caso de Jogos Vorazes tudo é televisionado, transmitido ao vivo e a cores, transformado em um grande reality show. Em Batalha Real, ao contrário, muito (ou quase tudo) é escondido. A televisão apenas anuncia o vencedor. E só tem a informação depois que o evento acaba. Ninguém de fora (excluindo, obviamente os organizadores e exército) tem acesso ao que acontece ali. Trata-se de segredo de estado. Os próprios jovens ignoram que isso aconteça. E são levados até lá sem consciência de para onde estão indo.

O filme americano, sem dúvida, agrada mais aos nossos olhos e ouvidos ocidentais. A produção é muito mais glamorosa, bem feita, “moderna”. Mas, se pensarmos bem, o filme japonês parece, num primeiro momento, mais atual, mais real, mais plausível, mais próximo do que já vivemos hoje. Afinal de contas, taxas de desempregos elevadas, jovens entrando aos montes em um mercado de trabalho saturado, gente se suicidando ou morrendo de maneiras absurdas nos quatro cantos do planeta sem que tomemos conhecimento, isso é super REAL. Por outro lado, o exibicionismo de nossa era digital, tão bem retratado por Jogos Vorazes, onde o virtual substitui o real, confundindo nossos olhos e mentes. A banalização da violência, transmitida 24 horas por dia pelos canais de TV ou pela Internet, isso tudo também é REAL!

Ah, há tanto o que tirar desses dois filmes. Tanto o que dizer, tanto o que refletir. Talvez, então, o melhor seja apenas comparar para somar. Comparar como se fora um exercício estético e intelectual, cujo objetivo é extrair de cada um os ensinamentos necessários para que cenários e soluções desse tipo sejam apenas parte de obras de ficção.

PS. Desaconselhável para crianças e pré-adolescentes. Segundo a capa do DVD, a censura deste filme é 18 anos.

Batalha Real (2000)

Título original: Batoru Rowaiaru     

Origem: Japão

Diretor: Kinji Fukasako

Roteiro: Kenta Fukasako

Com: Takeshi Kitano, Tatsuya Fujiwara, Aki Maeda, Tarô Yamamoto

~ by Lilia Lustosa on setembro 17, 2012.

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