Além das Montanhas (2012)

Veja o trailer aqui!

Título original: Dupa Dealuri   Lungmetrajul-“Dupa-dealuri”-are-premiera-mondiala-astazi-la-Cannes

Origem: Romênia, França e Bélgica

Diretor: Cristian Mugiu

Roteiro: Cristian Mugiu

Com: Cristina Flutur, Cosmina Stratan, Valeriu Andriuta, Dana Tapalaga

Inspirada pelo Festival de Cannes, que acontece exatamente agora, do dia 15 a 26 de maio, resolvi assistir a um filme que há muito quero ver e que só agora tive a chance de faze-lo.: Além das Montanhas, do romeno Cristian Mugiu, laureado com o prêmio de melhor roteiro em 2012 e, neste ano, júri no Festival.

O filme é forte, impactante, sombrio e denso!

Baseado no livro de não-ficção Deadly Confession, de Tatiana Niculescu Bran, ele conta a história do reencontro de duas amigas de orfanato: Alina (Cristina Flutur) e Voichita (Cosmina Stratan). Ambas atrizes ganhadoras do prêmio de melhor interpretação feminina em Cannes 2012.

O filme aliás se inicia por este reencontro, com uma câmera agitada que segue Voichita por um corredor formado por dois trens azuis que se cruzam, e repleto de gente entre eles.  Depois de “vencer” o tumulto, a menina encontra enfim sua amiga de infância, Alina. As duas se lançam num abraço intenso, Alina deixando-se levar pela emoção e caindo em um choro copioso. E deixando a nós, espectadores, curiosos, sem entender a causa de tal pranto.

Apesar de o filme não explorar o passado das duas meninas, pouco a pouco, as frases trocadas entre as duas nos levam a presumir uma relação homossexual entre elas. Mas nada é explicitamente dito nem apresentado. Aliás, este é o “fil rouge” do filme, que joga o tempo todo com o dito e o não-dito, com o que pode ser dito, feito e sentido,  e o que não pode ser dito, feito nem sentido.

Claro fica, no entanto, que Alina volta para Romênia com a intenção de levar Voichita para ir morar com ela na Alemanha. Ela é, aliás, a mais explícita (talvez a única) em relação a seus sentimentos, falando várias vezes que precisa de Voichita ao seu lado para ser feliz. Mas a recíproca não é verdadeira, já que a outra menina diz ter encontrado ali, na vida religiosa, no meio daquele convento, a paz que, certamente, nunca teve em sua infância de órfã, longe das culpas de uma vida de pecadora. Alina passa a ser, então, a ovelha negra do filme. Curiosamente, a única vestida com roupas coloridas, no meio da escuridão das  roupas pretas das freiras do monastério.

Preto é, sem dúvida, a cor do filme, que tende para os tons escuros, por meio de um belíssimo trabalho fotográfico que explora a técnica de chiaroscuro, resultando em imagens fortemente contrastadas. Verdadeiros quadros de Rembrandt. Trevas e luz. Mentira e verdade. Pecado e pureza. Vários podem ser os significados desta escolha pelo contraste.

Contraste, aliás, é uma palavra bem presente em todo o filme, já que as duas meninas contrastam fortemente em suas maneiras de agir e de se vestir. Alina se veste de maneira urbana, moderna e colorida, com calça, pulôver, etc. Voichita, em função de sua escolha rural e religiosa, veste-se toda de preto – vestido e véu – deixando apenas seu rosto descoberto.  Alina é mais expansiva, não tem medo de falar o que pensa e de sentir o que sente. Voichita, por sua vez, prefere calar seus sentimentos, deixar-se conduzir pela voz e pensamento de um padre que fala em nome de Deus e da verdade.  Ela sofre em seu silêncio, mas não ousa enfrentar a vida fora da proteção do monastério.

E vai ser exatamente esta ovelha negra vestida de cores fortes que vai sacudir toda a “paz” daquele lugar « sagrado ». Alina, o elemento estranho àquele mundo, vai trazer à tona – sem que nunca os assuntos sejam de fato discutidos – alguns tabus da sociedade romena (e mundial), como o sexo e o  homossexualismo. Fora outras questões sociais como o sistema de saúde da Romênia, a falta de emprego para jovens, a pobreza, etc. Os holofotes, no entanto, estão voltados para a religião que cega, cala, manipula e empurra para debaixo do tapete o que deveria ser discutido. Mais fácil encaixá-los dentro da “lista de pecados previstos por Deus” e pedir perdão. Ou de culpar o Diabo, que invade os corpos e possui as almas inocentes, manipulando-as para o caminho do mal.

Todos os planos são pensados e compostos com esmero, explorando, em muitos casos, a profundidade do campo. Um belo exemplo é a cena em que as freiras estão todas na cozinha, preparando a comida e conversando, com suas roupas pretas compondo o quadro. Podemos ver com nitidez todas elas, sentadas à mesa, inclusive as que estão lá no fundo. Aliás, é justamente uma delas que comanda o diálogo, sua voz vindo lá do fundo (do arrière-plan).

Outro belíssimo exemplo de composição de plano é a cena, já bem perto do fim, quando todas as freiras e o padre estão de costas para nós espectadores, com suas escuridões (roupas pretas) cobrindo quase todo o quadro, e Voichita, vestida no pulôver de Alina, destaca-se no meio, com sua cor bege e iluminada. Ela é o centro das atenções. Ela está sendo julgada, mas também, julgando, apontando os erros e os crimes, inclusive os seus. Os holofotes estão sobre ela. Ela é a luz da verdade naquele instante. A verdadeira ovelha negra querendo ser branca. Querendo se punir, se purificar, se redimir de seus pecados. Linda cena!

Ah, há tanto o que ser dito sobre os não-ditos deste filme! Tantos planos para serem destacados, como o do hospital em que há um diálogo fantástico entre freira e médica – representando religião e ciência – com todo o simbolismo das cores branca e preta sendo ali questionados, contrastados e dispostos de maneira inteligente no quadro! (Desculpem-me, mas não consegui me conter, tinha que mencionar esta cena…) Daria certamente para desenvolver um longo texto, um belo estudo, porém este não é o espaço nem o momento.

Termino, então, por dizer que não foi em vão a escolha de Cristian Mungiu – premiado mais de uma vez em Cannes – para ser nesta edição 2013, membro do júri. Ele certamente tem “o olho” para o cinema!

Um filme PRA PENSAR.

 

 

~ by Lilia Lustosa on mai 26, 2013.

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