A Espuma dos Dias (2013)

Veja aqui o trailer!

Título original: L’Ecume des jours    4823816

Origem: Bélgica / França

Diretor: Michel Gondry

Roteiro: Boris Vian, Luc Bossi

Com: Audrey Tautou, Roman Duris, Omar Sy, Gad Elmaleh

Literalmente fantástico, A Espuma dos Dias é um filme que faz as metáforas da vida ganharem forma, luz e cor!

O filme é uma adaptação do livro de mesmo título de Boris Vian, escrito em 1947, e transformado em clássico absoluto entre os lycéens franceses.

A ideia de se transpor o livro às telas já corria pela França, porém o desafio era grande em virtude do universo onírico e surreal da história escrita por Vian. Eis que a solução surgiu pelas mãos do não menos surreal diretor Michel Gondry, autor de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança (2004), O Besouro Verde (2011), The We and the I (2012), entre outros.

A história se passa na Paris de um passado indeterminado, com um cenário super retrô, repleto de invenções curiosas, com aquele ar de moderno-de-antigamente. Lá, vivem Colin (Roman Duris), um dandy que aprecia a boa música, a boa mesa e o dolce far niente; Nicolas (Omar Sy), seu cozinheiro, mentor e amigo; e Chick (Gad Elmaleh), um operário aficionado por Jean-Sol Bartre e seus ensinamentos existencialistas. A semelhança com Jean-Paul Sartre, obviamente, não é mera coincidência!

Chick é namorado de Alise (Aïssa Maïga), prima de Nicolas. Mas é, na verdade, muito mais apaixonado pela filosofia de Jean-Sol do que por sua namorada. O cozinheiro, por sua vez, é uma espécie de Don Juan, atraindo várias moças, entre elas a bela e rica Isis (Charlotte Lebon), com quem ele tem um relacionamento muito mais físico do que sentimental. Colin é, assim, o único “desapaixonado” do grupo. Situação, aliás, que o incomoda profundamente, já que ele sonha em se apaixonar como todo mundo!

Eis que um dia ele conhece Chloé (Audrey Tautou), uma jovem bonita, inteligente, delicada e sensível, por quem ele se apaixona perdidamente. Os dois se casam e vivem felizes até o dia em que Chloé fica doente e a vida começa devagarinho a desbotar. Ela tem uma flor crescendo dentro de seu pulmão. Uma flor que vai tudo vai mudar. E que vai pouco a pouco impedir os raios de sol de adentrarem a casa e o coração dos dois enamorados.

A crítica francesa foi bem severa com o filme de Gondry, afirmando que o excesso de efeitos visuais – feitos à moda antiga, diga-se de passagem – acabou por sufocar o jogo de atores e a emoção do romance vivido entre Chloé e Colin. Concordo em parte.

É verdade que o filme demora um pouco para “pegar”, sendo um pouco difícil para nós, espectadores, embarcarmos numa história tão abarrotada de simbolismos. Comidas vivas, feitas de tecido, pernas que se tornam elásticas ao dançarem, raios de sol que se materializam em forma de fios, um rato que é o espelho de seu dono… Elementos metafóricos que podem, vez por outra, desviar nossa atenção da história em si.

No entanto, a culpa talvez não esteja exatamente da overdose visual de Gondry, mas do excesso de tecnologia digital a que estamos acostumados hoje em dia. Uma tecnologia que vicia, que cega nossos olhos para outro tipo de realidade, ou pior, que confunde nossas mentes, não nos permitindo mais distinguir o real da ficção.

Certamente, Gondry poderia ter lançando mão “do famoso fundo verde” para recriar o universo de Vian diretamente no computador, como o fizeram tão bem James Cameron, Peter Jackson e tantos outros. Provavelmente, a coisa ficaria mais suave e mais verossímel para nós, espectadores do século 21. Afinal de contas, não assistimos e aplaudimos de pé Avatar ou Hobbit com suas overdoses de efeitos especiais e com suas histórias igualmente surreais?

Mas não. Gondry optou por deixar o absurdo com cara de absurdo. O surreal com cara de surreal. E talvez por isso ele tenha “pecado”. Talvez por isso esteja sendo punido pela crítica impiedosa dos franceses, seus compatriotas.

Apesar dos excessos, o filme é uma experiência bem interessante e válida, oferecendo-nos, de bandeja, uma porção de reflexões sobre a vida, a morte, religião, política, amor, amizade, etc.

É preciso, no entanto, abstrair-se da loucura, ou, ao contrário, deixar-se levar pela loucura do visual para adentrar o universo poético do filme.  Para se deixar tocar pela beleza dos simbolismos ali expostos. Para conseguir se identificar, por exemplo, com as cores que desaparecem à medida em que a vida vai perdendo o sentido. Ou com os espaços que diminuem à medida em que a angústia comprime nosso peito. Uma paleta de sensações que normalmente expressamos por meio de metáforas e que, no livro de Vian e no filme de Gondry, tomam forma e viram “realidade”.

Assim sendo e, contrariando alto e bom som a crítica francesa, recomendo fortemente A Espuma dos Dias de Gondry. Sem falar no livro de Boris Vian, que já estou morrendo de vontade de ler. Um filme PRA PENSAR.

* A revista Les Inrock postou em seu site um vídeo com um de seus críticos dando 3 razões para não se ir assistir ao filme de Gondry. Todas 3 relacionadas ao excesso de “efeitos”.

 

 

~ by Lilia Lustosa on maio 11, 2013.

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