Sergio (2020)

Origem: EUA

Direção: Greg Barker

Roteiro: Craig Borten (baseado no livro de Samantha Power)

Elenco: Wagner Moura, Ana de Armas, Brian F. O’Byrne, Clemens Schick, Clarisse Abujamra, Bradley Whitford, Garret Dillahunt, Pedro Hossi

Nestes  tempos sombrios em que vivemos, tempos de desgovernanças, angústias e desacordos, relembrar que temos heróis nacionais faz muito bem à alma! Foi essa a sensação que tive ao terminar de assistir à recém-lançada produção da Netflix, Sergio (2020), de Greg Barker.

Ainda que modificada para caber no formato biopic, a história contada nesse filme é inspiradora! Trata-se da vida de Sergio Vieira de Mello, brasileiro, carioca, alto funcionário da ONU, que deixou o mundo aos 55 anos, em 2003, vítima de um atentado em Bagdá, quando, mais uma vez, tentava negociar a paz entre povos. Um homem ambicioso, inteligente, carismático e extremamente hábil diplomaticamente, que ousava enfrentar seus próprios medos, contradizer ordens superiores e dialogar com opositores em nome de uma causa maior, a paz mundial.

Interpretado por Wagner Moura, que é também co-produtor do filme, o biopic de Greg Barker, que estreia na ficção justamente com Sergio, segue a trilha do clássico hollywoodiano, colocando Sergio Vieira de Mello em uma posição de herói quase imbatível. Uma espécie de James Bond dos direitos humanos, capaz de enfrentar e encantar a todos -– até seus maiores “inimigos” –, sempre em cenários exóticos, atraindo mulheres bonitas e inteligentes. Mas o mais louco de tudo é que, de fato, Sergio teve uma vida cinematográfica, tendo mudado constantemente de paisagens desde criança em função do trabalho de seu pai, que era diplomata de carreira. Foi um third culture kid, quando ainda nem se falava nesse conceito. Aos 21 anos, ingressou na ACNUR – Agência da ONU para Refugiados, morando onde quer que o dever lhe chamasse: Sudão, Bangladesh, Chipre, Moçambique e Camboja. Falava cinco línguas, passando de um idioma a outro na maior tranquilidade. Algo que pode parecer exagerado ou feito especialmente para adequar o personagem à narrativa do filme, mas que é algo natural para quem vive nesse mundo à parte que é o mundo da expatriação. Os cenários exóticos, as decorações étnicas de sua casa e a facilidade em se deslocar e se adaptar a diferentes culturas também.

Mas, longe de mostrar um homem perfeito, Barker optou nesta ficção por revelar-nos um aspecto mais pessoal da vida desse homem que escolheu a paz como causa principal, pagando por isso o alto preço do afastamento de sua família. Lembrei-me de Além da Liberdade (2011), de Luc Besson, sobre Aung San Suu Kyi (leia a crítica em http://www.lilialustosa.com/the-lady-2011/), que, na tentativa de assegurar a democracia em seu país, a Birmânia (hoje Mianmar) ficou anos sem ver seus filhos e marido que viviam na Inglaterra.  São renúncias que, num primeiro momento podem parecer egoísmo ou vaidade, mas que poucos estão dispostos a fazer, já que implicam em um comprometimento total com uma causa maior que suas próprias vidas. 

Por meio de vários flashbacks o filme narra os últimos anos da vida do diplomata, começando já na época em que ele ocupava o cargo de Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos. Apoiado em imagens de arquivo, tiradas diretamente do documentário homônimo realizado pelo mesmo diretor em 2009 (produção HBO), o foco aqui é a passagem de Sergio pelo Timor Leste, onde exerceu o papel de grande articulador da independência deste país, dominado até então pela Indonésia. Lugar também onde conheceu sua última companheira, a argentina Carolina Larriera, funcionária da ONU – interpretada pela atriz cubana-espanhola Ana de Armas –, e que estava com ele em sua derradeira missão em Bagdá, assim como na própria explosão que lhe tirou a vida. 

“Hollywoodices” à parte (como a cena com a Senhorinha no Timor Leste), o biopic tem bom ritmo, boa fotografia, bom elenco e consegue traçar de maneira bastante fidedigna um panorama da vida de Sérgio Vieira de Mello, esse brasileiro que foi protagonista da História (com H maiúsculo) mundial, sendo, ao mesmo tempo, um personagem digno dos melhores clássicos hollywoodianos. E para os que têm sede de realismo, recomendo fortemente o documentário do mesmo Barker, também disponível na Netflix, e que me tocou ainda mais que o biopic, provavelmente em função de minha paixão pelo gênero documentário… Mas, o legal mesmo, na minha opinião, é assistir à ficção, depois ao documentário e, em seguida, comparar os dois. Dá para ver que Barker manteve algumas falas de Sergio ipsis litteris e que, de certa maneira, até suavizou a brutalidade dos fatos vividos pelo diplomata. De um lado, a fantasia, de outro a dureza da realidade. Nos dois, o retrato de um homem que, apesar de seus defeitos (quem não os tem?), pode sim ser visto como um herói nacional e um orgulho para nós, brasileiros.  

PRA SE ORGULHAR

~ by Lilia Lustosa on avril 21, 2020.

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